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Cannes: Russell Crowe Ryan Gosling reinventam o melhor do estilo buddy movie

O ano é 1977, em Los Angeles. Em Sunset Strip o baixo da música disco dita o ritmo e os clubes de strip, então na mó de cima, carimbam o passaporte de muitas pinups para a crescente indústria porno. Espaço ideal para Shane Black idealizar mais um polar de fino recorte jocoso, sob a forma de um buddy movie que junta Russell Crowe e Ryan Gosling numa improvável dupla de detectives particulares aos caídos.

Como sempre, mais do que a trama interessam as peripécias vividas por ambos e o puro gozo que é sempre atravessado por momentos de grande ação. É este o selo que deu bons frutos desde o tempo em que Black era apenas o autor da saga Arma Mortífera, com o sucesso que se conhece. Demorou a assumir a realização, mas percebe-se logo que o faz com algum à vontade, como se pode ver neste arejado Bons Rapazes, mas sem vontade de ser mais do que duas horas de puro entretenimento. Depois de Cannes, estes ‘bons rapazes’ requisitam a atenção do seu público com este caper movie tão divertido como inconsequente.

O filme não poderia começar melhor. Algures em Hollywood Hills, um jovem acaba gozar ao apreciar as páginas centrais de uma revista masculina exibindo a escultura de Misty Mountains. Entretanto, num pequeno detalhe na imagem, apercebemo-nos ao fundo que um carro galgou a cerca e saiu da estrada, até que segundos depois um descapotável atravessa literalmente a sala para aterrar no quintal contíguo. É uma descomposta mas igualmente sensual e reveladora Misty que segreda ao miúdo antes de morrer: “gostas do meu carrinho, rapaz?” Aqui está um verdadeiro momento Shane Black.

É assim o ADN deste realizador que começou por ser argumentista, a fazer-nos saborear um diálogo de constante ação e humor corrosivo, de festo, como aplicara logo na sua estreia na realização com o mal-amado Kiss Kiss Band Bang, com Robert Downey Jr, ator com quem trabalharia novamente em Homem de Ferro Três. Agora as despesas da ação repousam no bouncer Jackson Healey (um avantajado Russell Crowe), incapaz de sair de casa sem a soqueira, bem como no investigador freelancer Holland March (Ryan Gosling), mais polido e afável, talvez para manter as aparências diante da filha menor Holly (Angourie Rice) – ela que acabará por ser o elemento mais responsável desta pandilha com a missão de investigar o misterioso desaparecimento de Amelia (Margerey Qualley).

Na tela vemos um Gosling de rédea solta, implacável e impagável, se bem que atado à responsabilidade de querer parecer bem diante da filha, e ainda um Crowe excessivamente relaxado, se bem que por detrás de todo este feel good reside a disciplina férrea de cumprir as cenas com todo o rigor. Um desafio suplementar, mas que sabe a puro gozo. Como ir ao cinema apenas para descontrair, mas sair de lá reconfortado pela saborosa surpresa.

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