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Cannes: Mendoza, Dolan e Mungiu, o peso da família

Venham ver, senhores, venham ler, são histórias de família, são histórias de cinema! No fundo, o que são mesmo é histórias de Cannes. Todas elas contadas por filhos de Cannes, todas elas sobre a célula familiar. Entra Brillante Mendoza, o cineasta que veio do mundo decorativo da publicidade para fazer o cinema mais despido de adornos que conhecemos. Confirmou-o com o bravo Ma’Rosa. Mungiu, o Sr. Palma de Ouro, de Quatro Meses, Três Semanas, Dois Dias (2007), regressa com uma nova auscultação ao sistema romeno; por fim, o puto canadiano Xavier Dolan que, aos 27 anos, apresenta o seu sexto filme em Cannes. Ele tem a Palma inscrita no futuro. Mesmo que não seja este ano, o prémio de realização não lhe deverá escapar.

Comecemos pelo filipino Mendoza que pintou a manta em Cannes, em 2009, com o visceral e sangrento Kinatai. Mas que amansou – e de que maneira – logo no ano seguinte, quando apresentou no festival de Veneza o pungente e sensível Lola, sobre a estranha relação entre duas avós para tentar superar as consequências do crime em que um neto foi autor e o outro vítima. Pois em Ma’ Rosa regressa ao mesmo cenário das ruas de Manila pejadas de miúdos de favela descalços na lama, de vendilhões. É aqui que encontramos Ma’Rosa, uma mulher e mãe de quatro que tem uma loja pequena, um karaoke de bairro, mas que é forçada a vender droga para completar o orçamento familiar.

Quando a polícia lhe bate à porta e a leva para a esquadra com o marido, ficamos também a perceber como em Manila tudo tem o seu preço. Desde logo a liberdade, o que implica que sejam os quatro filhos a arranjar o que falta pagar aos polícias, ou seja, vender a televisão velha, pedir dinheiro a amigos e usurários, ou como acontece com o mais novo, vender o seu corpo. Sim, é o realismo de Manila, mas sem paninhos quentes, nem a vontade de provocar lágrima no olho. É por isso gostamos tanto do cinema de Mendoza. Brilhante!

Em Bacalaureat, Mungiu regressa ao cinema realista de onde nunca saiu, apesar de um desvio Para Lá das Colinas, em 2012. Agora prepara-se (prepara-nos) para concretizar o sonho de ver a sua filha ingressar em Cambridge, uma das mais prestigiadas universidades britânicas, e fugir ao sistema romeno dos favores e dos compromissos. Pelo menos foi de acordo com assim que o médico Romeo Aldea viveu a sua vida. Nada mais nada menos do que sucedeu com os nossos pais, certo? Talvez aqui e ali com uma ajudinha, um telefonema, uma troca de favores… Tudo normal.

Só que um pequeno bate à porta da sua filha Eliza (Maria Dragus), ao seu molestada, mas não violada, à porta da escola quase na véspera do exame final do liceu (o bacalaureat, em francês) provocando-lhe uma lesão no braço direito. Um inesperado solavanco nos seus planos que o leva a aproximar-se do director para que tenha em consideração a relativa incapacidade da filha, à qual este reage bem, combinando uma marca para que a sua prova fosse identificada pelo professor que a corrigisse. Nem precisamos de desvendar qualquer spoiler, até porque Mungiu é suficientemente subtil para desenhar uma história de lugares comuns. Fica precisamente nestas zonas cinzentas onde ficamos irremediavelmente incapazes de poder antecipar uma reação moral de ferro.

É também desta forma subtil que o realizador romeno introduz na equação (o vírus) essa quase inevitabilidade do compromisso, do favor e, por último, da corrupção, onde o peso da família, das influências, do dinheiro não é de desprezar. Por mero acaso, durante um intervalo para finalizar este artigo, deparámo-nos com um monitor de televisão que transmitia a conferência de imprensa, onde Mungiu referia que não daremos conta quando fizermos esse primeiro compromisso.

 Por fim, em Juste la Fin du Monde, o puto Dolan mostra que é crescido (alguma vez foi garoto?), embarcando na adaptação ambiciosa da peça original de Jean-Luc Lagarce (e a quem Dolan dedica o filme), numa produção em que convocou a crème de la crèmeda representação francesa. A história desta família disfuncional conta-se assim: Gaspard Ulliel é Louis, um escritor gay que regressa a casa doze anos depois para lhes dizer que vai morrer. Calma, não há spoiler porque sabemos isso logo desde o início. O que não sabemos é que será difícil de mais passar a sua mensagem à mãe (Nathalie Baye), muito mais interessada em saber gossip lá da cidade, mesmo à irmã mais chegada, Suzanne (Léa Seydoux, em versão desleixada) e, muito menos, ao mano feroz Antoine (Vincent Cassel, em versão tresloucada) ou à sua mulher, Catherine (numa versão tímida e hesitante).

Xavier Dolan é um realizador inteligente e o seu filme está longe de ser fraco. Ulliel tem um dos seus melhores papéis, onde não diz nada, mas onde sabemos o que se passa na sai cabeça. Por isso é eficaz o trabalho de Dolan, deixando a sua câmara acentuar todos os tiques desta família que vive, sem saber, um momento oposto ao dele. O que nos deixa mais reticentes é percebermos que a inteligência de Dolan ao esforçar-se por deixar na tela toda a técnica para nos seduzir e até para seduzir o júri do festival. Dolan sabe que é brilhante. Mas o filme é só bom.

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