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Lumière! – A Aventura começa: o nascimento de uma nova arte

De repente, fez-se luz e… abriram-se as portas. De imediato, as pessoas foram saindo da fábrica da família Lumière, em Lyon. Estávamos em março de 1895. Do outro lado do ecrã, no mesmo ano, 33 pessoas juntaram-se no nº 14 do Boulevard des Capucines, no salão des Indiens, em Paris, onde é hoje o Hotel Scribe, para assistir à primeira sessão pública de cinema, no caso, uma dezena de curtas dos Lumière. Entre os presentes, estava também Georges Meliès, que logo demonstrou interesse pelo novo invento. Imaginar hoje essa sensação é como perceber o significado da primeira imagem de Lumière! que mostra a fotografia a ser superada por outra até adquirir o movimento das 24 imagens por segundo que nos transmitia o movimento natural dado pelo cinematógrafo. Extraordinário, se soubermos que esta invenção foi sonhada por Louis Lumière numa noite de insónia.

Não se sabe quantos ensaios houve dessa saída das fábricas, se algum. Só se sabe que nascia assim uma nova arte, o cinema. Depois da invenção do cinematógrafo, os irmãos Lumière, Auguste e Louis, deram espaço ao seu sonho através de uma pequena indústria de pequenas curtas metragens, cujo limite eram os 55 segundos imprimidos em 17 metros de película de 35mm. Fala-se num impressionante acervo de 1500 filmes, num monumental trabalho de restauração em 4k que o Instituto Lumière tem estado de desenvolver. Sim, Lumière! A Aventura Começa é o evento cinema do ano.

Hoje, mais de 120 anos depois, há uma nova luz que dá brilho a esta monumental abertura de portas e que permite ver, talvez como na altura, o resultado de tantos filmes que adquirem agora um brilho e um realismo desse restauro. Mas não só, é a seleção de Thierry Frémaux, delegado-geral do Festival de Cannes e Diretor do Instituto Lumière, tal como nos explicou na entrevista que nos concedeu, e, sobretudo, o comentário que lhes confere essa espessura de filme que supera largamente o efeito de curta e se interliga num maior exercício do grande cinema que dava os seus primeiros passos. Tal como a menina que começa a andar e que o off de Frémaux classifica como o primeiro filme de suspense, será que vai cair ou não?, assim se percebe a intenção por detrás das imagens, algumas delas pueris, a permitir essa leitura mais vasta. Muito mais vasta, já que toda a intenção que Frémaux passa em revista a montagem dos excertos de 108 filmes agora no formato de um único documento em longa-metragem, finalmente a permitir-nos essa visão adulta. Sobretudo se pensarmos que o cinematógrafo não tinha visor, o que exigia essa visão global para enquadrar no melhor plano feito “às cegas”.

Desde sempre que ao cinema Lumiére foi concedido o espaço do panteão dos inventores do cinema, o realismo que confrontaria com o lirismo de Meliès, normalmente traduzido naqueles filmes que foram passando ao longo dos tempos, como a tal saída dos trabalhadores das fábricas Lumière, a chegada do comboio à gare, o jardineiro regado… Claro que existem muitos outros filmes Lumière mais ou menos conhecidos e disponíveis na net..

Ainda assim, assumimos este registo didático de Frémaux – embora longe de o cinema Lumière para totós – como uma revisão de um cinema que talvez para muitos não tivesse tido a oportunidade de ser desfrutado numa cópia irrepreensível e acompanhado de outros elementos, como a banda sonora irrepreensível de Camille Saint-Saens, que trazem ao grande público o conhecimento do poder da linguagem cinematográfica de Louis e Auguste Lumière, bem como dos seus inúmeros operadores de câmara. É aí que percebemos o papel da mise em scène e o papel do realizador, a composição do plano e o local ideal para colocar a câmara, a profundidade de campo, da intenção dos travellings à poesia das imagens. Isto para além da exploração dos diversos géneros, da tal noção do remake e até o uso atual que damos aos drones, tão bem ilustrado pelo travelling em ascensão dado pela câmara colocada num balão que sobe. Ao fim e ao cabo, as mesmas considerações do cinema de hoje, bem mais de um século depois. Temos até a comparação ao cinema bem mais moderno, com um lançamento à água de um barco num tom igualmente épico como Titanic, de James Cameron, ou outras referências a John Ford, Kurosawa, Ozu, Spielberg…

É precisamente essa novidade, afinal de contas tão atual que dos deslumbra e comove, fazendo-nos encarar o cinema como a tal arte nova que permite explorar essa nova janela ou porta para o realismo, bem como abrir novos mundos ao sonho através da  extensão e limites da câmara. Incríveis são ainda os segmentos das equipas de operadores, com particular destaque para Alexandre Promieu, num contributo muito enriquecedor, sobretudo depois que partiram para registar e captar essa realidade nos quatro cantos do mundo.

Como ver hoje este filme Lumière!? Talvez a ideia de examinar estes menos de 90 minutos dentro de uma qualquer teoria da história da arte do cinema possa desvirtuar um pouco a intenção mais pedagógica e de Thierry Frémaux, em retomar parte do espanto ao captar as imagens dos irmãos Lumière. Até porque é um acervo que se redescobre, muitos destes filmes pela primeira vez por muitos de nós, pois não estavam sequer disponíveis. Por isso mesmo, dizemos bravo Thierry! Sim, a aventura já começou. Obrigado por este pequeno tesouro.

 

 

 

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