Sábado, Abril 20, 2024
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‘Peixe-Lua’ e ‘Quaresma’ de José Álvaro Morais – um ritual chamado cinema

A sensualidade narrativa, o vigor estético e a evidência do gesto do cinema que perpassa nas imagens dos filmes de José Álvaro Morais permanece como um dos elementos mais ricos preciosos da arte cinematográfica portuguesa. Quis o produtor e exibidor Paulo Branco acentuar a sua relevância ao programar, infelizmente em sessões únicas (mas históricas!), Peixe-Lua e Quaresma, os dois derradeiros filmes de Zé Álvaro, que produziu, respectivamente em 2000 e 2003. Isto na comemoração dos nove anos do desaparecimento do cineasta da Covilhã, a 30 de Janeiro, de 2004, apenas com 59 anos e muitos filmes por fazer, precisamente numa altura em que a sua carreira começava seriamente a ganhar uma regularidade e consistência.

Beatriz Batarda, em Peixe-Lua (2000)

Seja a descobri-los ou revê-los percebe-se bem a capacidade de aliar um certo pudor a um fulgor pujante de cinema, ainda que feito aos solavancos, com interrupções demasiado longas. Pena é que esta obra que nos enche as medidas seja, infelizmente, pouco divulgada. Ficam os filmes, claro, nestes dois casos, o melhor de Álvaro Morais na sua curta, mas fértil carreira, deixando no ar o prenúncio de um tremendo desejo criativo atraiçoado pelo tempo.

“Ele sabia exactamente o que queria filmar”, referiu Paulo Branco, durante a apresentação no Cinema Nimas, em Lisboa. “O Zé Álvaro estava sempre à frente de toda a gente. Ele criava ambientes familiares são raros no cinema português, seja o desenho da burguesia da Covilhã (de onde era e onde foi enterrado), mas também a de Alcochete (ou até a de Lisboa, em O Bobo), em que nada é feito para chamar a atenção ou sublinhar o que quer que seja.”

O produtor Paulo Branco, e os actores Paula Guedes e Nuno Lopes, prestam homenagem ao realizador José Álvaro Morais

Na sessão estiveram também presentes os actores Nuno Lopes e Paula Guedes, que não viam desde a estreia estes dois casos de tremenda modernidade. Paula Guedes, uma presença regular em quase todos os seus filmes, recorda a “forma profunda e sincera como o Zé Álvaro relatava na imagem as relações humanas”. Já Nuno Lopes reconheceu que deve a sua carreira a estes dois filmes, pois “foram os primeiros que fiz no cinema. Aliás, se eu existo no cinema foi graças ao Zé Álvaro que me chamou. Ele que me fez conhecer o Paulo (Branco) que depois me apresentou a outros realizadores e assim fui criando o meu percurso. Na verdade, em este é o meu primeiro grande papel no cinema. E o meu primeiro grande contacto com uma equipa de cinema.”

Em ambos os filmes parece ficar demonstrada a vontade imensa de pôr à prova todo o potencial de Beatriz Batarda, uma actriz que conhecia desde sempre, oferecendo-lhe dois papéis que acabam por funcionar como ‘ovnis’ no panorama português, pois será difícil encontrar outros (ou actrizes para os interpretar) com igual pujança, luz, frescura e ousadia. Terá, aliás, Beatriz Batarda alguma vez superado a Maria João de Peixe-Lua ou a Ana de Quaresma? Dificilmente, mesmo que deixe frequentemente entrever todo o seu talento. Pelo menos, até ao seu mais recente trabalho, em The Great Yarmouth: Provisional Figures, uma vez mais pela mão de Marco Martins (com quem trabalhou intensamente para cinema e televisão), mas que veremos apenas em Março nas salas.

Uma coisa é certa, parte da singularidade do trabalho de Álvaro Morais parece residir num constante devir, em que as personagens movem e se entreligam com tantas outras, ao ritmo dos diferentes níveis narrativos, ainda que fluindo e evoluindo de uma forma orgânica. Apesar das raízes nortenhas (nascido em Coimbra, mas com vida na Covilhã), nota-se em José Álvaro uma pulsão pelo Sul. Desde logo na fronteira de Lisboa, na margem do Tejo, como no início fabuloso do documentário que deseja ser ficção, Ma Femme Chamada Bicho (1976), em que a capital portuguesa faz ponte com a capital francesa, para juntar a arte e o amor da artista portuguesa Vieira da Silva com o pintor húngaro Arpad Szènes. Um Sul que se vai revelando com a sua paisagem e um particular dramatismo geográfico; de igual modo, no atribulado projecto de O Bobo (1987), que levou 14 anos a concretizar, navegando entre o teatro e um cinema que se deseja fazer, assente numa Lisboa ribeirinha de marialvas e marujos. O resultado dessa imensa espera seria o prémio do Leopardo de Ouro em Locarno. Em Zéfiro (1993) temos o prolongamento desse desejo de viagem marítima, num projecto algo insólito, uma vez mais mesclando o documentário e a ficção, mas também a História de Portugal. Em 1994 fará ainda Margem Sul, antes de um novo interregno.

Entre Minnelli e Dreyer

Francisco (Paco) Rabal, em Peixe-Luz

Só depois da entrada em cena de Paulo Branco, a sua carreira assumiria uma certa estabilidade. E, decididamente, na margem sul, com em Peixe-Lua, onde de resto o seu cinema assume uma dimensão mais robusta e plena. Não só na aproximação que faz ao universo familiar português, pela introdução da personagem fascinante de Beatriz Batarda, como a mulher que decide, num ímpeto, não casar, provocando assim, diversas reverberações familiares que abrem novos fios narrativos entre dois verões. Mas em que cada personagem assume um relevo que apenas parece ter igual na dimensão igualitária que Pasolini dava a todos os seus secundários. O elenco é tremendo, como o fora já em O Bobo: além de Batarda, Marcello Urgeghe, Ricardo Aibéo, Luis Miguel Cintra, Isabel Ruth, Paula Guedes, Rita Durão… (que em grande parte transitaria para o filme seguinte Quaresma). Além da presença impressionante de Francisco (Paco) Rabal, presença em vários filmes de Luis Buñuel (Nazarin, 1959, Viridiana, 1961, Belle de Jour, 1967), aqui numa das suas últimas aparições antes da sua morte em 2001. Peixe-Lua é a todos os níveis um filme tremendo, na sua oscilação, que revela uma enorme complexidade narrativa, embora resolvida por uma subtil direcção que termina com um momento musical que evidencia a maior proximidade que existe no cinema português com o cinema de Minnelli, em que a dinâmicas das panorâmicas se completa com travellings, plongés ou planos cruzados, sem que isso revele qualquer gesto injustificado. Ou na actuação das personagens em off ou em vivo, sempre em diferentes camadas de narração.

Filipe Cary e Beatriz Batarda, em Quaresma (2003)

Em Quaresma, Morais eleva ainda mais a sua verve cinematográfica, num projecto muito pessoal, desde logo, aqui marcado por um regresso à sua Covilhã, à imobilidade rochosa local, ao eterno envolvimento familiar e aos seus problemas – uma vez mais, com Beatriz Batarda a conferir um outro elemento de provocação, sedução e atracção pelo desequilíbrio. Aqui, o protagonista (o não actor, mas brilhante, Filipe Cary) vive dividido pela urgência de viajar das rochas milenares da Covilhã para Lisboa, embora acabando por se instalar, já na segunda parte do filme, no norte da Europa, numa plana e futurista Dinamarca. Mas há ainda uma dimensão de redenção crística que aproxima (e de que maneira!) o cinema de Morais a estatuto de um Dreyer.

Comum a ambos os filmes é a dimensão da indecisão humana (a indecisão de Maria João/Batarda, em Peixe, e de David/Filipe Cary em Quaresma), com a ideia de permanente fuga (para a frente) e até com títulos quase secretos que só no final se revelam. Há também aqui uma dimensão de uma certa portugalidade profunda e o seu lado cristão, interior, bem como uma vontade (ou impossibilidade) de voltar a casa (como no cinema de Nicholas Ray), em Quaresma encarado como um sonho e pesadelo e de diversos acordares sucessivos. Oscilando entre “uma parte sinuosa, na Covilhã, ‘calando-se’ depois quando vai para a Dinamarca”.

Paula Guedes e Nuno Lopes, falam de Peixe-Lua e Quaresma

O produtor Paulo Branco reconheceu mesmo que teve nestes dois filmes “uma intervenção mínima, pois na altura decidia as coisas todas entre dois aviões, e não ia praticamente às rodagens”, referiu. “A única coisa que fazia era praticamente arranjar o dinheiro.” Ao realizador ficava assim a habilidade de desenhar cada personagem e conferir-lhe uma história enorme. Como adiante, “bastava uma frase, uma troca de planos para se conhecer aquela personagem, o tempo em que vivera, a sua dinâmica familiar, o seu passado, o seu presente…” Até porque “ele sabia exactamente o que queria filmar”, como salienta Branco. “Estava sempre à frente de toda a gente. Ele criava ambientes que são raros no cinema português “como o desenho da burguesia da Covilhã (de onde era e onde foi enterrado), mas também a de Alcochete (ou até a de Lisboa, em O Bobo).

“Infelizmente, só produzi dois filmes dele. Conheci-o muito cedo, em 1973, estava ele no exílio, na Bélgica”. Veio a Paris e recorda-se do encontro, “estava ele com um fato de veludo verde, algures numa estação de comboio. Tomamos um café e ele seguiu.”

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