Terça-feira, Maio 21, 2024
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Entre Muros: viva a liberdade do cinema que desconfina o olhar!

Natureza Humana, 2720 e Corpos Cintilantes: três curtas metragens portuguesas, respetivamente de Mónica Lima, Basil da Cunha e Inês Teixeira. São elas que animam a sessão 'Entre Muros', nas salas a partir de dia 9.

A pujança do cinema em português de pequeno formato tem confirmado uma nova geração de cineastas com maturidade suficiente para voos bem mais altos. E a coisa não é de agora, como se sabe. Há uma certeza de cinema que destila de um leque muito significativo de jovens cineastas. Como este trio que deseja superar ‘muros’, sejam eles, os do confinamento, que circunscreveram a criatividade a um espaço mais limitado, como sucede a Natureza Humana, vencedor do último Curtas de Vila do Conde, em que Mónica Lima capta os dilemas do confinamento de um casal durante a pandemia do covid 19; sejam ainda os ‘muros estéticos’ de que Inês Teixeira se serve para ilustrar as suas personagens em transição, ‘entaladas’ entre a adolescência e a maturidade, em Corpos Cintilantes; até os muros sociais dos bairros clandestinos, visados por Basil da Cunha, consagrado melhor realizador em Vila do Conde, além de obter prémios importantes em outros festivais. Aqui no filme com o código postal 2720, que engloba a Reboleira, no fundo, onde bate o ADN do cinema deste cineasta luso-suíço que se prepara para apresentar no próximo IndieLisboa (23 de maio a 2 de junho), a sua terceira longa-metragem, Manga d’Terra.

Agora chegou a oportunidade de um público não circunscrito a festivais, sejam eles nacionais ou estrangeiros, descobrir este conjunto de três curtas multi-premiadas, numa sessão organizada pela Agência da Curta Metragem. Até porque este é um cinema em que se sente já a sua própria gravitas, alicerçada em seguras opções de mise en-scène. Como sucede em 2720, um filme comissariado pelo Batalha Centro de Cinema, onde Basil da Cunha une diversas personagens, em redor de um bairro clandestino, embora já habituadas a um quotidiano marcado por um rolo compressor social.

De um lado, o futuro oferecido por Camila, uma menina de sete anos que procura o seu irmão, e por outro, o presente, de Jysone, um jovem saído da prisão, após 6 anos de detenção, no dia em que inicia um novo trabalho, embora correndo o risco de chegar atrasado. A opção de longos planos sequência liga as diferentes personagens, embora nos ligue também a elas próprias num sinuoso jogo centrado nesse bairro labiríntico embora dominado por uma forte sensação de comunidade, mesmo que marcada pelo olhar da intervenção policial.

Camila e a malta do bairro, em 2720, de Basil da Cunha.

Já Inês Teixeira tem uma estreia muito auspiciosa na realização, com Corpos Cintilantes, um filme apresentado na Semana da Crítica, em Cannes, em 2023, e vencedor do prémio de melhor ficção no festival Caminhos do Cinema Português, em Coimbra, além da participação em muitos outros certames. Fascinante a forma como capta o momento particular de Mariana (Maria Abreu), uma jovem de 16 anos, em que lida com a incerteza do sentimento da paixão. Sobretudo ao passar a olhar de outra forma o colega Jorge (Gaspar Menezes). Algo que pode ser encarado como um gesto de libertação, um pouco como a acordar para a vida as esculturas ‘entaladas’ e petrificadas, aquelas que estudou na aula, e que ainda pontuam o tom burguês de vários edifícios das Avenidas Novas.

Gaspar Menezes e Maria Abreu, em Corpos Cintilantes.

Por fim, Natureza Humana, de Mónica Lima fecha, a encerrar o programa de curtas. Um projeto concretizado em plena pandemia, em que o próprio olhar de Lima assume uma certa interioridade, sublinhado por um fechamento do enquadramento que nos aproxima da tal natureza humana. Mesmo sem deixar de abordar coisas simples, como o passar do tempo, a necessidade de nos ligarmos aos outros e até a preparação para lidar com tudo aquilo que foge à normalidade. Ou o que nos distrai da “atração pelo abismo das guerras” como é referido a certa altura. O que não deixa de ter uma atualidade extrema.

Após passar pelo Festival Internacional de Cinema de Roterdão, onde arrecadou o Ammodo Tiger Short Award, e de inúmeras presenças em festivais internacionais, surge agora a oportunidade de seguir o momento de incerteza vivido por um casal lisboeta (Crista Alfaiate e João Vicente). Sim, viva a liberdade do cinema que desconfia o olhar!

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