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Ricardo e a Pintura: uma lição de arte na caverna dos sonhos

Poderá ser enganador o singelo título, Ricardo e a Pintura, bem como o subtítulo ’40 anos de amizade’, remetendo, talvez, o espetador incauto para mais um qualquer telefilme ou documentário sobre arte. Mas não. Barbet Schroeder, o cineasta e produtor francês, de origem francesa e nascido no Irão, penetra nos interstícios da perceção e da criação artística, observando o amigo e artista de origem argentina Roberto Cavallo, a viver em França desde 1976 e cuja vida, desde os 16 anos, foi integralmente dedicada à pintura. Hoje, aos 70 anos, Ricardo retém a mesma emoção, paixão e simplicidade sobre a pintura, algo que partilha com as crianças e jovens da aldeia da Bretanha, onde escolheu viver. Talvez seja até essa possibilidade de arte como forma de vida que apetece reter.

Mesmo aos 82 anos, Barbet não pretende fugir ao modelo de documentário didático. Embora prefira filtrar o caminho traçado ao longo de uma centena de horas de observação e captação de imagem, pontuado por intensos momentos de criatividade que nos ligam aos grandes gestos da arte. Algo oferecido logo no plano de abertura, em que a câmara segue o pintor de mochila e telas às costas, fazendo-nos lembrar uma qualquer recriação de Van Gogh feita para cinema ou televisão. Mas é Ricardo Cavallo que desce a falésia até Saint-Jean-du-Doit, uma gruta de escalas majestosas e desproporcionadas, situada no extremo ocidental da Bretanha, em França. Seguramente, um testemunho de milhões de anos da presença visitada pelo homem. Pois, ao longo desse espaço de várias histórias, quantos seres humanos não terão encarado, ao longo dos milénios, dentro daquela sala escura, o ecrã de luz no exterior, interrogando-se sobre uma qualquer representação platónica da realidade? E esta não será a única representação cinematográfica, pois a metodologia muito particular de Cavallo, concebendo imagens de uma magnitude monumental, ainda que divididas em pequenas placas que pinta e junta depois de chegar ao atelier, atribuem-lhe uma incrível dimensão de perceção e, sobretudo, de uma découpage da realidade. Ao fim e ao cabo uma visão próxima da de um verdadeiro cineasta. 

A dimensão tirânica a parcelar da visão de Ricardo Cavallo.

Ainda assim, os diversos elementos irresistíveis deste filme – “que transforma tudo”, como refere a cineasta Claire Denis – convidam a uma tremenda imersão na história da pintura, aqui devidamente pontuada por diversas irrupções das influências maiores de Cavallo: seja o êxtase e rendição de Velázquez, a veneração de Caravaggio, passando pelo arte grega, asteca, os matizes da luz de Monet, ou até a singeleza do estudante imberbe, influenciado pelo dimensão titânica e ordenada do seu mestre, bem como pelo seu ascetismo, com uma base alimentar de arroz e fruta. Ou o êxtase de contemplar uma pintura concebida num verdadeiro ângulo de 360º, permitindo a inesperada combinação de elementos que se completam em posições diferentes. Como se de um cubismo muito particular se tratasse. 

A partir da obra e referências de Cavallo, o amigo Barbet penetra nos elementos mais ancestrais da terra, e do tempo. Num ato que recorda Werner Herzog, na sua Cave of Forgotten Dreams, com a cineasta alemão à procura do testemunho das gravuras nas grutas de Chauvet, bem distantes de Jean-du-Doit, representando a mais antiga criação figurativa do ser humano, de resto, referidas neste filme.

É claro que Schroeder não é Tarkovsky, nem Cavallo, uma espécie de Andrei Roublev. Apesar da tremenda experiência de Barbet, sobretudo pelo convício que teve durante toda a nouvelle vague com Godard, Rivette ou Rohmer, até pela sua produtora, Les Filmes du Losange. Dito isto, Ricardo e a Pintura valerá sobretudo por aquilo que for capaz de transmitir a cada espetador individualmente. E essa poderá ser a grande descoberta deste filme. Aquela que privilegia o poder da arte e se distrai das coisas inúteis ou superficiais.

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