O cinema de Hal Hartley possui essa rara capacidade – quase única – de nos levar para um porto seguro dominado por histórias banais, habitadas por gente comum, mas que dizem coisas que não escutamos em gente comum. Interrogam-nos e, ao fazê-lo, propiciam deliciosas reflexões existenciais. Mais de uma década depois de Ned Rifle, o filme que encerrou mais uma trilogia (esta iniciada no final da década de 90), Hal Hartley devolve Where to Land, um regresso, quase poderíamos dizer, à sua origem. Não é coisa pouca esta teimosia autoral, sobretudo no contexto do cinema que se faz hoje em dia e das constantes piscadelas de olho tecnológicas. E mesmo que Hal nos indique logo no título Onde Aterrar. Hartley esteve em Lisboa, a convite do LEFFEST, para a mais aguardada retrospetiva, desdobrando-se em aparições com o público. Tivemos oportunidade de estar com ele numa delas em que apresentou o seu último filme.
Aos 65 anos, Hartley avança seguro, mesmo que um pouco com uma intencional deriva e com um olho no retrovisor. Até se poderia dizer que este filme quase se confunde com uma suas primeiras obras, ainda que amaciado por uma serenidade de vida, sempre desperta por diálogos introspetivos em linha com uma dimensão estética oral que o acompanha desde sempre. Ali mesmo, desde a viragem do milénio. Se quisermos, podemos até pensar num tremendo raccord entre um ex-mecânico (Robert Burke) ou ex-condenado que pede boleia no início de The Unbelievable Truth (1989) e um outro (Bill Sage) que interpela um jardineiro sábio (o mesmo Robert Burke) em Onde Aterrar.

Filme acidentado, pelo menos, desde 2020, quando o projeto que recebeu luz verde, impulsionado por uma campanha no Kickstarter, embora a produção tivesse que ser suspensa devido à pandemia global. O título foi o cineasta buscá-lo a “uma expressão que ouvia muitas vezes do meu avô, capitão de um navio”, referiu o cineasta na apresentação em Lisboa. “O ‘where to land’ referia-se “à chegada ao porto, com segurança”, garantindo que “toda a minha carreira foi sobre não chegar lá.” Aliás, é essa a ligação com a imagem inicial de um navio à deriva numa tempestade. E em ambos os casos (e não serão quase todos os casos?) temos ‘navios à deriva’, autênticas personagens à procura de si próprias.
A narrativa centra-se em Joseph Fulton (Bill Sage), um cineasta em reflexão de carreira, numa personagem onde não será legítimo enquadrar o próprio Hartley. Será? Não tanto, se pensarmos que este ser procura um objetivo para a sua carreira, cansado de uma carreira de insuflada de comédias românticas. Um novo propósito para a sua vida encontra-o como ajudante de um guarda do cemitério. O objetivo é “o cuidado, cultivo e manutenção de recursos naturais”. Portanto, uma função meramente desinteressada de motivos económicos, apenas motivada pela simples vontade de trabalhar com as mãos, estar ao ar livre e sentir o peso cansativo do dia ao fim de cada jornada. Ou seja, estar perto da natureza e não apenas motivado apenas por uma ideia de realização.

Esse jardineiro é uma recordação com mais de 30 anos, quando vivia em Upper Manhattan, mesmo em frente a esse cemitério secular. Após uma reunião sobre projetos de cinema, “que eram uma verdadeira tormenta”, percebeu a enorme dignidade do homem que cuidava do cemitério. “Parei porque esse velho procurava puxar galhos mortos dos ramos mais baixos das árvores. Ele cortava-os, arranjava-os. Fiquei comovido com a dignidade simples do trabalho dele. Senti-me muito pequeno, porque ele sabia para onde ia. E lembro-me de ter escrito sobre isso num romance pequeno, que deu origem a este filme.” E partilhou mesmo como Robert Burke captou a ideia e lhe enviou uma mensagem pelo telemóvel, dizendo: “Sei exatamente como interpretar este gajo.” E enviou-lhe uma foto de um chapéu com a legenda: “Este é o chapéu. Ele usará estechapéu. Conheço-o.” Dito e feito.
Já se vê, esta é mais uma obra de autor, muito reconhecível do ponto de vista interpretativo, mas também visual e musical. E no renovado cuidado na escrita de diálogos. Foi precisamente com o seu “interesse em escrever diálogos que comecei a interessar-me de verdade pelo cinema. A linguagem, o diálogo, fazem parte de muita coisa.” No entanto, Onde Aterrar não pretende ser uma revisão da matéria. Parece-nos até almejar mais uma dimensão intemporal, serenamente em contacto com a vida, a sua razão de ser e os seus limites. Essencialmente igual a si própria, mesmo que crescendo com ela.

É então nesse permanente questionar, entre diálogos abertos, em ritmo pausado, que Hartley nos interessa pelos destinos das personagens, ligadas por opiniões sobre espiritualidade, política, religião, e, claro, a condição humana e o sentido da vida. Sempre dirigindo a narrativa, a partir destes diálogos inquietantes, plenos de significado – como o tal navio à deriva – em que um naipe de atores da família Hartley, como os já citados Bill Sage e Robert Burke, mas também Edie Falco, no papel da ex-mulher de Joseph. E, claro, devidamente assinalados pela banda sonora meticulosa e precisa, como sempre composta pelo próprio Hartley, a acentuar esse clima, ora sereno, ora agitado.
“Nos meus filmes, gosto como a informação se mistura”, confessa. Pois são mesmo esses nós na linguagem que bem apreciamos, “quando passa de uma pessoa para a outra, evolui, até que às vezes, já nem é verdade. Isso é o que chamo comédia de enganos.” Ora bem mais. Ora é essa dádiva que nos remete de novo (e sempre) para os seus filmes. Como se essas personagens, sejam elas mecânicos, condenados, mas também padres, nos revisitam. Lá está, como se Robert Burke, de Unbelievable Truth regressasse, de novo como Burke, para uma aterragem segura.


