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Kontinental’25: Uma reflexão sobre a culpa e redenção

Radu Jude é, muito provavelmente, o cineasta europeu mais consistente da atualidade. Provocador, politicamente engajado, satírico e cinéfilo, o seu cinema oferece-nos, a cada novo filme, um olhar incisivo sobre o neocapitalismo contemporâneo, as suas inconsistências e idiossincrasias.

Chegou agora às salas Kontinental ’25 — o segundo filme de 2025 (o outro foi Dracula) — descoberto no passado Festival de Berlim, onde o autor romeno recebeu o Urso de Prata para o melhor guião. Este é um curioso melodrama realista sobre o papel da culpa, refletido na dimensão político-social da Roménia atual, enriquecido ainda pela introdução de um diálogo entre cinema e história. Como sucede aliás com os anteriores Não Esperes Muito do Fim do Mundo (um dos melhores filmes de 2023) ou Má Sorte no Sexo ou Porno Acidental (Urso de Ouro, em Berlim, 2021).

A premissa envolve Orsolya, uma mulher de classe média e agente autárquica em Cluj, na capital da Transilvânia. Cabe-lhe e ela a responsabilidade de resolver situações-limite — como a de despejar um sem-abrigo da cave de um edifício em construção, que acaba por suicidar-se em consequência dessa decisão. Incapaz de perdoar-se, o seu quotidiano sofre uma reviravolta, tornando-se um calvário de penitência e procura de redenção moral.

“Kontinental ’25” é igualmente também um filme que faz vénia ao clássico de Roberto RosselliniEuropa ’51 (1952). Em certa medida, poderá ser visto como um remake daquele, em que Ingrid Bergman — no seu segundo papel com Rossellini, num total de cinco — vive uma tragédia semelhante após o suicídio do filho. A homenagem é sublinhada também pela estética do cartaz do filme de 1952 —bem visível numa cena ambientada num bar de ambiente cinéfilo.

A culpa de Orsolya manifesta-se não só na sua esfera privada (os telefonemas para os filhos e a promessa de novas férias em Veneza), mas também numa espécie de via crucis, embora permeada pela tentação de delírio etílico e erótico com um ex-aluno, antes da derradeira tentativa de redenção espiritual com o padre. Mesmo quando toda a angústia é contrastada por elementos surrealistas — símbolos de distração e obsessão modernas, como a presença de dinossauros animados no parque da cidade ou o uso constante do telemóvel — Jude devolve-nos uma narrativa carregada de significado.

Ao trocar o ambiente de pós-guerra, já em mudança social intensa em Itália, pelo contexto neoliberal, atual e desumanizado, do interior da Europa — assinala a euforia imobiliária (Kontinental ’25 é também o nome do empreendimento imobiliário escolhido pelo sem-abrigo), algo bastante familiar aos portugueses. Ainda assim, uma centelha de humanidade mantém-se, olhando-nos nos olhos, como que à procura dessa esperança silenciosa em tempos de crescente indiferença.

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