Domingo, Fevereiro 22, 2026
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Berlinale: num festival a-politizado foi de política que se falou

Apesar da ausência de temáticas de contorno político sensível nos filmes em competição, acabou por ser mesmo de política que se mais falou durante toda a Berlinale. Foi o elefante na sala, digamos.

Ao longo da Berlinale, e à medida que íamos auscultando a pulsação nos 22 filmes candidatos ao Urso de Ouro, a sensação que se foi instalando foi a perceção de um certo cuidado higiénico em não evitar filmes que alimentassem focos de um (indesejável?) debate político. Apesar de acreditarmos na seriedade artística dos programadores, custa a crer que não existissem propostas a articular discursos sobre o inacreditável mundo em que vivemos com dignidade de figurar na mais prestigiada secção. Quanto mais não seja por se tratar de um dos certames historicamente mais abertamente politizado.

Como se sabe, a mensagem de uma certa sublimação política foi logo veiculada na abertura pelo presidente do júri, Wim Wenders, ao ser questionado sobre o posicionamento do evento relativamente ao genocídio em Gaza, bem como o apoio a Israel dado pelo governo alemão, o principal financiador do festival. O realizador que completou 80 anos em agosto passado, defendeu que vamos estar fora da política, argumentando que os cineastas devem ser o contrapeso e o oposto da política. Dado o impacto das suas palavras e a contextualização de uma secção que parecia — à partida — até espelhar o inverso, naturalmente, sentiu-se uma reverberação por parte da imprensa acreditada.

E que motivou até a intervenção da diretora do festival, Tricia Tuttle, como que dando um ‘murro na mesa’ e colocando um pouco de ordem na sala: Os realizadores são criticados se não respondem; ou se respondem, mas não gostamos daquilo que dizem; são criticados se não condensam pensamentos complexos numa breve frase quando um microfone lhes é colocado à frente, numa altura em que pensavam estar a falar de outra coisa. Começava, assim, de forma gelada, um longo comunicado de nove parágrafos, com vontade de justificar que há ainda para ver filmes sobre genocídio, violência sexual em tempo de guerra, corrupção, violência patriarcal, colonialismo ou abuso do poder do Estado. Digamos que estes temas — todos eles atualíssimos — terão figurado, talvez, mais nas secções paralelas.

Contudo, o comunicado de Tricia ia ainda mais longe: há aqui cineastas que enfrentaram violência e genocídio e que podem enfrentar a prisão, exílio e até a morte pelo trabalho que fizeram ou pelas posições que assumiram. Vêm a Berlim e partilham aqui o seu trabalho com coragem. Isso está a acontecer agora. E deixou mesmo um aviso: Será que estamos a amplificar suficientemente estas vozes?

Claro que sim. Aliás, a opção de programação do festival nunca esteve em causa, muito pelo contrário. Tal como também se compreende essa tentativa a que muitos jornalistas se entregam para ‘sacar’ um soundbite eficaz para a sua publicação.

Só que o ambiente gelado do exterior contrastou ainda mais com o calor inflamado da ‘carta aberta’, enviada na passada terça-feira, por diversas personalidades que passaram pela Berlinale, como Javier BardemTilda SwintonMark RuffaloKen Loach, mas que incluía também o português Miguel Gomes ou o israelita Avi Mograbi, manifestando uma oposição visceral, recordando que é impossível separar uma coisa da outra; e apelando para queinstituições da nossa indústria recusem uma cumplicidade com a violência terrível que continua a ser infligida aos palestinianos.

Uma vez mais, em resposta à carta, Tricia Tuttle defendeu a honra do festival, argumentando, em entrevista à Screen Daily, reconhecendo a profundidade da raiva e da frustração, embora classificando as acusações como desinformação e considerando esse um gesto perigoso.

A título de curiosidade, recordemos as palavras do próprio Wim Wenders, publicadas no famoso livro de ensaios «A Lógica das Imagens» (editado, em 1988, pelas Edições 70) e onde se lê explicitamente: Todo o filme é político. E os mais políticos são aqueles que pretendem não o ser: os filmes de ‘entretenimento’Esses são os mais políticos de todos, porque ignoram a possibilidade da mudança. Em cada fotograma dizem-nos que está tudo bem como está. Como um spot publicitário sobre a conformidade. Afinal de contas, a lógica das palavras, vale o que vale.

Assim foi esta 76ª edição do Festival de Berlim onde a política não foi convidada, mas acabou por ser o elefante na sala.

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