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Abdallah Alkhatib: “Palestina livre até ao fim do mundo!”

Falámos com o realizador de ‘Chronicles From the Siege’ e ficámos contagiados com a sua energia e resiliência. Acabamos de saber que vence o prémio Perspectives. Parabéns Abdallah! We need your cinema!

Foi o discurso da cerimónia da entrega dos prémios da 76ª Berlinale. Na verdade, foi o discurso mais corajoso, direto e frontal de que nos lembramos em mais de duas décadas de festival. Por isso mesmo, decidimos transcrevê-lo, na íntegra – antes mesmo da nossa peça sobre o filme de Abdallah. Palestina Livre!

“Estou feliz por aqui por receber um prémio, mas como sou palestiniano, tenho de usar este momento para falar da Palestina. Estava muito pressionado para participar na Berlinale, por um motivo: poder aqui dizer: ‘A Palestinia será livre!’. Um dia teremos um grande festival de cinema, no centro de Gaza, e em outras cidades palestinianas. O nosso festival estará em solidariedade com o povo que vive cercado, sob ocupação e com ditaduras em todo o mundo. Falaremos de política antes do cinema; falaremos de resistência antes da arte, de liberdade antes da beleza e do ser humano antes da cultura. O tão esperado dia está a chegar, e quando as pessoas perguntarem o que aconteceu, digam-lhes que a Palestina se lembra. Vamos lembrar-nos de todos que estiveram ao nosso lado, e vamos lembrar-nos de todos que estiveram contra nós. Contra o nosso direito de viver com dignidade ou aqueles que escolhem ficar em silêncio. Disseram-me que deveria ter cuidado antes de dizer o que eu vou dizer agora, porque sou refugiado na Alemanha e há muitas linhas vermelhas. Mas não quero saber: preocupo-me com meu povo e a Palestina. Então eu vou dizer. Uma palavra ao governo alemão: vocês são parceiros no genocídio em Gaza por Israel. Acredito que são inteligentes o suficiente para reconhecer essa verdade, mas vocês optam por não se importar. Palestina livre agora e até o fim do mundo!

Chronicles From the Siege foi o melhor filme que vimos nesta edição nº 76 da Berlinale. Claro, que vale o que vale. No entanto, serve também para perceber que algumas das melhores opções estavam fora da competição oficial. Não estava na seleção oficial a concurso ao Urso de ouro, mas na Perspectives, a secção criada por Tricia Tuttle, há dois anos, em substituição da Encounters (onde há três anos o saudoso João Canijo, exibiu Viver Mal, estando Mal Viver na oficial, onde venceria o prémio do júri). Dedicada a novas vozes e aos formatos híbridos, procura novas linhas para o futuro do cinema. Sim, algo que passa necessariamente pela urgência do cinema de Alkhatib. 

Aliás, estas crónicas são precisamente uma reinvenção formal ou um complemento ‘híbrido’, entre ficção e documentário, do pungente Little Palestine: Diary of a Siege (2021), revelando a realidade cria do maior campo de refugiados palestinianos do mundo, Al Yarmouk, em Damasco, onde nasceu há 37 anos.

Sempre com o cerco em pano de fundo, Alkhatib ensaia um foco de ficção nesse espaço onde de desespero e privação gritantes. Ainda assim, não se priva de mostrar a possibilidade de alegria, do sonho da arte e até um lado mais descontraído, contemplando algumas brincadeiras e até um certo humor mordaz no meio da destruição total, como dirá, a certa altura, na nossa conversa, “a comédia negra, ou a comédia em geral, faz parte da nossa vida, percebe?”

Percebemos. Será? Entremos então nesta peça de um mosaico, composta por pequenas vinhetas interligadas, ambientadas numa cidade sitiada, sujeita a bombardeamentos e já parcialmente reduzida a escombros, mas segredando-nos algo que explica a tenacidade e resiliência do povo palestiniano. Inspirou-se também especialmente na sua própria experiência, há uma década, no cerco de Yarmouk, Damasco, durante a Guerra Civil Síria.

Abdallah al Khatib em Chronicles of the Siege

É precisamente do arquivo de imagens em vídeo, em que um homem filma pessoas lutam por peças de abastecimento, sendo que, de repente, a câmara fica sem bateria – espaço para introduzir a ficção. Ele que é o proprietário de um clube de vídeo, espaço entretanto convertido num microcosmos de possibilidade de fuga, diante dos cartazes e estantes cheias de cassetes VHS, se discutem e recordam os filmes favoritos alugados nesse clube: de Truffaut, a Chaplin, John Wayne ao Cinema Paraíso. Enfim. 

É o que vemos quando um cigarro que passa de mão em mão, como um ritual, como se de um charro de tratasse, acaba por ser surripiado por um mais necessitado (o próprio Alkhatib). Porque temos de compreender que um cigarro pode ter esse valor. Pois pode até ser trocado por um frigorífico, como também se vê. Isto num campo de refugiados onde existe uma espécie de gruta onde o cinema é, literalmente, descoberto, como um antigo clube de vídeo, pleno de um escape de fantasia; ou a possibilidade do amor, mas também a realidade hospitalar e da carência de sangue. Crónicas que acabam por abraçar uma possibilidade de mundo em parêntesis, mas que se completa.

Permita-me fazer uma pergunta política, algo que, hoje em dia, não parecer ser muito aconselhável. Refiro-me à posição do festival em relação ao que se passa em Gaza; e também, claro, às declarações do presidente do júri, Wim Wenders sobre os filmes não deverem ser políticos. Qual é a sua opinião sobre isso? 

Antes do Wim Wenders dizer aquilo, eu já tinha decidido, há alguns três meses, inscrever-me na Berlinale e vir para cá. Mesmo vivendo em Berlim, conheço todas as questões sobre a posição da Berlinale, sobre o que se passa em Gaza e sobre o genocídio.

Devo dizer que foi talvez o melhor filme que vi até agora na Berlinale. Bem poderia estar na secção principal. Mas, diga-me, qual é a sua impressão do festival, que já manifestou a sua intenção não política?

Antes de mais, eu acho que o filme está bem onde está – nesta secção de jovens realizadores. Mas é nossa responsabilidade, enquanto cineastas palestinianos, vir a um festival como este e falar abertamente sobre a Palestina, tentando pressionar o festival para que tome uma decisão, tome uma posição, diga alguma coisa. E explicar o que está a acontecer. Estamos aqui e que vamos usar este palco para falar sobre a Palestina.

É interessante a questão do cerco, desde logo, na referência ao filme anterior. Era sua intenção alargar este conceito?

Eu tentei encontrar a ligação entre outros cercos no mundo, como tivemos, por exemplo, em Sarajevo, no Sudão e outros locais que enfrentam a mesma situação. Tento encontrar a ligação entre todos eles para fazer este filme funcionar. Não tinha em mente fazer um filme. A sua mente está noutro lugar, na história. Eu só queria documentar a situação, registar o que estava a acontecer no filme e disponibilizar o material para outras pessoas usarem, percebe?

Quando estava no cerco já pensava em fazer este filme?

Não tinha em mente fazer um filme. A minha mente estava num noutro lugar. Eu só queria documentar a situação, registar o que estava a acontecer no filme e disponibilizar o material para outras pessoas poderem usar. Mas depois de ter chegado à Alemanha, os meus amigos, que eram produtores, começaram a incentivar-me a fazer o filme. Então eu disse: “Ok, porque não?”. É a minha história, é o meu arquivo.

Mas não deixa de ser algo insólito perceber os elementos de uma certa comédia… Mas é algo intencional?

Sim. A comédia, a comédia negra, ou a comédia em geral, faz parte da nossa vida, percebe? Mesmo em lugares difíceis, como a guerra, as pessoas ainda procuram algo engraçado para fazer, procuram amor, procuram cigarros, procuram essas coisas.

O que foi que o motivou a fazer filmes? 

Bem, há várias razões. Uma delas é porque gosto de ter um microfone e falar com as pessoas olhando-as nos olhos, dizendo o que quero dizer, especialmente quando estou em festivais importantes como o de Cannes ou aqui em Berlim. Em segundo lugar, porque não quero deixar que outras pessoas façam filmes sobre nós, percebe? Se eu fizer um filme sobre o cerco, os outros irão pensar três vezes antes de tomarem essa decisão. Porque sabem que há cineastas palestinianos que já o fazem.

Acha que um dia este conflito na Palestina irá acabar? Tem fé que isso aconteça?

Não tenho uma resposta específica como isso acontecerá, mas, ouça bem: eu acredito 100% que a Palestina será um dia livre e voltará para nós. E tudo voltará ao normal quando tivermos a Palestina livre. Eu acredito na História.

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