O cinema turco venceu os dois prémios mais importantes da Berlinale: o Urso de Ouro e o prémio Especial do Júri. Numa cerimónia que recuperou o ativismo político e que premiou ainda Sandra Hüller, pelo papel de identidade trocada em ‘Rose,’ e a dupla Anna Calder-Marshall e Tom Courtney na interpretação secundária, em, ‘Queen at Sea.’ Falou-se ainda em crianças com super-poderes que abatem jatos israelitas. E apelou-se: Palestina livre até ao fim do mundo!
Apesar do conselho de manter o cinema (e o festival) “fora da política”, eis que a cerimónia da entrega dos prémios do 76ª Festival de Berlim, revelou precisamente o seu contrário ao apresentar uma cerimónia assumidamente politizada. A própria Tricia Tuttle, diretora do festival, começaria por reconhecer, logo no discurso de abertura, que “neste mundo cru e fraturado, as pessoas carregam a dor, ira e a urgência do mundo em que vivemos”. E o próprio Wim Wendersacabaria por falar abertamente da “discrepância artificial” entre as diferentes vozes participantes no festival.
O tom aqueceu logo a seguir, com a vencedora do Urso de Ouro de Melhor Curta, a libanesa Marie-Rose Osta (por Someday a Child, um filme sobre uma criança com super-poderes que consegue abater dois jatos israelitas), argumentando que “nenhuma criança deveria necessitar de super-poderes para se defender das bombas de Israel e sobreviver a um genocídio empoderado por potências com direito a veto e o colapso do direito internacional”.
Mas há mais. O documentário Tutu, de Sam Pollard, revelou um lado muito pessoal do arcebispo sul-africano, prémio nobel da paz, Desmond Tutu, ele próprio uma personalidade carismática que sempre soube usar o sorriso a dizer verdades e a lutar contra o Apartheid na África do Sul. No entanto, o momento mais forte da noite, foi mesmo a atribuição do prémio Perspectives, para o palestiniano Abdallah Alkhatib, por Chronicles From the Siege, que subiu ao palco acompanhado por uma bandeira palestiniana e terminando o seu discurso apaixonado com o apelo e desejo: “Palestina livre, desde já e até ao fim do mundo!”

Desde cedo considerado o melhor filme do festival, Yellow Letters, de Ilker Çatak, foi um justíssimo vencedor do Urso de Ouro, com Wenders a descrever o filme como um drama de “linguagem politica do totalitarismo oposto à empatia da linguagem do cinema.” Aqui se acompanha um casal turco de artistas de teatro que acaba por perder o seu emprego devido à perseguição política movida pelo governo turco. Numa brilhante encenação, um cartão situa ‘Berlim como Ancara’, e mais tarde ‘Hamburgo como Istambul’, posicionando o filme, de imediato, fora do contexto político do seu território.
Sem surpresas, o Urso de Prata para melhor interpretação foi entregue à alemã Sandra Hüller, justificando a prestação em Rose, do austríaco Markus Schleinzer, onde assume o papel de uma mulher que se faz passar por homem, algures na Alemanha do século XVII. Já o prémio de interpretação secundária seria para a dupla Anna Calder-Marshall e Tom Courtenay, em Queen at Sea, de Lance Hammer, num registo que conta ainda com a prestação de Juliette Binoche.
Foi ainda distinguido o realizador britânico Grant Gee pelo trabalho conseguido em Everyone Digs Bill Evans, o drama pessoal e familiar do pianista de jazz transtornado pela morte do seu baixista. O prémio de melhor argumento distinguiu a história de Nina Roza, sobre um imigrante búlgaro que regressa à sua terra natal à procura uma criança artística prodígio. Por fim, o reconhecimento do belíssimo trabalho de composição artística em Yo (Love Is a Rebellious Bird), de Anna Fitch.
Encerrou assim a cerimónia, de alguma forma, a colocar alguma ‘fervura na água’ morna do festival que conseguiu superar alguma incompreensão e retomar o posicionamento e credibilidade da Berlinale.
PALMARÉS 76ª BERLINALE
URSO DE OURO PARA MELHOR FILME
Yellow Letters, Ilker Çatak
URSO DE PRATA GRANDE PRÉMIO DO JÚRI
Salvation, Emin Alper
URSO DE PRATA PRÉMIO DO JÚRI
Queen at Sea, Lance Hammer
URSO DE PRATA MELHOR REALIZADOR
Grant Gee, Everyone Digs Bill Evans
URSO DE PRATA MELHOR INTERPRETAÇÃO
Sandra Hüller, Rose
URSO DE PRATA MELHOR INTERPRETAÇÃO SECUNDÁRIA
Anna Calder-Marshall E Tom Courtenay, Queen at Sea
URSO DE PRATA MELHOR ARGUMENTO
Nina Roza, Geneviève Dulude-de Celles
URSO DE PRATA MELHOR CONTRIBUIÇÃO ARTÍSTICA
Yo (Love Is a Rebellious Bird), Anna Fitch
PERSPECTIVES
PRÉMIO PRIMEIRA OBRA
Chronicles From the Siege, Abdallah Alkhatib

