Site icon

Kill Bill: Toda a Obra Sangrenta – do massacre à ternura

Ver hoje Kill Bill: Toda a Obra Sangrenta (ler crítica) é perceber que a divisão original entre o Volume 1 e o Volume 2 foi, provavelmente, mais comercial do que artística. Vistos de seguida, os dois filmes encaixam-se como partes da mesma viagem: que começa em registo explosivo e visualmente exuberante e acaba num western íntimo, quase melancólico.
Pelo meio temos combates épicos, vingança intensa e uma história sobre perda e reencontro, ao mesmo tempo que homenageia diversos géneros do gosto pessoal de Tarantino: de westerns, ao filme de ação kung-fu, da série B à anime japonesa. 
Quentin Tarantino constrói esta saga épica de vingança que tanto vive do espetáculo puro como de um núcleo emocional pleno de humanidade.
Aliás, a dedicatória inicial a Kinji Fukasaku (criador do filme de culto Battle Royale) não será apenas um detalhe cinéfilo. Funciona até como um aviso, já que se sente desde os primeiros minutos que o filme assume as suas raízes e influência no cinema japonês de violência estilizada (como no filme do autor da citada saga Battle Royale) e em códigos de honra traídos.

(o texto que se segue contém spoilers – depois não diga que não avisámos. Mas se leu até aqui não é agora que vai parar, pois não?)

Kill Bill – Toda a Obra Sangrenta (estreia dia 12 de março). Sem cortes e com cenas adicionais.


Identidade e espera

O filme começa a pés juntos com o massacre no casamento da protagonista, grávida, num papel avassalador e insuperável de Uma Thurman. Planeado por Bill (iremos saber que se trata do mítico ator David Carradine, falecido em 2009) e motivado pela raiva perante a omissão da gravidez, o ataque inundará a igreja com nove cadáveres em onze possíveis. 
Pode dizer-se que Bill levou o longe demais o “fale agora ou cale-se para sempre”, ao ponto de disparar sobre a mãe da sua filha, no instante anterior a ela sussurrar “It’s your baby!”.
Durante grande parte da obra, Bill existe mais como presença do que como pessoa. É um mito, uma sombra que paira sobre cada capítulo. Tal como o verdadeiro nome da protagonista, Beatrix Kiddo, que apenas será revelado ao fim de três horas e meia desta ‘obra sangrenta’, pois, até lá, o seu nome é censurado – não se consegue ler nem escutar. 
Thurman é então apresentada como “The Bride”, qual arquétipo de uma figura lendária movida por vingança. E pelo tal unfinished business, um caderninho com os alvos a abater. Porque, sim, Kill Bill, ja se sabe, trata-se de um revenge movie que reforça justamente esse passado por resolver. Pois nada pode avançar enquanto as contas não estiverem saldadas.

Uma lista, vários renascimentos

A estrutura narrativa assenta então nessa check list: quatro alvos (as meninas do The Deadly Viper Assassination Squad) e, por fim, Bill. Só que cada confronto será mais do que um mero ajuste de contas — este é um verdadeiro teste de sobrevivência. Sim, conhecemos Kiddo, literalmente, à beira da morte (algo que se irá repetir): o tiro na cabeça que a remete para esta jornada, a batalha hercúlea batalha no restaurante japonês, o disparo de Budd (Michael Madsen), o enterro vivo… Chega?…
Yep, é a vingança não é heróica. É um verdadeiro ato de resistência.

Violência como linguagem

A violência que brota do filme não procura o realismo. É coreografada e exagerada para além do limite. O sangue funciona como tinta e os combates como dança. Mas esse exagero não é vazio. Quanto mais estilizada é a violência, maior é o contraste quando o filme abranda e nos lembra que existe uma dor real por trás da vingança; já na segunda metade, o filme retoma em flash back o género western spaghetti: o casamento a preto e branco, o desvendar da identidade de Bill, os silêncios prolongados, a tensão vibrante nos diálogos, os confrontos carregados de peso moral. É o espetáculo a dar lugar à reflexão.

David Carradine, o Bill.

Humor no meio da brutalidade

Mesmo sendo movido por uma intensidade imparável, Kill Bill Volume 1 e Volume 2 – ou este pack com extras – nunca perde um humor muito próprio: veja-se a cena da perda do segundo olho de Elle Driver (Daryl Hannah), o treino absurdo com Pai Mei (Gordon Liu), o mestre de kung-fu, a fuga claustrofóbica do caixão ou a teatralidade de alguns confrontos funcionam como momentos de respiração. É um humor que não nunca quebra o tom, torna-o até o mais humano e serve de almofada para o espectador.

Um passado “animado”

A sequência em anime que conta o passado de O-Ren Ishii continua a ser uma das apostas mais marcantes do filme. Aqui, integrada nesta versão, ganha ainda mais peso, com uma sequência ampliada. Até porque a animação permite representar trauma e violência extrema sem cair no realismo cru, 
transformando a história numa espécie de lenda trágica que acompanha O-Ren desde que perdeu os seus pais até se tornar na rainha dos yakuza através de, sim, vingança.

Mestres, técnicas e sushi

O treino com Pai Mei mistura tradição, exagero e humor. Veja-se o muito útil truque: o ‘Five Point Palm Explosing Heart Technique’ que surge como promessa silenciosa até ao confronto final onde todo esse suspense é libertado no alvo final. Até detalhes aparentemente secundários ganham significado: o treino do ‘Eagle’s Claw’ revela-se decisivo quando Beatrix arranca o olho que restava a Elle.
A espada criada por Hattori Hanzo (o veterano Shin’ichi Chiba aka Sonny Chiba) carrega também um peso simbólico: um homem que jurou nunca mais forjar armas abre uma exceção para tornar possível esta vingança e produz a sua criação mais afiada. No entanto, Kiddo teria agradecido que as mãos de Hanzo servissem tão bem para a confeção de sushi como para a confeção de katanas…

Elle Driver / Darryl Hannah, ainda com os dois olhos…


Som que anuncia a vingança

Durante as 4h35 de duração deste épico que junta Kill Bill Volume 1 e Kill Bill Volume 2, o som é tão icónico quanto as imagens. O assobio de Elle no hospital cria uma tensão quase lúdica, enquanto o tema de Quincy Jones (aquela sirene icónica com o zoom nos olhos de Beatrix) associado a Ironside, tornou-se um verdadeiro sinal de vingança iminente.

Quatro anos

Precisamente quando chegou ao último ponto da sua jornada, preparada para o showdown final, é introduzida B.B., a filha que esperava pela mãe sem que esta soubesse que estava viva. O centro emocional da história muda. A vingança deixa de ser apenas destruição, passa a ser recuperação e Tarantino dá algum espaço à ternura. O confronto final com Bill evita o espetáculo e escolhe a intimidade. 
Depois de tanta violência, o desfecho é inesperadamente humano.

Uma Thurman e Daryl Hannah, embate de divas.


Depois do sangue

A Noiva sobrevive por pouco em cada confronto, e isso impede que a violência se torne vazia. Cada vitória tem um custo. E, contra todas as expectativas, depois de tanta dor e sangue, tudo acaba por ficar bem.

Epic Games X Tarantino?

A maior surpresa vem os pós-créditos. Lá está, vale (mesmo) a pena ver o filme até final. Ou seja, esperar 15 minutos de créditos para ver uma disputa entre 2 personagens do filme , criadas de forma virtual, e que estão incluídas num dos jogos mais jogados dos últimos 9 anos, o Fortnite. Só que, desta vez, trocaram as katanas e as bolas de espinhos por Desert Eagles e Uzis! Seja como for, o tema principal deste capítulo perdido continua a ser o foco da obra, ou seja, a vingança. Fica a pergunta: será esta uma tentativa da Epic Games para reviver o seu maior sucesso?

Michael Madsen aka Budd, depois de explodir o peito de Kiddo Ana Uma Thurman.


Conclusão

Entre espadas, silêncio, humor inesperado e uma ternura final que apanha o espectador desprevenido, Tarantino lembra-nos que até as histórias mais violentas podem terminar com algo próximo da paz. Portanto, com ou sem spoilers, vale mesmo a pena dispensar estes 4h30 a (re)descobrir ‘toda a obra sangrenta’ que é Kill Bill, de Quentin Tarantino

Exit mobile version