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Histórias do Vale Bom: retratos de vidas resistentes

Vale a pena descobrir as histórias de um bairro de resistentes captadas pela câmara amável de José Luis Guerin.

Um dos filmes descobertos no passado Festival de San Sebastián (embora exibido também no LEFFEST), Histórias do Vale Bom devolve aquele prazer de um cinema antropológico, direto, com verdade. Desde logo, a premissa é evidente: um pequeno cartaz indica a rodagem de um filme, justamente sobre esse bairro de Vallbona, na periferia de Barcelona, e o convite a fazer parte dele. Este é também o cartão de visita para José Luís Guerín regressar, um pouco mais de vinte anos depois, a um filme sobre outro bairro, En Construcción.

Bem-vindos ao bairro dormitório nos limites da cidade, ali mesmo, entre a área urbana e o campo, cercado pelo rio, a autoestrada e a linha do comboio, banhado pelo sol e blocos de betão. Ou seja, uma espécie de limbo que ninguém vê. Um bairro silencioso, obscuro, fora do tempo, embora desenhado com uma verdadeira intenção urbanística, ainda que sacrificado pelo tempo. Agora é decorado por casas semi-clandestinas, habitado por espanhóis com escassos recursos e emigrantes do sul. Enfim, o mundo real.

Entre as diversas ‘histórias’ contadas para a câmara, algo nos diz que este é um registo pouco convencional, explorando o conflito antigo (e revolucionário!) da terra contra as grandes instituições. Assim se vive, de forma quase hesitante, entre a liberdade da natureza e um certo isolamento urbano, com hortas que lutam contra a sombra dos edifícios.

É mesmo a câmara de Guerín que une de forma carinhosa essas diferentes vivências, dando forma a quotidianos de rua, sempre mantendo a sua distância, sem formular opiniões, deixando que as imagens e quem as constitui fluam livremente. É isso: Histórias do Vale Bom é sobretudo um filme de liberdade, onde há espaço para as brincadeiras ao sol (de qualidade duvidosa), os lanches comunitários, a força do riso.

Entre o isolamento e a luta pela existência, há uma resistência que une esta comunidade peculiar que insiste em dizer: estamos aqui! Isso foi suficiente para fazer um filme sobre esses retratos de vidas.

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