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Pedro Cabeleira: “Vão ver o ‘Entroncamento’ em sala, não esperem pelas plataformas”

Pedro Cabeleira (foto: Optec Filmes)

Depois de Cannes, chega às nossa salas um filme que promete ser um dos grandes do ano. ‘Entroncamento’ é um registo empoderado que faz a regionalização do cinema e afirma o ‘realismo tuga’! Falámos com o realizador do momento.

A viagem de Pedro Cabeleira tem sido uma das dádivas mais fascinantes do recente cinema português. E Entroncamento assume-se como um registo capaz de ‘dar o salto’ para um público mais mainstream. Depois da estreia mundial em Cannes, na secção paralela Acid, dedicada ao cinema independente, desembarca agora em diversas salas de todo o país, à procura do seu público. Isto já depois de Cabeleira ter dado nas vistas ao ser selecionado na secção a concurso ao Leopardo de Ouro, em Locarno, com Verão Danado (2017), e Berlim, onde esteve a concurso com a curta By Flávio (2022). É ali mesmo nesta terra de ‘caminhos cruzados’, cada vez mais marcada pela diversidade, que desembarcamos no antigo bairro proletário da Coferpor para enfrentar a mais densa atmosfera do que apetece chamar de ‘realismo tuga’, um género a oscilar entre uma dimensão social aguda, espelhada por gangsters e pequenos criminosos, mas paredes meias com os feitos do populismo dos nossos dias. Mesmo que o espaço duro da palavra, dos gestos, de acordo com o guião escrito de parceria com Diogo Figueira, nos remeta igualmente para uma dimensão de (anti)heróis clássicos, próximos do cinema de Martin Scorsese de Michael Mann, ou até Wim Wenders, como sugere Pedro Cabeleira. Fomos ao encontro de Entroncamento, descendo no apeadeiro do cinema Nimas, para uma saborosa conversa via zoom no dia seguinte. Agora só falta materializar o tremendo entusiasmo nas redes sociais com essa confirmação num ecrã largo perto de si. Nem se que seja numa sessão ao meio-dia.

Chegar ao Entroncamento (a esta encruzilhada de linhas) foi uma viagem de longa duração. Fala-me da tua motivação para fazer este filme.

Sim, são caminhos cruzados. E com um regresso que também foi difícil.  Tudo começou, por volta de 2015 e 2016, quando fiz um videoclipe para um amigo meu, no Entroncamento. Era um videoclipe musical estilo gangsta rap. Construir esse imaginário com ele foi uma das experiências mais divertidas que tive enquanto realizador. E foi essa brincadeira que me fez pensar que fazer um filme ali poderia ser algo que me interessaria. Olhei para o videoclipe filmado na Coferpor – o bairro onde a Laura vai viver e onde cresci – e não acreditava que a minha rua pudesse ter aquele aspeto quando a filmei. Este foi um clipe que fiz também com a Leonor Teles (também diretora de fotografia de Entroncamento).

Rafael Morais (Viver Mal – Mal Viver)/Matreno é simplesmente avassalador no ecrã.

Sim, teremos de falar da Leonor Teles e da câmara dela…

Eram os fumos, as bicicletas, os cães, as motas, as roupas. Tudo coisas muito visuais e com uma grande potencia cinematográfica. Acho que teve a ver com isso. No fundo, fazemos filmes sobre coisas que nos interessam.

Na verdade, acho que o teu cinema se descentraliza. No fundo, faz uma espécie de regionalização, mas pelo cinema. E em que o Entroncamento se torna num espaço de cinema total.

Sim. Começou, com o Verão Danado, que é um filme muito sobre Lisboa. Embora uma Lisboa à Wim Wenders, se queremos pôr por essa maneira, quando o Wim Wenders vai para os Estados Unidos. Neste caso, eu fui para Lisboa. Mas a cidade já não me estava a dizer muito. Interessou-me trabalhar outros territórios. Entretanto, surge o By Flávio e agora o Entroncamento

Quando regressas ao Entroncamento, sentiste que também já não era o ‘teu Entroncamento’?

Sim, não era o ‘meu Entroncamento’, mas nunca vai deixar de ser o ‘meu Entroncamento’. Será sempre a minha cidade e as minhas memórias. Vivi lá até aos 18 anos, nunca deixará de ser a minha terra. Está diferente porque o país mudou. Os tempos passam e ninguém é igual. Eu também mudei, mas não deixa de ser o meu Entroncamento.

“A personagem de Laura (Ana Vilaça) surge para desconstruir as dinâmicas masculinas”: Pedro Cabeleira

Não é o mesmo, até do ponto de vista político. Que tipo de envolvimento tiveste com a autarquia, sendo que hoje a orientação política mudou. 

Pois, na altura, a autarquia na altura não era a Chega.

Exato. Como se articulou esse diálogo? 

O filme começou a ser trabalhado em 2020 e a autarquia logo apoiou o filme. Isto já depois do apoio do ICA. Na altura, a autarquia era PS. Eu conhecia muito bem o presidente da Câmara, o Jorge Faria. isto desde criança, quando jogávamos à bola. Já tinha tido também o apoio para o By Flávio, da autarquia de Torres Novas, e falei-lhes que tinha um projeto de longa metragem que se passava no Entroncamento, chamado Entroncamento. Faria todo o sentido apoiarem. Não foi o maior apoio financeiros que tivemos, mas apoiaram financeiramente e depois muito do ponto de vista logístico e técnico. Foi muito fixe porque com esse apoio conseguimos transformar o Entroncamento quase num cenário de Hollywood…

E agora, com este novo cenário, e o teu também amigo, o novo presidente, do Chega? 

Sim, o Nelson (Cunha) foi ao LEFFEST e ele disse que gostou muito do filme. Pronto.

Apesar do filme explorar um lado, diria algo proletário, possui também um certo realismo tuga que nunca vi no nosso cinema! E também a forma como empoderaste o lado feminino que lhe dá claramente um outro contexto.

Sim, sim. O olhar feminino.

Esse lado já estava escrito?

No início não estava tão presente, porque a ideia era mais sobre este grupo de rapazes. Embora a personagem da Nadia (Clea Diára) fosse forte desde o início. Depois refleti muito sobre o tema, a cidade e interessou-me esse shift de perspectiva. A Laura (Ana Vilaça) surge como uma personagem externa, completamente diferente dessas dinâmicas, mas também para as desconstruir. É um olhar completamente diferente, porque tira o filme da bolha e faz-nos olhar para dentro dela. É uma mulher que vai para as dinâmicas masculinas e as desconstrói de fora. 

E do ponto de vista do cinema, que tipo de influências tiveste?

Não, sei, por exemplo, a primeira referência que tinha era o videoclipe que tinha feito. Mas à medida que ia avançando, queria que o filme comunicasse com o Verão Danado, porque percebi que ia ser um mais registo de guerrilha. Aproximei-me da linguagem e achei que faria sentido que comunicassem desse ponto de vista – já não era sobre os rapazes de Lisboa, mas sobre os que tinham ficado para trás. Por outro lado, queria uma tensão que percorresse o filme todo; sobre o desconforto de estarmos muito tempo a ver uma coisa e não conseguirmos sair dela. 

“A Ana é uma excelente profissional e uma excelente atriz”: Pedro Cabeleira.

Onde foste buscar essa ideia?

Como tinha pensado em fazer algo diferente, e filmar com a câmara ao ombro, cruzei-me com o filme do Cristian Mungiu, 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias (2007). Impressionou-me a forma como ele usava a câmara ao ombro. Mas de uma maneira diferente, bastante física, em que se sentia a respiração do operador. Tentei transportar isso para o filme. Depois, do ponto de vista narrativa, é mais até da literatura dos livros do (David) Foster Wallace, do (Thomas) Pynchon, das narrativas cruzadas que não se fecham, onde as personagens têm muita presença num capítulo, mas depois nunca mais voltam a aparecer, embora possam fazê-lo 400 páginas depois. Portanto, queria que o filme tivesse a sensação de não conseguimos adiantar o que vinha a seguir e não uma sensação de surpresa, do twist. Independentemente de ter funcionado ou não, isso foi um risco consciente. 

Falemos da Leonor Teles e a presença da sua câmara. É mesmo uma câmara que respira, mas também que evolui com as personagens. De que forma o teu trabalho com a Leonor teve essa cumplicidade?

Acaba por ser um trabalho muito prático, criado do momento. Há referências que discutimos, coisas que ela gosta. Depois é um trabalho sobre o espaço, como escolhemos as localizações. 

Fizeram muitos ensaios?

Ela conhecia os espaços, mas como é um filme mais low key, eu cortei algumas luzes para ficar mais escuro e ter esses pontos de luz; às vezes apontamentos de cor, pequenos pormenores. Mas é muito trabalho tentar ver espaços que possam funcionar dentro desta cidade que muito fácil de filmar. 

E como funcionou no jogo dos atores? 

Faço sempre muito ensaios com os atores. O máximo que consigo, embora gerindo agendas. O mesmo com os atores não profissionais, discutindo, experimentando. Depois, no próprio dia, fazemos o teste. Até para ter mais material para a montagem.

No caso da Ana Vilaça, além da natural cumplicidade de vida, há um trabalho profissional também, não é? Como é que isso se desenrola dentro do vosso ambiente familiar. Porque não é só ela, mas também a vossa filha, Alma, que eu vi ontem, completamente à vontade no palco do Nimas…

Sim (risos), vamos ver de que forma isto vai mexer no futuro dela. Mas sim, faz parte. A mãe é atriz, o pai é realizador, trabalham juntos. Às vezes não tem grande hipótese, tem que andar de um lado para o outro. Quanto à Ana, é uma excelente profissional e uma excelente atriz que se prepara muito para os projetos e realmente leva as coisas muito, muito, a sério. Trabalha as personagens de uma maneira muito rigorosa.

A equipa ‘Entroncamento’ na apresentação no Nimas: Pedro Cabeleira, Diogo Figueira, Henrique Barbosa, Rafael Morais, Leonor Teles e Tiago Costa (Foto: Paulo Portugal).

Não queria deixar de abordar a questão da exibição do filme e as condicionantes que encontraste em certas salas, por vezes, remetido para sessões de matiné. Como vês isso? 

Eu acho que o filme devia estar em salas mais comerciais para chegar a outras pessoas. Isto da NOS é uma coisa muito complicada. Temos muitas sessões ao meio dia e meia, às 16h. Uma coisa seria na segunda semana. Na primeira semana, não. A NOS em cada multiplex tem cinco, seis, até 10 ecrãs. E esta medida das três salas de cinema português, na minha opinião, é um boicote. Eles escolheram três centros comerciais (Alameda, no Porto, Alma Shopping, Coimbra, e agora Amoreiras, a substituir o Alvaláxia, que entretanto encerrou) que não têm pessoas. Em Lisboa e no Porto não estou preocupado. Em Lisboa existem alternativas: o Nimas, o Corte Inglés, os cinemas City, o Ideal. Essas salas são muito boas, mas o seu público não é o público comum. Quando há um grande conjunto de alternativas espalhadas pelo país, não há problema.

Consideras que o Entroncamento é um filme para todos os públicos, é isso?

Exatamente. Os nossos filmes fazem muitos espectadores, mas assim nunca poderá chegar a um valor de espectadores, sei lá, acima dos 10.000 espectadores. É quase impossível com estas salas. Por exemplo, ontem (na sessão de apresentação no Nimas, com a equipa) fez mais do que nas salas da NOS juntas. Mas de longe. 

O que se poderá fazer?

Eu acho que honestamente temos que começar a não permitir que os filmes sejam exibidos nessas salas. As salas do cinema português são um insulto. São uma forma de ‘cinzentarem’ os filmes noutras salas. O Entroncamento estava a ter muito hype no TikTok –  bem sei que é uma rede muito diferente, mas o TikTok do filme já vai com mais de 1 milhão de visualizações. Pode não se refletir em espectadores, mas está a ter um alcance significativo.

O ‘primo’ Henrique Barbosa, de etnia cigana, é uma das maiores revelações de ‘Entroncamento’ – e justo vencedor do Prémio Revelação nos Encontro do Cinema Português

É um awareness importante para o filme, não é?

É um alcance que para pessoas que vão ao Vasco da Gama, que vão ao Colombo. Por exemplo, no Fórum Montijo, passa às 12h30… Mas vai ser exibido no Almada Forum – eu fico muito contente porque tem a malta do Monte Caparica, do Laranjeiro, do Feijó, pessoas que vivem em Almada, pessoas que me conhecem. Mas não podemos esperar muito com horários destes… 

Pois compreendo. Para terminar, fala-me do teu próximo projeto. Espero que não demore também 8 anos a fazer…

Vamos ver. Não posso falar muito porque ainda não tenho financiamento. Estou a trabalhar na adaptação de um livro. Foi uma proposta que sempre quis fazer como realizador, ou seja, ter um produtor a olhar para mim e a pensar uma forma de cinema clássico. Propuseram-me a ideia e eu achei que fazia sentido. Mas há ainda uma grande incerteza e imprevisibilidade. 

O que é queres dizer às pessoas que querem ir ver o teu filme? Mesmo, mesmo que numa sessão do meio-dia e meia?

Sim, que vão ver o filme e que façam o esforço; que toda a gente nos tem seguido nas redes e que têm visto o filme na comunicação social, que o vão ver e que o procurem. É isso. Vão ao cinema vê-lo e não esperem pelas plataformas, por favor. Porque a experiência é diferente.

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