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O Dia da Revelação: uma questão de fé, mas sem chegar a Oz

E, se afinal de contas, fosse apenas uma questão de fé? Spielberg parece jogar tudo (muito pelo menos!) nessa cartada. Desta vez faltou-lhe a ‘magia’.

No dia D, ou no dia das revelações, comecemos pelo essencial — por aquilo que Spielberg reserva para o fim. Pois é aí que reside o primeiro problema: no único segmento (são cerca de quinze minutos) que justifica o aguardado Disclosure Day, instala-se a sensação de que algo nos escapou. Algo que talvez diga respeito, em última instância, ao próprio cinema.

Sejamos claros. Ao longo de uma boa parte das duas horas e meia de duração de O Dia da Revelação, a sua linha narrativa, profundamente mainstream, apenas confirma o óbvio: vivemos num mundo saturado de imagens, gestos e olhares globalizados até à exaustão e sujeitos a um permanente défice de atenção. Só assim se compreende a cena inicial, num espectáculo de wrestling, espécie de manifesto involuntário dessa banal condição que nos parece render ao vil aparelho de televisão.

Seguimos a personagem interpretada por Emily Blunt, apresentadora do boletim meteorológico de uma estação de televisão de Kansas City, progressivamente reduzida a uma espécie de “passageira para um lugar qualquer”, como se escuta no filme, após ser possuída por forças do além. A seu lado — ou atrás dela — surge a personagem de Josh O’Connor, que a segue numa sucessão de peripécias que também parecem conduzir a lado nenhum. Nesse movimento errático, ela acaba por assumir, de forma algo inusitada, a figura de uma Dorothy deslocada — evocando O Feiticeiro de Oz (Victor Fleming, 1939) —, também ela oriunda do Kansas, esse território mitológico do imaginário americano, rumo a um Oz onde a fantasia adquiria uma densidade concreta.

Seria esta a ideia de Spielberg? Nas vésperas de completar 80 anos, inverte o trajecto, sem encantamento nem verdadeira travessia. Kansas City até faz parte desse ponto de partida simbólico, mas para uma deriva onde a promessa de revelação se concretiza apenas num ‘direto’ televisivo messiânico, destinado a fornecer a evidência da descoberta. Pelo meio haverá ainda uma sucessão de sequências anódinas, sejam em perseguições acrobáticas (embora sem nexo), até alusões à Coreia do Norte! Enfim.

Falar de fragilidade estrutural em Disclosure Day não será um exagero. Sobretudo num filme tão acantonado nessa “revelação” — materializada no furo televisivo sobre as décadas de encobrimento governamental, de Roswell (1947) às mitologias contemporâneas, a funcionarem como derradeiro e efémero clímax cinematográfico. Não é a revelação que Spielberg filma, limita-se a ilustrá-la. E, ao fazê-lo, aproxima-se perigosamente de uma lógica de broadcasting, como se o cinema cedesse definitivamente ao regime ao pequeno (embora cada vez maior) ecrã, em toda a sua redundância e vocação explicativa.

‘No Dia da Revelação’, Emily Blunt é ‘a passageira para um lugar qualquer’.

É por aí que a analogia com a crença religiosa não parece ser inocente. Ensaia-se uma espécie de paralelismo entre fé e aceitação do desconhecido, convocando uma espiritualidade apressada que tanto remete para o divino como o sobrenatural. Só que em vez de abrir um verdadeiro campo de interrogação, nivela tudo por baixo: a crença torna-se em gesto automático, desprovido de dúvida ou tensão. Mas não é aí que o filme verdadeiramente falha, é na sua incapacidade de tornar essa crença (e as duas horas anteriores) em algo cinematograficamente credível.

Não deixa de ser significativo que o autor de E.T. e Encontros Imediatos do 3.º Grau, aflore o ambiente desses territórios, embora sem verdadeiramente os habitar. Persistem como meros vestígios da imaginação — como um eco distante, uma centelha. Apesar do enorme impacto que o título sugere, O Dia da Revelação fica-se pela reciclagem de ideias organizadas em função de um clímax que pretende justificar tudo o resto. Bom pelo menos, faz o E.T. regressar a casa.

Steven Spielberg, o autor do anterior e excelente Os Fabelmans, de 2022, que nos devolveu o poder do cinema nesse mesmo filme, hesita agora na forma como fazer-nos acreditar no ‘leap of faith’ que sugere: ‘don’t be afraid of what you don’t know’. Perante este apelo da fé (seja ela qual for), mantemo-nos convictos como non believers. Ou seja, não crentes. Mas ficamos à espera do cinema. A única revelação é que Disclosure Day é o pior Spielberg.

Nota Final: ⭐

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