Duas décadas depois da primeira edição, o MOTELX mantém intacta a vocação de se transformar na capital portuguesa do cinema de terror. Teremos grandes estreias, clássicos, descobertas e uma atenção particular ao cinema português. Conta ainda com homenagem a Solveig Nordlund e a Roger Corman.
Vinte anos depois, o MOTELX continua a começar pelo medo — mas também pela surpresa. A XX.ª edição abriu ontem com Drag, de Raviv Ullman e Greg Yagolnitzer, uma comédia negra de terror sobre duas irmãs que assaltam uma casa isolada no estado de Nova Iorque e vêem o plano transformar-se em caos quando o proprietário regressa antes do previsto. Primeira longa-metragem dos dois realizadores, é uma produção independente de baixo orçamento que cruza humor absurdo, drama familiar, tensão psicológica e horror. Teve estreia mundial no SXSW e conta com Lucy, Jake e Danny DeVito entre os produtores.
Antes de Drag, o público teve acesso a uma preview de Resident Evil, a nova incursão cinematográfica na célebre franquia de videojogos da Capcom. Realizado por Zach Cregger, de Barbarian e Weapons, o filme propõe uma história inédita passada no universo de Resident Evil: Bryan, um estafeta de entregas médicas, vê-se envolvido numa luta pela sobrevivência ao longo de uma única noite. Cregger procurou recuperar a lógica do survival horror dos jogos — gestão de recursos, escassez de munições, progressão através de diferentes espaços — sem simplesmente adaptar uma história conhecida. A estreia comercial está marcada para 18 de setembro.
A abertura resume, de algum modo, a amplitude desta edição: entre uma grande franquia contemporânea e uma produção independente, o MOTELX continua a fazer do género um território onde convivem o presente, a memória e a descoberta. O programa de Serviço de Quarto, a maior secção do festival, reúne 49 longas-metragens de seis continentes, incluindo 18 primeiras obras, com particular força da produção norte-americana.
Entre os títulos mais aguardados estão Hope, de Na Hong-jin, Colony, de Yeon Sang-ho, e uma nova obra de Takashi Shimizu, enquanto o regresso do J-horror se faz através de cinco títulos, entre eles Mag Mag e The Mouths.
A competição pelo Méliès d’argent para Melhor Longa Europeia reúne sete filmes e confirma a diversidade do actual cinema de género. Entre eles está Bodyhackers, de Carlos Conceição, que leva o realizador português do giallo para o body horror. Bloody Tennis, de Nikias Chryssos, transforma uma academia de ténis num microcosmos dominado pela competição e pela violência; The Birthday Party, de Léa Mysius, apresentado em Cannes, aproxima o home invasion thriller do drama familiar; No Rest for the Wicked, de Kasper Kalle, cruza folk horror, vampiros e mortos-vivos nas Ilhas Faroé; e Species, de Marion Le Coroller, acompanha a transformação corporal e identitária de uma jovem médica.
Mas é no cinema português que o MOTELX mantém uma das suas mais persistentes linhas de intervenção. A competição para Melhor Curta de Terror Portuguesa, existente desde 2009, apresenta este ano dez filmes e continua a funcionar como espaço de descoberta e acompanhamento de novos autores. Amordemoura, A Hora do Chico, Final da Noite, Consolatio, Estou Aqui, Spirit Caller, Bruno, o Boneco, Consumido, Royal e Tardo mostram um género que se diversifica e se afasta dos seus territórios mais convencionais.
A recuperação da memória do género é, aliás, uma das marcas do festival. Quarto Perdido dedica esta edição à “Enigmática Trilogia de Sá Caetano”, recuperando As Ruínas no Interior (Corpos Celestes), Um S Marginal e Azul,Azul, três filmes de José de Sá Caetano praticamente ausentes da circulação contemporânea. E Lost in Europe: O Terror por Detrás da Cortina de Ferro, nova secção realizada com a Cinemateca Portuguesa e o Museu do Cinema, amplia essa arqueologia às cinematografias do antigo Bloco de Leste, mostrando como o fantástico, o folclore e as lendas permitiram aos cineastas contornar a censura e trabalhar o medo por vias indiretas.
É a mesma vontade de recuperar objectos singulares que está na origem de uma das sessões mais curiosas desta edição, Lost in Translation. Kung Fu à Portuguesa, filme de artes marciais taiwanês de 1974, chegou às salas portuguesas com legendas inventadas por autores que não conheciam mandarim. Enquanto os protagonistas se entregam a combates ferozes, as legendas transformam o filme num exercício delirante de humor e sátira social. A única cópia conhecida dessa versão está deteriorada e o MOTELX recriou as legendas sobre uma cópia mais recente. Uma verdadeira “porrada de criar bicho”, como descreveu o Pedro Souto na apresnetação.
A sessão inclui ainda A Teia de Gelo, de Nicolau Breyner, na rara versão inglesa. Rodado em português e inglês, o filme de 2012 cruza thriller de acção, heist movie, terror gótico e slasher. Pedro Souto, um dos directores do MOTELX, chamou-lhe o “único filme de terror” do famoso comediante e apresentador de televisão — uma curiosidade que ganha agora nova vida no contexto de um festival particularmente empenhado em resgatar a memória menos visível do cinema português.
Essa dimensão de reavaliação atravessa também a homenagem a Solveig Nordlund, distinguida com o Prémio Noémia Delgado para Mulheres Notáveis no Terror. Já homenageada pelo festival em 2018, a realizadora sueca radicada em Portugal construiu uma obra singular entre o fantástico, a ficção científica e o sobrenatural. Nem Pássaro Nem Peixe(1977), que cruza o Portugal pós-revolucionário com H. P. Lovecraft, tornou-a a primeira cineasta a adaptar o escritor para o cinema português; a sua relação com J. G. Ballard, nomeadamente em Aparelho Voador a Baixa Altitude (2002), constitui outra das linhas fortes da sua filmografia.
O festival olha também para a história internacional do género. No ano em que Roger Corman faria 100 anos, recupera The Fall of the House of Usher e A Bucket of Blood, dois títulos que representam o modelo de produção rápida, económica e inventiva que fez do realizador uma figura central do cinema de Série B e uma referência para várias gerações de cineastas. A homenagem inclui uma conversa com Julie Corman, sua mulher e produtora.
Na Suite 13, o convidado é Sergio Martino, com uma incursão pelo acid giallo através de The Strange Vice of Mrs. Wardh, The Case of the Scorpion’s Tail e All the Colors of the Dark. A secção explora a dimensão psicadélica do género, em que cores saturadas, efeitos ópticos e distorções sonoras transformam a percepção num território de medo e alucinação.
Entre as Sessões Especiais, o programa recupera The Hunger, de Tony Scott, e apresenta Silence, de Eduardo Casanova, ao mesmo tempo que aposta em experiências como o Odorama de Polyester, de John Waters, e o split-screen de Wicked, Wicked. A maratona The Movie Orgy, de Joe Dante, com quatro horas e meia de excertos de filmes, noticiários e publicidade, prolonga essa ideia de cinema como experiência colectiva.
E há ainda uma programação paralela que confirma que o MOTELX é mais do que uma sucessão de sessões: masterclasses, conversas, leituras de guiões, concertos, exposições, lançamentos de livros e o Monster Day, com concurso de monstros, MOTELquiz e outras actividades. A festa e a cinefilia continuam, vinte anos depois, a funcionar como duas faces da mesma experiência.
É provavelmente aí que reside a explicação para a longevidade do festival. João Monteiro e Pedro Souto, directores desde a primeira hora, lançaram em 2007 o MOTELX a partir da experiência do Cineclube de Terror de Lisboa, com a intenção de criar uma comunidade em torno de um cinema que então tinha ainda uma presença muito mais marginal. Duas décadas depois, essa comunidade continua a regressar ao São Jorge, ano após ano.
