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José Giovanni: o cinema depois da vida

Há vidas que parecem ter sido escritas para o cinema. A de José Giovanni é uma delas — mas também uma daquelas em que a biografia torna impossível olhar para a obra sem enxergar o homem que a produziu. A retrospetiva que o Festival de San Sebastián dedica este ano ao escritor, argumentista e realizador francês reúne 20 filmes, recuperando praticamente toda a sua obra como realizador e oito títulos para os quais escreveu ou colaborou no argumento. É uma oportunidade para revisitar uma figura central do polar francês, mas também para enfrentar as zonas mais incómodas de uma biografia que durante décadas foi contada de forma incompleta. 

Nascido Joseph Antoine Roger Damiani, em Paris, em 1923, Giovanni construiu no cinema uma das mais reconhecíveis mitologias do crime francês. Os seus filmes e argumentos estão povoados de homens perseguidos pela lei, códigos de honra, amizades viris, traições, fugas, prisões e personagens que vivem à margem da sociedade. Antes de chegar à realização, escreveu romances policiais que seriam adaptados por Jacques Becker, Claude Sautet e Jean-Pierre Melville. Le Trou, Classe tous risques e Le Deuxième Souffle estabeleceram-no como uma das figuras fundamentais do polar, ao lado dos cineastas com quem colaborou. 

Mas há uma ironia particularmente perturbadora nessa obra: a experiência de prisão que alimentou o seu primeiro grande romance e a sua entrada no cinema não esgota a história criminal de Giovanni. Durante a Ocupação, o jovem Damiani aproximou-se do universo colaboracionista. Em 1944 aderiu ao Parti populaire français (PPF), partido de Jacques Doriot identificado historicamente com o fascismo e a colaboração, e integrou em Marselha o Schutzkorps, organização ligada às autoridades alemãs encarregada da perseguição aos refratários ao Serviço do Trabalho Obrigatório. Participou em detenções e, segundo os elementos reunidos na documentação biográfica, em operações de extorsão. Por esses factos seria condenado, em 1946, a vinte anos de trabalhos forçados e à indignidade nacional por ter mantido relações com a Alemanha ou com os seus agentes. 

Le Deuxième Soufle, de Jean-Pierre Melville (1966)

A história não termina aí. Em 1945, Damiani esteve envolvido no rapto e assassinato de Haïm Cohen e dos irmãos Jules e Roger Peugeot. Condenado à morte em 1948, viu a pena ser posteriormente comutada e acabou por sair da prisão em dezembro de 1956, depois de mais de onze anos de detenção. A distinção é importante: a condenação à morte dizia respeito aos crimes de direito comum; a condenação por colaboração tinha ocorrido anteriormente, em 1946. Em 1984, Giovanni seria judicialmente reabilitado. 

Durante muito tempo, esta parte da biografia permaneceu praticamente ausente da imagem pública do escritor e realizador. Em 1993, uma investigação da agência suíça BRRI e artigos publicados pela Tribune de Genève e pelo 24 Heures de Lausanne trouxeram novamente à superfície o passado colaboracionista. Giovanni rejeitou as acusações, invocou a sua reabilitação e afirmou que tinha direito ao perdão e ao esquecimento. A controvérsia, porém, não desapareceu com a sua morte. Em 2013, Franck Lhomeau voltou a examinar o percurso de Joseph Damiani na revista Temps Noir e, em 2024, Gilles Antonowicz publicou José Giovanni, histoire d’une rédemption, procurando reconstituir a trajetória criminal, política e pessoal que antecedeu a carreira cinematográfica. 

É precisamente esta tensão entre vida e obra que torna a retrospetiva de San Sebastián particularmente relevante. O próprio Festival não esconde a questão: a publicação que acompanha o ciclo, José Giovanni. No hay vida plena sin piedad, de Felipe Cabrerizo, anuncia explicitamente o tratamento dos aspetos polémicos da vida de Giovanni, “desde su cometido durante la ocupación alemana hasta su intento de huida de la cárcel”. 

E a filmografia permite observar como esses elementos biográficos regressam, transformados pela ficção. A Resistência, a traição e a guerra aparecem desde La Loi du survivant. Mon ami le traître (1988) é explicitamente marcado pela autobiografia: o protagonista, durante a Ocupação, aceita colaborar com os nazis para sair da prisão e procura posteriormente a reabilitação. Já Mon père, il m’a sauvé la vie (2001), o último filme de Giovanni, regressa ao período mais traumático da sua existência através da história de um jovem condenado à morte e do pai que tenta salvá-lo. 

Entre esses dois extremos encontra-se uma carreira que ajudou a definir o cinema policial francês das décadas de 1960 e 1970. Le Deuxième Souffle, realizado por Melville a partir do romance de Giovanni; Classe tous risques, de Sautet; Le Clan des Siciliens, de Henri Verneuil; e, já como realizador, Dernier domicile connu, La Scoumoune, Deux hommes dans la ville ou Le Gitan revelam uma continuidade temática que passa da literatura para o cinema e da experiência pessoal para a ficção. 

Le Clan des Siciliens, de Henri Verneuil (1966).

Há ainda uma dimensão particularmente significativa na seleção de San Sebastián: Les Égouts du paradis (1979), adaptação da autobiografia do criminoso Albert Spaggiari, responsável pelo célebre assalto ao banco Société Générale de Nice em 1976. Spaggiari tinha também um passado político na extrema-direita e fora membro da OAS; Giovanni transforma a sua história no material de um filme sobre um dos grandes golpes da criminalidade francesa. 

A retrospetiva não precisa de escolher entre o grande autor do polar ou o homem comprometido com um passado de colaboração e violência. O interesse está na coexistência dessas duas dimensões. Rever Giovanni hoje significa acompanhar a transformação de Joseph Damiani em José Giovanni: criminoso condenado, escritor de Série Noire, argumentista de Becker, Sautet e Melville, realizador popular e, finalmente, autor que voltou repetidamente à própria memória para reconstruir — ou ficcionalizar — aquilo que nela permanecia por resolver.

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