“Ghost Song”, “Minotaur”, “Coward” e “Glaxo”: quatro filmes ligados pela cinefilia do festival.
O segundo dia de San Sebastián lançou-nos a proposta de imaginar uma linha invisível capaz de aproximar narrativas, propostas de filmes ou, pura e simplesmente, estados de alma de uma cinefilia partilhada no festival. Sim, aquela que permite o diálogo do cinema com ele próprio. O que teria, à partida, em comum a história de amor para além da vida de Ghost Song, de Fatih Akin, filme que abriu a competição pela Concha de Ouro, com Glaxo, também em competição, do argentino Benjamín Naishtat? E, sobretudo, que possibilidades de diálogo se abrem com Minotaur, do russo exilado Andrey Zvyagintsev, e Coward, do belga Lukas Dhont, duas “pérolas” de Cannes? Romance, política e a forma como aquilo que é histórico — mas também aquilo que é simplesmente pessoal — acaba sempre por atravessar as vidas privadas.
Em Ghost Song, Akin parte de uma ideia quase adolescente para construir uma história de amor depois da morte. Farasha e Faris conhecem-se numa festa, apaixonam-se e, pouco depois, sofrem um acidente de automóvel em que ela morre. Faris sobrevive, afundado na culpa e na depressão; Farasha encontra uma forma de regressar através dos seus sonhos. Durante quarenta noites, os dois podem continuar juntos.
A premissa é forte: a possibilidade de uma última conversa com alguém que morreu, os sonhos como espaço de reencontro, a confrontação com a morte durante a adolescência. O problema é que Ghost Song parece não confiar inteiramente na força dessas ideias. Akin repete o acidente, sublinha os símbolos, carrega a banda sonora e transforma demasiadas vezes em imagem aquilo que o espectador já percebeu.
Ainda assim, há qualquer coisa de particular na abertura. Durante alguns minutos, Akin filma os jovens a dançar e deixa a câmara mover-se com Farasha. Estamos no alto da Torre Heinrich Hertz, em Hamburgo, mas por momentos parece que estamos noutro lugar, algures numa memória do cinema alemão. A perspectiva sobre a cidade, a personagem suspensa entre dois mundos e a própria situação podem evocar, para um espectador cinéfilo, Wenders — não como citação explícita, mas como possibilidade de leitura dentro de um filme profundamente geracional.
Essa dimensão está na própria origem do projecto. Akin revelou-me que a ideia veio do filho, há dez anos, quando tinha dez anos — hoje tem 20, a idade das personagens. O realizador atravessava então uma crise provocada pelo fracasso de um filme e procurava uma nova história. O pitchdo filho era simples: fazer um filme sobre a amizade de dois jovens, sendo um deles um fantasma. A ideia ficou, o argumento foi escrito e, entretanto, Akin fez outros filmes. Dez anos depois, Ghost Song cresceu com eles. É talvez por isso que fala directamente para uma geração, através de códigos e easter eggs que pressupõe partilhados — romance, música, fantasia, sonho, amor absoluto. Mas essa proximidade pode também nivelar a experiência do espectador: quase todas as emoções chegam já descodificadas.
Já em Glaxo, a relação entre a História e a intimidade é muito mais concreta. Naishtat adapta o romance de Hernán Ronsino para contar a história de quatro amigos de uma pequena cidade argentina, atravessando décadas marcadas pela violência política. E há uma pequena ironia cinéfila logo no início: em 1985, duas das personagens reencontram-se numa sala de cinema de Chivilcoy para ver “O Exterminador Implacável”, de James Cameron. No ecrã, um futuro dominado pela guerra e pela máquina; fora dele, uma Argentina que acaba de sair da ditadura militar e ainda carrega as marcas da violência.
A coincidência torna-se particularmente sugestiva em San Sebastián. Em 2022, o festival exibiu Argentina, 1985, de Santiago Mitre, em Perlak, filme sobre o julgamento das juntas militares e a reconstrução democrática argentina. Ver agora Glaxo, com personagens que em 1985 entram num cinema para assistir a O Exterminador Implacável, cria quase involuntariamente uma segunda sala de cinema dentro do próprio festival. Naishtat olha para a Argentina através das feridas privadas deixadas pela História.
O que começa como uma história de amizade, desejo e juventude vai sendo contaminado pelo passado de repressão e pelas relações entre poder político, militares e interesses empresariais. A política não está diante das personagens: está dentro delas, dos seus desejos, das traições, do casamento e do adultério. A grande História e a pequena história deixam de ser dois planos e passam a ser a mesma coisa vista de escalas diferentes.
É precisamente daqui que Glaxo estabelece uma ponte inesperada com Minotaur, uma das “pérolas” de Cannes. Zvyagintsev regressa ao cinema nove anos depois de Loveless (2017) para adaptar La femme infidèle (1969), de Claude Chabrol. Um adultério, uma relação conjugal, um crime: à partida, quase tudo parece afastado da política. Mas é justamente através dessa matéria privada que Zvyagintsev filma o presente russo. A história de Chabrol é deslocada para um país marcado pela guerra, pelo autoritarismo e por uma lógica patriarcal, fazendo com que o conflito político contamine a intimidade.
A relação com Glaxo é, por isso, particularmente forte. Em ambos, a política não funciona como pano de fundo, mas como uma força que entra nas casas, nos casamentos e nas amizades. Zvyagintsev faz do adultério um sintoma de um país; Naishtat mostra como a violência política continua a viver dentro das relações entre aqueles que sobreviveram a ela.
Por fim, Coward, de Lukas Dhont, desloca novamente o problema. A Primeira Guerra Mundial convoca inevitavelmente a memória de All Quiet on the Western Front e das suas várias adaptações, mas Dhont olha menos para a linha da frente do que para aquilo que acontece atrás dela. A sobrevivência depende dos que transportam munições, removem feridos e mortos, asseguram os abastecimentos e, sempre que possível, inventam alguma diversão para os soldados.
É nesse espaço intermédio que Dhont ensaia a sua própria peça queer. Na ausência das mulheres, são os soldados que assumem os seus papéis, e o teatro torna-se uma ficção dentro da ficção: um espaço onde podem experimentar outros corpos, outras identidades e outras formas de afeto. É aí que nasce o romance entre dois soldados. A guerra exige-lhes masculinidade; a representação permite-lhes imaginar outra coisa. Emmanuel Macchia, na sua estreia no cinema, interpreta Pierre com uma contenção particularmente expressiva e foi distinguido em Cannes pelo seu trabalho.
