Um filme de excessos e transições, em que Jane Schoenbrun transforma o esgotamento do slasher numa reflexão sobre cinema, identidade e desejo.
Adolescência, Sexo e Morte no Acampamento Miasma. O título diz muito daquele que é o filme do momento — e talvez um dos mais ousados. Por isso mesmo, importa vê-lo e ter uma opinião sobre este projecto, ao mesmo tempo terrível e sedutor, carregado de duplicidades e transições. Foi o que fizemos, numa descoberta fruída na Sala Fernando Lopes, integrada na Universidade Lusófona e com serviços assegurados por estudantes de cinema.
Esta aproximação académica não é inocente, pois esta terceira longa da cineasta trans Jane Schoenbrun (We’re All Going to the World’s Fair, 2021, e I Saw the TV Glow, 2024) parte justamente do esgotamento dos códigos de Hollywood, nomeadamente do género slasher, para nos oferecer um filme sobre o cinema, um ensaio académico sobre a cinefilia, a identidade e uma sátira à própria máquina da indústria.
Um dos aspectos mais interessantes de Teenage Sex and Death, um filme produzido pela plataforma MUBI, reside na forma como o género serve de premissa para aflorar a base dos nossos instintos extremos, as nossas dualidades, entre o medo e o desejo — ou, como se diz no filme, entre o sangue e o orgasmo. Porque tudo começa com o corpo. O olhar subjectivo da câmara — o nosso — aproxima-se, até perceber que alguém observa. Acontece o clarão e o plano inverte-se: afinal, a personagem já não está a ver o filme, mas dentro dele.
Talvez seja a própria Schoenbrun que se reincarna em Kris (Hannah Einbinder), a jovem realizadora encarregada de fazer uma nova versão, supostamente «elevada» — aka woke, como o filme ironiza — de Camp Miasma, parodiando as grandes franchises do terror (sim, Freddy Krueger, Michael Myers e Jason Voorhees estão convocados). Ao tentar encontrar Billy Presley (Gillian Anderson), a actriz que protagonizou o último filme, Kris viaja até ao antigo local das filmagens, onde a descobre a viver em solidão como uma espécie de Norma Desmond — ou Gloria Swanson — de Sunset Boulevard, presa à glorificação de um passado cinematográfico que já não existe.
Kris quer analisar, desmontar e actualizar o filme, mas Billy sabe que é preciso, antes de mais, «viver» o filme. O percurso da jovem cineasta passa então por essa passagem do conhecimento cinéfilo à experiência com essa mulher madura, do controlo à entrega às imagens. A transformação da identidade atravessa igualmente o filme, que joga com nomes masculinos transformados em personagens femininas e com um mundo de possibilidades identitárias.
Se I Saw the TV Glow explorava a possibilidade de enterrar uma identidade, Camp Miasma parece interessado no movimento contrário: deixá-la vir à superfície através de um cinema de duplicidades e transições levado ao limite — entre o terror e o êxtase; entre a personagem original e a nova realizadora; entre a orientação sexual e a transição identitária; entre a virgindade (da personagem) e a morte; entre o cinema e a realidade.
Schoenbrun conhece profundamente o slasher e constrói uma extraordinária carta de amor ao género, sublinhada pela riqueza iconográfica das capas das cassetes VHS, do grão da imagem, de toda a memorabilia retro, mas também pelas falsas sequelas e pela mitologia minuciosamente inventada. Naturalmente, tudo isto é levado ao excesso e devidamente acompanhado por doses XXL de frango KFC mergulhado em molhos calóricos, acompanhado pelos snacks mais açucarados. É também aí que surge o olhar ácido sobre Hollywood. O excesso da reciclagem das infinitas franchises, sequelas e remakes encontra uma metáfora literal nessa ingestão quase indigesta de uma indústria que se alimenta de si própria, triturando e recombinando incessantemente as mesmas imagens.
É interessante a forma como Jane Schoenbrun nos faz sentir esse lado de transição, seja pelos tons pastel dos cenários fake, seja pela evidente mescla do nosso imaginário do género, necessariamente contaminado por esse turbilhão de narrativas, obviamente levadas ao excesso e apreciadas como tal. Por outro lado, percebe-se como a sua deriva parece ter saído de um exercício académico, ao mesmo tempo cinematográfico e filosófico, filtrando o mundo do cinema pelo mundo e pelos desafios transformativos, de toda a ordem, que vivemos.
Talvez seja aqui que o filme encontre essa dimensão académica mais forte, justamente, no conceito do «homem ordinário do cinema» veiculado por Jean-Louis Schefer, abrindo o espaço para o espectador comum, anónimo, que, na penumbra da sala, se deixa habitar pelas imagens, pelas suas memórias, medos e fantasias. Ou seja, em Camp Miasma, o cinema não é apenas aquilo que Kris vê, é também aquilo que olha para ela. Uma dimensão que até a própria sala de cinema acaba por prolongar.
No final, subsiste a questão: já não é apenas quem matou quem em Camp Miasma que importa, mas sobretudo quem somos nós próprios a partir do momento em que a imagem do cinema nos olha de volta. Até porque talvez aquela máscara que envolve a cabeça de Little Death — além de todos os significados que comporta — emule também uma antiga câmara de cinema, fornecendo a síntese perfeita de uma máquina de imagens que regressa do passado para nos encarar e, obviamente, aterrorizar.
