Irmãos Coen, Todd Haynes, ou Zhang Ziyi e Tsui Hark? Entre estes dois pólos, outros tantos convidados e muito cinema para (re)descobrir. Entre a secção Clássicos e as Mulheres realizadoras. A magia começa quando se entra a porta de onde saíram os trabalhadores da fábrica Lumière.
Há qualquer coisa de inevitavelmente cinéfila no Festival Lumière. Talvez porque, durante nove dias, Lyon — cidade onde os irmãos Lumière inventaram o cinematógrafo — se transforme numa espécie de território onde o passado do cinema não é uma memória distante, mas uma experiência presente. É para lá que parto amanhã, para acompanhar pela sexta vez consecutiva o festival criado por Thierry Frémaux, homem de cinema que vive com um pé em Cannes e outro em Lyon, entre a actualidade do grande festival internacional e a paixão pelo património cinematográfico na sua cidade.
A 18.ª edição decorre de 10 a 18 de Outubro e volta a propor aquilo que é, provavelmente, uma das mais exuberantes celebrações do cinema clássico: retrospectivas, grandes convidados, restauros, descobertas, sessões especiais, cine-concertos e quase 450 sessões espalhadas por salas de Lyon e da sua região.
O nome maior desta edição será o dos irmãos Joel e Ethan Coen, distinguidos com o Prémio Lumière 2026. A retrospectiva percorre uma obra que, desde Blood Simple (1984), nunca deixou de brincar com os géneros — film noir, comédia, western, thriller, policial — para os desmontar, cruzar e reinventar. Miller’s Crossing, Barton Fink, Fargo, The Great Lebowski, O Brother, Where Art Thou?, No Country for Old Men, Inside Llewyn Davis ou The Ballad of Buster Scruggs estarão entre os filmes apresentados. Os dois realizadores terão ainda uma masterclass no Théâtre des Célestins e uma cerimónia de entrega do prémio, seguida de Inside Llewyn Davis.
Mas o Lumière nunca se esgota no grande nome da edição. Ettore Scola ocupa uma das retrospectivas centrais, numa homenagem particularmente feliz a um cineasta capaz de transformar a comédia, o melodrama e a observação social em retratos profundamente políticos da sociedade italiana. C’eravamo tanto amati, Brutti, sporchi e cattivi, Una giornata particolare, La terrazza, La notte di Varennes e Splendor estarão entre os filmes recuperados. E é precisamente Scola que abre oficialmente o festival: Una giornata particolare, com Sophia Loren e Marcello Mastroianni, será exibido depois da cerimónia inaugural.
Se Scola representa uma das grandes tradições do cinema europeu, o Lumière volta a abrir-se às cinematografias do mundo. Tsui Hark, figura fundamental da New Wave de Hong Kong, estará em Lyon para apresentar filmes como Shanghai Blues, Peking Opera Blues, Once Upon a Time in China e Time and Tide. Todd Haynes traz Poison e Safe, agora em novas restaurações, além de Far from Heaven e I’m Not There. Nadine Labaki, Zhang Ziyi, Robert Eggers e Agnès Jaoui são outros dos convidados de uma edição que continua a cruzar cineastas, actores e diferentes gerações da cinefilia.
E há ainda Abel Ferrara, presença particularmente interessante pelo percurso radical e independente, que estará em Lyon para apresentar a sua autobiografia Scène. Mémoires e reencontrar filmes como Bad Lieutenant e Zeros and Ones.
Uma das dimensões que mais me interessa no Lumière é, contudo, aquela que por vezes passa mais discretamente pelo grande cartaz: o trabalho de recuperação do património cinematográfico. A etiqueta Lumière Classics distingue as restaurações consideradas mais relevantes da temporada, aproximando arquivos, cinematecas, produtores, fundações e distribuidores. Não se trata apenas de recuperar os “grandes clássicos”, mas também filmes menos conhecidos, devolvendo-lhes a possibilidade de serem vistos em condições de projecção.
É nesse mesmo espírito que surge A Permanent History of Women Filmmakers, programa que reúne sete realizadoras de diferentes geografias — do Brasil a Hong Kong, passando pela Grécia, Reino Unido, França, Estados Unidos e Hungria. Gilda Abreu, Maria Plyta, Wendy Toye, Paula Delsol, T’ang Shushuen, Elaine May e Márta Mészáros permitem outra história possível do cinema, recuperando obras de mulheres que permaneceram durante décadas nas margens da historiografia dominante.
E depois há a música. O cine-concerto de Metropolis, quase um século depois de Fritz Lang ter filmado a sua cidade futurista, será um dos acontecimentos maiores: a Orchestre National de Lyon, dirigida por Don Davis — compositor da música da trilogia The Matrix — executará pela primeira vez a nova Centenary Symphony, criada para assinalar os cem anos do filme.
É esta combinação que continua a fazer do Lumière um festival singular: um arquivo que não quer ficar no arquivo, uma história do cinema que se apresenta como presente e uma cinefilia que não vive apenas da memória, mas da experiência colectiva da sala.
Amanhã começa mais uma viagem. E, pela sexta vez, Lyon volta a ser, durante uma semana, uma das capitais mundiais da cinefilia.
