Entre estrelas e imagens recuperadas do esquecimento, Pordenone continua a revelar a extraordinária diversidade do cinema mudo.
Há festivais que se visitam. E há festivais que, mesmo à distância, continuam a convocar uma experiência de cinema. As Giornate del Cinema Muto regressam a Pordenone para a sua 45.ª edição, entre 3 e 10 de Outubro, com cerca de 250 filmes de 19 países, numa programação que cruza restauros, descobertas, estrelas, vanguardas, cinematografias esquecidas e diferentes formas de olhar para os primeiros anos do cinema. Depois de ter acompanhado presencialmente a edição anterior, este seguimos as sessões disponíveis através do programa online — uma experiência necessariamente diferente, mas que confirma a importância que o festival adquiriu também como lugar de circulação digital do património cinematográfico.
A programação deste ano mantém a extraordinária capacidade de fazer o cinema do passado dialogar com o presente. Entre os principais eixos estão a segunda parte de Weimar senza censure, dedicada ao cinema alemão de 1919-1920 e às relações entre cinema, censura e transgressão; uma retrospectiva dedicada à diva italiana Italia Almirante Manzini; as primeiras representações da chamada loucura feminina; as vanguardas checas; os Phantom Tram Rides e uma série de programas dedicados às primeiras imagens cinematográficas da antiguidade captadas em tomas captadas a bordo de elétricos; por fim, a secção Rediscoveries and Restorations que continua, naturalmente, a ser um dos centros vitais do festival.
A abertura,. pelo menos, para nós, coube a Don Q, Son of Zorro (1925), de Donald Crisp, com Douglas Fairbanks, filme de aventura e espectáculo que recupera a figura de Zorro (captado numa muito boa cópia no YouTube) para um novo exercício de virtuosismo físico da estrela. É uma escolha que lembra desde logo que Pordenone não é apenas um festival de arqueologia cinematográfica: é também um lugar onde o cinema mudo continua a ser celebrado como cinema, isto é, como espectáculo, emoção e experiência.
Continuando do lado de cá do ecrã, os primeiros filmes que acompanhei permitem já perceber a amplitude da programação. The Humming Bird (1924), de Sidney Olcott, é uma das descobertas deste ano e tem uma razão imediata para despertar a atenção: Gloria Swanson. A actriz surge como Toinette, líder de um gangue de Apaches de Montmartre, numa personagem que combina criminalidade, desejo, transformação e redenção durante a Primeira Guerra Mundial. Produzido pela Famous Players-Lasky e distribuído pela Paramount, o filme foi uma produção importante da época, embora tenha tido uma circulação posterior bastante mais limitada do que a fama da sua protagonista poderia fazer supor.
E é sobretudo Swanson que se impõe. Há nela uma presença que parece exceder o próprio dispositivo melodramático: o rosto, o corpo, a maneira de ocupar o enquadramento fazem perceber imediatamente por que razão a estrela era um elemento central da experiência cinematográfica dos anos 1920. O festival recupera assim não apenas um filme, mas também uma determinada ideia de star system, devolvendo à actriz uma presença que o tempo e a canonização selectiva do cinema americano tinham parcialmente apagado.
Outro dos filmes que comecei a acompanhar é L’Arzigogolo (1924), de Mario Almirante, apresentado este ano como uma das grandes descobertas da retrospectiva Italia Almirante Manzini. A história do próprio restauro é quase tão fascinante como o filme: a reconstrução resulta do cruzamento de uma cópia conservada pela Cinemateca Brasileira, em São Paulo, com material em nitrato encontrado na região de Trieste, permitindo recuperar cerca de 74% da metragem original.
Há ainda um detalhe particularmente revelador na cópia brasileira: os intertítulos estão em português. Um pequeno vestígio material que recorda que estes filmes não ficaram imóveis nos arquivos. Viajaram, foram exibidos noutros países, receberam novos intertítulos e foram incorporados a outras culturas cinematográficas. Um filme italiano de 1924 pode, assim, reaparecer um século depois através de uma cópia brasileira com palavras portuguesas.
Um dos outros pontos altos de Pordenone será seguramente a sessão que reúne Gloria Swanson em Sadie Thompson (1928) e Robert Wiene (depois de O Gabinete do Dr. Caligari) em Genuine (1920), dois filmes muito diferentes mas igualmente marcados por personagens femininas transgressoras. No primeiro, Swanson interpreta uma mulher independente e sensual que chega a uma pequena comunidade do Pacífico e entra em conflito com um missionário puritano, numa adaptação do conto de Somerset Maugham dirigida por Raoul Walsh. Em Genuine, Fern Andra dá corpo a uma mulher-vampiro, prisioneira numa cave subterrânea, cuja sexualidade e desejo provocaram escândalo à época, dividindo o público entre aplausos e protestos. Recuperado a partir de uma versão francesa profundamente censurada, o filme de Wiene é mais uma das operações de arqueologia cinematográfica que fazem de Pordenone um lugar privilegiado para reencontrar imagens que quase desapareceram.
É talvez esta a verdadeira viagem de Pordenone: não apenas regressar ao passado do cinema, mas acompanhar os percursos, desaparecimentos e reencontros que permitem que esse passado continue a chegar até nós. Mesmo sem poder cumprimentar os presentes, como o amigo Jay Weissberg e até o fundador Paolo Cherchi Usai, o fascínio permanece, mesmo numa outra escala, através de um ecrã à distância.
