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Ettore Scola: rir com o que nos inquieta

Dez anos depois da morte de Ettore Scola, o Festival Lumière, em Lyon, prestou homenagem a uma obra onde o humor, a memória e o compromisso político se cruzam numa redescoberta sedutora em cópias novas que nos reconfiguram com a cinefilia. De Um Dia Inesquecível (1977) a Feios, Porcos e Maus (1976), passando por Tão Amigos que Nós Éramos (1974) ou Splendor (1989), entre outros dos maiores momentos do cinema italiano dos anos 70 e 80, Scola continua a interrogar-se e a interrogar a sociedade do seu tempo (e do nosso!). Sim, este é um cinema que importa (re)descobrir.

Na Halle Tony Garnier, em Lyon, a abertura da 18.ª edição do Festival Lumière (de 10 a 18 de outubro) juntou mais de 4 mil almas em conjunto a emoção de assistir a Una giornata particolare (1977), um dos filmes mais conhecidos (e amados) de Ettore Scola (1931–2016). A escolha, aliás, dificilmente seria mais significativa, pois remete-nos para um presente que, por vezes, parece imitar esse passado feito de propostas radicais. Em concreto, estamos naquele dia 8 de maio de 1938, quando Roma saiu à rua para celebrar a visita de Hitler a Mussolini, mas Scola fixa-se em duas personagens que optaram por permanecer à margem das manifestações: Antonietta, uma dona de casa submissa, interpretada por Sophia Loren, e Gabriele, um antigo locutor de rádio defendido com brio por Marcello Mastroianni, perseguido pela sua não conformidade com o cânone masculino: ser homem, pai e militar, ou antes, o seu oposto, ser homossexual. É num edifício quase deserto, entre o que se vê e escuta pelas janelas – e enquanto a História desfila no exterior – que decorre essa giornata entre estes dois seres isolados e que acaba por transformar-se num gesto de mútuo reconhecimento.

Um Dia Inesquecível (1977)

Convidado a apresentar o filme, o realizador americano Todd Haynes recordou tê-lo visto pela primeira vez aos 16 anos, em L.A., destacando a capacidade de Scola em construir um universo cinematográfico “muito particular”, justamente no espaço limitado de um apartamento, destacando até a aproximação ao universo referencial de Alfred Hitchcock (Janela Indiscreta, Chamada Para a Morte e A Corda, por exemplo, mas também a Roman Polanski (Repulsion/Repulsa, Rosemary’s Baby/A Semente do Diabo, ou The Tenant/Inquinino). Haynes chamou ainda a atenção para o magnífico restauro do filme, que nos permite apreciar as “nuances cromáticas escondidas nessa tonalidade da imagem em tons de chá e delicados apontamentos de lavanda”, como referiu. Isto sem deixar de sublinhar a extraordinária prestação de Mastroianni e Loren, estes “dois seres isolados que atuam contra o tempo de uma forma corajosa”. Quase cinquenta anos depois, a solidão, a proximidade da repressão e a transformação da diferença em exclusão mantém uma incómoda atualidade.

Será até essa capacidade de olhar o presente através das contradições do passado que o cinema de Scola melhor se define. E talvez o facto do realizador romano se ter especializado como argumentista antes de se lançar como regista – por exemplo, com Dino Risi, Antonio Pietrangeli, Luigi Comencini ou Mauro Bolognini, participando ativamente na renovação da commedia all’italiana – lhe conferiu essa capacidade de observar os comportamentos sociais sem idealizar as personagens, optando quase sempre pelo humor, ainda que de uma forma crítica. Politicamente comprometido, Scola nunca reduziu o cinema à ilustração de uma ideologia: preferiu mostrar os grandes acontecimentos históricos inscritos nas vidas comuns, nas relações humanas e até nas nuances que o tempo vai construindo. Mas sem deixar de convocar e questionar o cinema (e até a própria função da crítica de cinema) dentro dos próprios filmes. E tantas vezes ao som melodioso da música do compositor Armando Trovajoli ou os diálogos inesperados (e, por vezes, mesmo anacrónicos) que se estabeleciam entre outros filmes da programação.

Feios, Porcos e Maus (1976)

A possibilidade de rever, em grande ecrã, Feios, Porcos e Maus (1976), um dos grandes filmes que chegou ao nosso país já em plena euforia revolucionária, permitiu-nos perceber melhor a dimensão cáustica do seu sentido de humor e da sua “capacidade de retratar da alegria e a melancolia italiana”, como referiu Gian Luca Farinelli, sublinhando a sua capacidade de “encarar a humanidade mesmo nas condições mais deploráveis”. Algo que nos é dado de uma forma muito generosa através do retrato que pinta daquele bairro de lata nos borgate de Roma, onde uma família numerosa sobrevive de forma grotesca, algures entre a violência e a promiscuidade. Embora sem nunca perder o sentido de humor e até de saber rir de si próprio. Desde logo, através de um Nino Manfredi nos limites da truculência.

Na apresentação da sessão em Lyon, Thierry Frémaux e Farinelli sublinharam o lugar singular do cineasta na história do cinema italiano e o diálogo que a sua obra estabelece com outras gerações de cineastas italianos, de Federico Fellini a Nanni Moretti, que conhecia bem a obra de Scola, como recordou o diretor do Il Cinema Ritrovato e da Cineteca di Bologna, responsável por um boa parte dos restauros presentes no festival. Essa sessão incluiria ainda a curta “raríssima” 1943-1997, uma pequena preciosidade de nove minutos, muito pouco raramente vista, que Farinelli apresentou como uma “síntese da história italiana e da própria história do cinema”.

Ao longo desta semana dedicada à descoberta da obra de Ettore Scola (um cineasta do qual confessamos não ter uma atualização do seu justo valor) permitiu-nos também perceber melhor como ele próprio se enquadrava numa geração que viu os seus ideais transformarem-se em alguma acomodação e desencanto. Algo transmitido de uma forma absolutamente brilhante em Tão Amigos que Nós Éramos (1974), nessa deriva de três amigos (Nino Mandredi, Vittorio Gassman e Stefania Sandrelli), atravessando décadas da história italiana, entre a Resistência às desilusões do pós-guerra; entre a utopia e o compromisso; entre um retrato da esquerda italiana e uma declaração de amor ao seu país, mas também à vida e ao próprio cinema, de resto, um aspeto que assume uma parte muito ativa na sua obra. Aqui com homenagens a Vittorio De Sica, mas também Federico Fellini e Marcello Mastroianni, num fabuloso jogo entre ficção e realidade, recriando a mítica rodagem de La Dolce Vita (1960), justamente com imagens da mítica cena da Fontana di Trevi. Ou seja, é, uma vez mais, a memória cinematográfica a tornar-se parte integrante da memória coletiva.

O Terraço (1980)

Avançando no tempo, seis anos depois, em mais uma nota de amargura sobre uma geração que foi progressivamente traindo as suas convicções. Algo bem evidente no magistral em O Terraço (La Terrazza, 1980), onde um grupo de intelectuais e profissionais dos media (com um quarteto de atores reincidentes, como Vittorio Gasman, Ugo Tognazzi, Jean Louis Trintignant e Marcello Mastroianni, além de Stefania Sandrelli) se reúne com regularidade num hotel de Roma, servido por conversas repetidas, ironias e refeições prolongadas. Uma vez mais, é Scola a aliar o humor a um certa paradoxo e intransigência, mostrando com rara lucidez como os ideais se podem transformar com a passagem do tempo. 

Curioso até o diálogo inesperado que este filme fez Barton Fink, de Joel e Ethan Coen, homenageados do festival com o Priz Lumière, visto no dia seguinte, justamente quando Trintignan (qual John Turturro) procura superar o seu writers block, improvisando um guião ocasional para Ugo Tognazzi (o produtor), com algumas cenas que parecem replicadas, ainda que separadas por quase uma década. Até poderia ter sido uma inspiração, caso Joel Coen não tivesse confessado, na apresentação de Barton Fink, que a ideia para esse filme de 1991, fora parcialmente colhida nos cartoons dos Simpsons…

Splendor (1989)

É justamente essa ligação do tempo que nos dá o igualmente brilhante Splendor (1989), projetado “na mais bela sala do Festival Lumière”, ou seja, a sala de cinema que pertence à Villa Lumière, portanto à casa da família que inventou o cinematógrafo, ali mesmo ao lado do Museu Lumière. E este é talvez o filme onde Scola leva mais longe esse olhar sobre o cinema do passado. Uma vez mais, com Marcello Mastroianni, desta feita, como proprietário de uma sala de cinema ameaçada de encerramento pela distração oferecida pela programação de cinema na televisão. E com mais uma tocante prestação de Massimo Troisi (pouco anos antes de este falecer de crise cardíaca, aos 41 anos, após a rodagem de O Carteiro de Pablo Neruda, em 1994,) e Marina Vlady. Inevitavelmente próximo de Cinema Paradiso, de Giuseppe Tornatore, apenas um antes), Splendor partilha o poder da memória afetiva da sala de cinema. Entre o preto e branco e a cor, coo que a sublinhar o passado e o presente, mas também “a nostalgia e a sombra”, como foi referido na apresentação que sempre antecede a projeção.

É neste plano que importa evocar o significado de um festival como o Lumière, permitindo esta vénia enorme à obra de Ettore Scola, num fulgurante regresso ao grande ecrã, em cópias cristalinas, para o êxtase de plateias inteiras rendidas a esse prazer de o descobrir ou rever os seus filmes. Mesmo que muitos estejam hoje disponíveis online, essa experiência de uma sala cheia, devolvendo as melhores condições de projeção, e essa partilha com outros espectadores que reconhecem esse mesmo fascínio será algo ímpar. 

A retrospetiva Ettore Scola, nous l’avons tant aimé não será apenas essa homenagem ao cineasta desaparecido há dez anos, é antes o reencontro com uma obra que sempre acompanhou o prazer do cinema da sua própria inquietação com o mundo em que viveu.

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