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Naomi Watts recebe Prémio Donostia em San Sebastián e dedica distinção a David Lynch

Naomi Watts recebeu o Prémio Donostia do Festival de San Sebastián, numa cerimónia em que recordou David Lynch e o papel decisivo que o realizador teve na sua carreira. A distinção foi entregue pelo realizador J. A. Bayona, perante uma plateia que celebrou uma actriz com mais de três décadas de carreira e uma filmografia marcada por personagens de grande complexidade. 

Watts dedicou o prémio a Lynch, que a dirigiu em Mulholland Drive (2001), o filme que representou uma mudança decisiva no seu percurso. Ao recordar a fase difícil que antecedeu esse encontro, a actriz falou das sucessivas rejeições e de como acabaram por ganhar outro significado: “Todas as feridas provocadas pela rejeição transformaram-se agora em crescimento. Ele deu-me um papel com que nem sequer poderíamos sonhar. O David mudou a minha vida.” 

A actriz recordou ainda a experiência de trabalhar com Lynch e a importância de continuar a aceitar o desafio de interpretar outras vidas. “O prazer de ser actriz está em passar a vida a tentar habitar outras pessoas e, de alguma forma, ao longo desse caminho, descobrir mais sobre nós próprios”, afirmou. 

A cerimónia tornou-se também uma oportunidade para Watts falar sobre idade, representação e o lugar das mulheres na indústria cinematográfica. “O cinema é a mais bela forma de arte. Precisamos mais do que nunca de contar histórias. E sinto-me grata por uma mulher da minha idade — apesar de me terem dito, quando tinha 31 anos e estava a lançar Mulholland Drive, que tudo estaria acabado aos 40 — poder contribuir para mudar essa narrativa.”

A actriz acrescentou: “Precisamos de nos ver reflectidos nos ecrãs. E talvez o melhor que possa dizer seja que, depois de todos estes anos, continuo a querer saber o que acontece a seguir.” 

Naomi Watts, em The Housewife, de Ben Shirinian.

A passagem por San Sebastián acontece também no contexto da apresentação de The Housewife, filme em que Watts assume o papel principal e é igualmente creditada como coprodutora. A história acompanha uma imigrante austríaca em Nova Iorque, nos anos 1960, que procura esconder o seu passado através da encenação de uma imagem de inocência luminosa, associada ao sonho americano. 

A personagem permite-lhe explorar uma faceta marcada pela contenção, pela aparência de respeitabilidade e por uma intensidade que permanece submersa. A interpretação foi destacada no texto de apoio como um dos elementos mais fortes do filme, embora a realização de Ben Shirinian e o argumento de Alyssa Hill sejam considerados menos consistentes perante a força do material dramático. 

A homenagem cruza, assim, duas fases do percurso de Watts: o reconhecimento de uma carreira consolidada e a afirmação de uma actriz que continua a procurar novas personagens e novos desafios. Há também uma espécie de continuidade simbólica entre a mulher que, aos 31 anos, ouviu que a sua carreira teria terminado aos 40 e a actriz que hoje recebe o principal prémio honorífico do festival e continua a interrogar-se sobre o que poderá acontecer a seguir.

É essa disponibilidade para o futuro que talvez melhor resuma o discurso de Watts em San Sebastián. Depois de todos estes anos, diz, continua a querer saber “o que acontece a seguir”.

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