A afegã Shahrbanoo Sadat provoca humor e sexualidade na transição entre uma sociedade patriarcal e o inferno dos talibãs.
A 76.ª edição da Berlinale promete ficar marcada como uma das edições em que mais se sente uma programação de forte pendor político. E não é este o sinal dos tempos (inacreditáveis) que vivemos? Apesar disso, o presidente do júri, o cineasta alemão Wim Wenders, pareceu contrariar essa evidência ao sublinhar, logo na conferência de imprensa de apresentação do júri, que “os filmes podem mudar o mundo”, apesar de, como acrescentou, “não de uma forma política”. E que, na verdade, “nenhum filme realmente mudou a ideia de algum político”. Veremos então, no próximo dia 21, se o significado das suas palavras se confirmam quando forem anunciados os vencedores deste ano (o Urso de Ouro para o melhor filme e de prata para as restantes categorias).
Seja como for — e talvez esta seja a segunda nota introdutória desta edição —, repara-se igualmente que esta é uma seleção oficial praticamente despojada daquele glamour que tanto anima os profissionais das passadeiras vermelhas ou os jornalistas à caça de selfies (mea culpa da qual não estamos isentos, embora estejamos a aprender). E, se havia dúvidas, a escolha de Tricia Tuttle, presidente do Festival de Berlim, para a abertura da edição deste ano, sublinha precisamente essa tonalidade política, ao incluir o filme afegão No Good Men (numa grande co-produção europeia). A proposta de Shahrbanoo Sadat, realizadora (argumentista e protagonista) do filme, não poderia ser mais estimulante: sugerir uma comédia romântica ambientada na época em que os talibãs retomam o poder em Cabul. E a premissa é clara — e serve até de chavão: no Afeganistão, não há “bons homens”!
No encontro com a imprensa, Shahrbanoo, a viver na Alemanha, precisamente desde esse período de transição política, explicou que o seu objetivo foi desafiar os estereótipos ocidentais sobre o Afeganistão: um país quase sempre retratado como um palco de dramas de guerra. “Decidi fazer uma comédia romântica”,destacou a cineasta, nascida em Teerão, e já uma voz feminina muito forte no cinema contemporâneo, sobretudo após a boa impressão deixada em Cannes, com Wolf and the Sheep (2016), onde concorreu à Câmara de Ouro. Decidiu, mostrando, precisamente, uma faceta diferente do seu país, incluindo humor e sexualidade, como a cena bastante expressiva de uma brincadeira com um vibrador!
Aliás, Naru, a protagonista (interpretada por Shahrbanoo), uma operadora de câmera na televisão de Cabul, tem até um lado autobiográfico, como a cineasta confirma: “Acho que a raiva e as frustrações de Naru vêm de mim. A sua posição enquanto mulher, uma jovem de classe média a trabalhar na comunicação social e a viver no centro de Cabul; e sobretudo alguém de língua afiada que se mete em sarilhos — sou eu, definitivamente.”
Essa obstinação e determinação refletem as de Sadat, ao mostrar o lado humano de uma sociedade marcada por um conservadorismo extremo. Sadat cresceu a pensar que não havia homens bons. “Mas isso não é apenas a minha opinião ou experiência, é a experiência coletiva de muitas mulheres que vivem numa sociedade patriarcal como o Afeganistão.” Como refere, “até aos meus vinte e poucos anos, acreditava que não havia nenhum homem bom no Afeganistão.”
A convivência com o seu editor, Qodrat (Anwar Ashimi), um jornalista experiente que reconhece o seu talento, dá início a uma relação que desafia os estereótipos de género na sociedade afegã. De facto, como afirma, “o Anwar é o meu primeiro homem bom.” E é com ele que Sadat irá terminar com um final emotivo, que nos fez recordar o mítico final de “Casablanca” (1942), com a despedida de Bogart e Bergman. Afinal de contas há homens bons.

