A Voz de Hind Rajab. O título diz quase tudo, pois a ‘voz’ é o filme. E o que ele faz, ou melhor, a realizadora tunisina Kaouther Ben Hania, ao trazer essa evidência até nós, colocando o público como testemunha dos derradeiros momentos de uma criança antes de perder a vida em Gaza. Isto na sequência de um ataque israelita em que morreram, no mesmo veículo, os seus tios e primos. Esta ‘prova de vida’, amplia assim (pois nunca poderá sintetizar) a visão dessas dezenas de milhares de civis de todas as idades. De repente, é como se este filme procurasse evidências da nossa humanidade ao aproximar-nos dessa tragédia iminente. Sim, este é um filme ativista que nos empurra para o epicentro de uma história que acontece em tempo quase real.
O ponto de partida é um ficheiro de áudio – em concreto, o RECORDING_FILE_240129.WAV, datado de 29 de janeiro de 2024, o dia em que o exército israelita ordenou a evacuação do bairro Tel al-Hawa. Uma data que confere ao filme uma reforçada carga documental e política, atestando a autenticidade da voz de Hind (Hanood) Rajab.
Ben Hania apoia-se então nesse elemento material, deixando à sua equipa de atores a função de reagir emocionalmente com essa ‘voz’. Ou seja, a voz de Hind funciona não só como prova sonora, mas como detonador emocional que transforma dados e estatísticas em números de vítimas do conflito. Esse recurso remete-nos a outros filmes que partem de um elemento sensorial para desencadear um motor narrativo.
Esse núcleo concentra-se na equipa de operadores do Crescente Vermelho, em Ramala, e nos esforços de obter juntos dos centros de coordenação as autorizações necessárias para as ambulâncias poderem circular nos corredores de passagem. É também esta estrutura burocrática que acaba quase por transformar esse pedido de socorro num labirinto kafkiano, colocando peso na dramatização de todo o processo — as chamadas, as autorizações, as sucessivas intermediações — revelando a complexidade (quase política) desse dispositivo da emergência. É que, afinal de contas, as vidas para salvar também dependem de carimbos, de interlocutores e do tempo que todos esses mecanismos consomem.

Ainda assim, a proposta estilística de Ben Hania procurou preservar as reações viscerais, permitindo apenas que os atores, que já tinham trabalhado com interlocutores reais, só ouvissem as gravações em frente à câmara. O resultado revela-se poderoso, ao revelar essa emoção genuína, sobretudo nas sequências em que se confrontam diretamente com a voz de Hind; embora essa obrigação de encenação não escape ao certo jogo performativo, mesmo quando não pretende ser melodramático, é a situação em si que abrange toda essa energia. Talvez por isso, essa urgência formal seja mesmo uma intenção ética do filme: obrigar o espectador a não fazer parte desse conflito político-social.
É o caso da personagem de Omar, um dos operacionais do Crescente Vermelho, a quem cabe encarnar toda essa ambivalência, e mesmo quando ultrapassa sua dimensão profissional, ao passo que os elementos femininos da equipa mais expostos a uma dimensão mais emocional, na tentativa de manter ‘viva’ essa ‘voz’. No final, ficamos com o derradeiro fio realista, dado pelo contato com as imagens dessa viatura, perfurada pelas mais de 350 balas, bem com os restos mortais dos paramédicos igualmente mortos na derradeira explosão, ou ainda pelo desespero da mãe de Hind, que não estava no veículo.

Mesmo a inclusão do nascimento de outra criança, como uma réstia de esperança, não apaga a acusação: A Voz de Hind Rajab é um documento de responsabilização. Apesar do elemento performativo, necessário para dar consistência à singeleza deste registo sonoro que dá corpo ao filme, algures nos limites incertos do documento e da ficção, ainda assim reflete a urgência de impedir que a voz de Hind se transforme apenas em mais um dado estatístico, rapidamente digerido (e esquecido) na longa lista de vidas inocentes perdidas no genocídio de Gaza.










