No seu segundo filme, Simão Cayatte devolve-nos mais uma história de resiliência nas margens da vida. Com O Barqueiro temos um sinal claro que comprova a vitalidade da safra este ano do cinema português.
É no olhar intenso e no rosto anguloso de Joaquim (Romeu Runa) que o nosso olhar se fixa logo nos primeiros momentos do filme. Aqui se inscreve a dureza de um passado que vive paredes-meias com uma certa fragilidade, quase infantil. Ele que sai do estabelecimento prisional um pouco antes de cumpri os seus dezasseis anos de sentença. Talvez neste desajuste de vida possamos encontrar uma certa relação com o adolescente do primeiro filme de Cayatte, Vadio (2022), acompanhando uma personagem a trilhar um outro recomeço de vida. Simão Cayatte capta esse mundo dominado por um credível realismo, servindo-se de um assinalável gesto de cinema, mesmo quando deixa ao espectador a responsabilidade dos juízos.
E é justamente neste lado marginal que se centra a questão da apanha de amêijoa ao largo do Montijo e Seixal, no distrito de Setúbal, focando a exploração das comunidades de emigrantes tailandeses e nepaleses, sujeitas a uma situação laboral próxima da escravidão, bem como aos consequentes lucros chorudos do comércio pelas máfias locais. Temos então um registo de forte contexto comunal, entrelaçado por sólidas narrativas secundárias, devidamente defendidas por um elenco exemplar, dominado por Romeu Runa, Jani Zhao, Sandra Faleiro, Miguel Borges e Mafalda Jara.

Joaquim é uma figura errante, – o tal “vadio” -, utilizado (e abusado) por Fernando (Miguel Borges, ator que nunca desilude), um aproveitador que se usa a fragilidade dos mais frágeis para explorar o lucrativo negócio da apanha da amêijoa. Apesar da experiência relevante em miniséries de TV, a presença de Runa é daquelas que deixam marcas. Foi assim em Great Yarmouth – Provisional Figures, de Marco Martins, em Estamos no Ar, de Diogo Costa Amarante, onde contracenou com Sandra Faleiro que agora reencontra, ou até em Banzo, de Margarida Cardoso.
E é aqui que temos de mencionar Jani Zhao – que neste querido mês de abril entrega duas performances memoráveis, naturalmente, em O Barqueiro, no papel de uma emigrante asiática, mas igualmente como uma mulher revolucionária em Projeto Global, o filme sobre as Forças Populares 25 de Abril, de Ivo Ferreira, com estreia no dia 23. A sua entrega à personagem é notável, especialmente quando se mistura com os não atores, pescadores tailandeses e nepaleses, que se veem aprisionados em condições deploráveis.

Esta produção de Paulo Branco mantém uma forte carga social, adornando a narrativa com histórias secundárias abrangendo um retrato sempre em luta pela dignidade humana. Seja dado pelo ambiente de pequena burguesia, representado pela companheira de Fernando, Cláudia (Sandra Faleiro, uma vez mais, irrepreensível), pelas interações familiares de Joaquim e o desejo de oferecer um piano à filha (Madalena Aragão), ou pelo encontro terno com a emigrante Anong (Jani Zhao). Se é verdade que Simão Cayatte já se afirmara pela forma habilidosa como devolve uma certa humanidade, devolve-nos a complexidade como gere personagens fragilizadas, à deriva, mesmo quando culmina num final redentor e, ao mesmo tempo, ambíguo.
Seja com for, Cayatte mantém uma forma serena e eficaz de dirigir, levando o espectador a uma imersão na vida de Joaquim e na sua difícil realidade. Os momentos de tensão, que inevitavelmente eclodem em violência, são tratados com uma sensibilidade que traz à luz as fragilidades humanas. Cada personagem, mesmo que secundário, contribui para uma teia complexa de emoções e circunstâncias.
O Barqueiro é, portanto, muito mais que um simples relato de um homem à procura de identidade e redenção. É uma meditação sobre a luta interior de cada um de nós no sentido de encontrar um lugar no mundo. Mesmo que as promessas e escolhas que fazemos, não sejam apenas para outros, mas à nossa própria essência. E sobre o significado de encontrar a esperança nas margens da vida.










