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Playback: o cinema a imitar a televisão

Carlos Paião sonhou com um cometa, Graciano iluminou-lhe a trajetória, mas esse playback acabou ofuscado pelo eclipse.

Será que havia razões para esperar uma revelação de Playback, de Sérgio Graciano? Inshallah! Porque não? Carlos Paião até é uma dessas figuras que merecem o reencontro com o tempo e o seu meio. Naturalmente, um espaço televisivo, embora observado pelo cinema. Confesso até que, sem procurar informação, cheguei a imaginar que o filme seria baseado em imagens de arquivo — que, segundo consta, é até muito limitado. Na expectativa, descobrir o homem que escreveu mais de 300 canções antes de morrer, aos 30 anos, e que se tornou, um pouco, “lá de casa” e das ondas do transístor. Graciano opta pela ficção, um pouco na linha do que Fernando Vendrell havia feito com Variações (ou o próprio Graciano com várias personalidades: Cunhal, Soares, etc.). Ou seja, a ideia não era reproduzir Carlos Paião, mas antes compreendê-lo: ou seja, não recriar o biopic, mas tentar estar dentro da pessoa.

É também aí que começa o problema. Ou seja, na forma como se encena essa reconstituição da realidade. A ideia de partida é, em si mesma, estimulante: Carlos Paião, estudante de Medicina, dividido entre a segurança da profissão e a vida de artista; entre as obrigações da bata branca e a sedução das canções “para adultos, mas que as crianças também gostam”, como se escuta a certa altura – afinal de contas, é de Paião a autoria da canção das ‘boas noites, o ratinho Topo Gigio, ou a cação de Serafim Saudade de Herman José; ou seja, sempre entre a razão e um sonho sem idade— o tal cometa que um dia sentiu passar e com que abre o filme. 

Assim de repente, a narrativa até parece piscar o olho ao clássico de Cottinelli Telmo, A Canção de Lisboa, talvez até rimando com o inevitável Vasco Santana, também ele estudante de Medicina, boémio e mais interessado na vida artística do que em cumprir as expectativas familiares. Aliás, Graciano não resiste sequer à referência matreira, incluindo no filme uma dica ao famoso “esternocleidomastoideu”. Para bom entendedor… E os “entendedores” são aquele que pertencem à faixa etária que ainda sabe trautear o Playback e se lembra do Festival da Canção desse ano de 1981. 

O paradoxo é que Playback não consegue libertá-lo da sua imagem e estética televisivas; antes pelo contrário, acaba por as reproduzir. Ou seja, é o cinema a fazer playback da própria televisão, num misto de biografia alinhavada com vários clips de Paião. Uma comédia musical portuguesa? O sucesso das primeiras sessões aí está!

A grande (única?) força de Playback reside precisamente na capacidade de Rafael Ferreira em recriar o “boneco” Paião e, até, de se confundir com ele. O filme dirige-se então a essa memória televisiva, aos telespectadores que viveram os anos 80. Seria legítimo até esperar um registo sobre esses ‘nossos’ anos 80, e até sobre a televisão e a cultura pop que então se formava. Em vez disso, é a invenção desse tempo que temos, inevitavelmente mascarado pelos tiques perfeitinhos da televisão. Tudo está no lugar certo: figurinos, interiores, a luz, o som, o timing, os espaços, a reconstrução acústica das discotecas… Cada enquadramento garante essa autenticidade aparente, cuidadosamente mascarada — digamos, talvez com demasiado “pó de arroz”.

É aqui que a ideia de playback assume uma dimensão maior. Pois não está apenas nas canções, está na própria relação do filme com a televisão. Se o cinema procura retirar Carlos Paião do pequeno ecrã, a verdade é que o menoriza artificialmente (e contamina!) com os seus códigos, episódios biográficos, recordações universitárias (Anabela Moreira cumpre, como sempre, no papel da docente inexpressiva), embora tudo demasiado bem iluminado, compostinho. Televisivo. 

Atenção, Sérgio Graciano é um técnico competente, já se sabe, o que lhe permite controlar todos os elementos da mise-en-scène, com o director de fotografia João Ribeiro. Mas é também essa segurança que limita o filme. Teremos de esperar por Memórias de Cárcere (2026) – que se estreará apenas em outubro — e perceber como, aí sim, o cinema devolverá em força a história de Camilo e de Ana Plácido durante o tempo em que estiveram presos na Cadeia da Relação, no Porto, e no período em que o escritor nos deu Amor de Perdição. Ou seja, dir-se-ia que a trajetória do tal cometa acabou mesmo ensombrada por um tal eclipse lunar! Mas, quem sabe, talvez até o próprio Paião gostasse dessa ideia.

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