Portugal participa com duas coproduções: A Professora de Francês, de Ricardo Alves Jr., e Narciso, de Marcelo Martinessi; e com a primeira longa de Mónica Lima, Sentimentos Familiares, na área de indústria do festival. E veremos ainda o novo Albert Serra.
Comecemos pelos portugueses. A secção Horizontes Latinos apresenta A Professora de Francês, do brasileiro Ricardo Alves Jr., protagonizado por Grace Passô, com coprodução portuguesa, participação de João Salaviza e Renée Nader Messora e apoio do ICA, e Narciso, do paraguaio Marcelo Martinessi, igualmente com participação portuguesa na produção e apoio financeiro nacional. A presença portuguesa estende-se ainda a Sentimentos Familiares, primeira longa-metragem de Mónica Lima, atualmente em pós-produção, produzida pela Seara Filmes e selecionada para a iniciativa de indústria do festival dedicada a obras europeias em pós-produção.
Ainda com a Competição Oficial por fechar, o 74.º Festival de San Sebastián, que decorre de 18 a 26 de setembro, começa a desenhar uma edição marcada pelo encontro entre alguns dos nomes maiores do cinema contemporâneo, novas vozes e uma forte aposta na redescoberta do património cinematográfico. Entre os títulos já anunciados para a corrida à Concha de Ouro encontram-se os novos filmes de Nicole Garcia, Pablo Larraín, Mike Leigh, Hans Petter Moland, Benjamín Naishtat e Yeşim Ustaoğlu, a par da estreia na realização da escritora japonesa Maha Harada.

O conjunto permite antecipar uma competição particularmente diversa. Nicole Garcia regressa a San Sebastián com 7:40 ce matin-là, com Marion Cotillard, sobre uma mulher recém-saída da prisão que se instala numa pequena cidade para se aproximar de um jovem mecânico ligado ao seu passado. Mike Leigh, que esteve na competição em 2024 com Hard Truths, apresenta Tender Loving Care, prosseguindo a sua conhecida atenção às relações humanas e às tensões do quotidiano contemporâneo.
Já o chileno Pablo Larraín regressa a San Sebastián para apresentar Mis muertos tristes, numa adaptação de quatro contos de Mariana Enríquez, sobre uma mulher capaz de ver e ouvir os mortos. Merece igualmente atenção Glaxo, de Benjamín Naishtat, uma narrativa situada em 1957 numa pequena cidade argentina com um passado marcado pela culpa e pela possibilidade de vingança. Já Markens Grode, de Hans Petter Moland, adapta o romance de Knut Hamsun, acompanhando um homem que procura construir uma nova vida numa região inóspita do norte da Noruega. Yeşim Ustaoğlu, vencedora da Concha de Ouro em 2008 com Pandora’s Box, regressa à competição com Artakalan, centrado numa poeta que procura libertar-se das estruturas sufocantes da sua vida. Ainda a proposta da estreante japonesa Maha Harada , com Muyou no Hito / In My Father’s Room, sobre uma funcionária de um museu que recebe uma chave que abre o quarto onde o pai, falecido, viveu os últimos dias. Viagem pela memória e a relação de uma filha com um homem que ela talvez nunca tenha verdadeiramente conhecido.

Nuevos Directores e Horizontes Latinos são duas das secções que melhor traduzem a aposta de San Sebastián na descoberta e na diversidade. A primeira reúne 14 primeiras e segundas longas-metragens de realizadores de 13 países, com propostas particularmente curiosas como Bloques erráticos, do chileno Thomas Woodroffe, Lovers Sleep Alone, estreia do iraniano Massih Parsaei, ou The World Before, segunda longa da sul-coreana Yoon Dan-bi. Já Horizontes Latinos volta a concentrar algumas das vozes mais interessantes do cinema latino-americano contemporâneo, entre nomes como Diego Luna, Manuela Martelli, Marcelo Martinessi e Dominga Sotomayor, com títulos como Ceniza en la boca, El deshielo, Narciso e La Perra, a que se juntam propostas como La ilusión de un verano sin fin, primeira incursão no cinema da fotógrafa Alessandra Sanguinetti, bem como o já referido A Professora de Francês, do brasileiro Ricardo Alves Jr.
Prémio a Herzog e retrospetiva a José Giovanni
Uma das apostas mais interessantes da edição será a retrospectiva dedicada a José Giovanni, nome talvez menos conhecido hoje do que os realizadores com quem trabalhou, mas figura incontornável da idade de ouro do cinema criminal francês. San Sebastián apresentará 20 longas-metragens realizadas entre 1960 e 2001, cobrindo praticamente toda a sua obra como realizador e incluindo oito filmes que escreveu para cineastas como Jacques Becker, Jean-Pierre Melville, Jacques Deray, Claude Sautet, Henri Verneuil e Robert Enrico.
A lista é, por si só, uma pequena história do polar francês: Classe tous risques, Le Trou, Le Deuxième Souffle, Le Clan des Siciliens, Dernier domicile connu, La Scoumoune ou Deux hommes dans la ville fazem parte de uma retrospectiva que permite reencontrar também a extraordinária constelação de actores associada a esse cinema — Lino Ventura, Jean-Paul Belmondo, Jean Gabin ou Alain Delon. É, portanto, uma oportunidade não apenas para recuperar filmes, mas para reexaminar uma figura cinematográfica através das suas diferentes dimensões — romancista, argumentista e realizador.

Outro dos grandes acontecimentos da edição será a atribuição do Prémio Donostia a Werner Herzog, durante a gala de abertura. O realizador alemão, cuja carreira de seis décadas compreende cerca de 80 filmes, receberá a distinção máxima honorária do festival, que será acompanhada pela apresentação de Bucking Fastard, com Rooney Mara, Kate Mara, Orlando Bloom e Domhnall Gleeson.
A secção Made in Spain terá ainda um interesse particular para o cinema espanhol contemporâneo. Com mais de 20 títulos, inclui três estreias mundiais, duas estreias espanholas e dez primeiras obras, além dos novos filmes de Pedro Almodóvar, Isabel Coixet, Víctor García León e Julia de Paz.
O destaque inevitável será Seize moments de ma vie, de Albert Serra, que abre a secção depois da sua passagem por Locarno. O filme é uma homenagem à actriz e cantora alemã Ingrid Caven, filmada num concerto no Théâtre des Bouffes du Nord, em Paris. Serra regressa assim a San Sebastián depois da Concha de Ouro e do Goya conquistados por Tardes de soledad.
O programa inclui ainda Amarga Navidad, de Pedro Almodóvar, e Tre ciotole, de Isabel Coixet. E, numa espécie de diálogo entre memória cinematográfica e arquivo pessoal, 200 vidas, Paco Rabal, de Vanesa Benítez, encerrará a secção: através de filmes em Super8 e cassetes com a voz do actor, o documentário recupera viagens, rodagens e festivais da vida de uma das grandes figuras do cinema espanhol.

Assim se começa a desenhar uma edição que, antes mesmo de a Competição Oficial estar completa, combina nomes de forte reconhecimento internacional com cineastas em início de percurso e uma atenção muito particular à memória do cinema. San Sebastián volta, deste modo, a afirmar a sua vocação simultaneamente competitiva, de descoberta, patrimonial e cinéfila. E será, como habitualmente, acompanhada no terreno pela nossa cobertura, entre os dias 18 e 26 de setembro.









