Chega esta semana às salas uma verdadeira lição de cinema a suscitar comparações e descobertas. O derradeiro gesto de cinema de Sternberg é igualmente um dos seus maiores.
Antes de mais, a confissão. Descobri A Saga de Anatahan no ciclo dedicado a Josef von Sternberg e a Marlene Dietrich, na Fundação Calouste Gulbenkian, há já não sei quantos anos. Revê-lo agora, na reposição do Ideal (numa cópia e restauro digital novo, mesmo que sem ter podido assistir ao visionamento local), é também regressar a esse momento inaugural da minha cinefilia — e, inevitavelmente, a um reencontro com as palavras de João Bénard da Costa, que o press release da Midas Filmes convoca com inteira pertinência. Mas também uma oportunidade de recordar o entusiasmo, sempre lúcido, do saudoso Mário Jorge Torres, com quem tive o privilégio de acompanhar esse ciclo juntamente com os amigos do meu tio cinéfilo. Há filmes que não se revêem sem esse lastro de memória crítica – Anatahan é um deles.

Estreado em 1953, já fora do sistema de estúdios que consagrara Sternberg, A Saga de Anatahan surge como uma obra de fim de percurso, mas também de uma fascinante radicalização formal. Partindo de um episódio verídico — um grupo de marinheiros japoneses abandonados durante anos numa ilha do Pacífico após um bombardeamento —, Sternberg elabora um misto de registo de sobrevivência que dialoga com esse microcosmos fechado e marcado pelas doentias relações de poder, desejo e violência. E não por exemplo assinaladas pela presença de Keiko, simbolizada como “a única mulher na Terra”, encarada muito mais que uma personagem, mas como elementos central das forças em presença: ou seja, ao mesmo tempo, objecto de desejo, equilíbrio do conflito, e até princípio de desagregação.
No entanto, o que singulariza Anatahan não é o seu argumento, mas a forma como este é desmontado na sua artificialidade extrema. Filmado integralmente em estúdio, este filme de exteriores sem exteriores, assume o décor como construção visível, quase precária, como o teatro kabuki, recusando qualquer tipo de ilusão naturalista. A sua voz, omnipresente, sobrepõe-se aos diálogos em japonês, instaurando esse elemento autoral que comenta, entre voz-off e voz-in, o seu próprio papel de realizador implicado no acto narrativo.
É neste ponto que a leitura de Bénard da Costa permanece decisiva: tudo em Anatahan parece rigoroso, fechado, quase geométrico — e, no entanto, quanto mais o filme se organiza, mais se dissolve. O tempo fragmenta-se nessa sucessão indistinta de dias, até que a própria ideia de acontecimento (de filme?) perde consistência. Cercados numa ilha em que o inimigo exterior nunca de manifesta, mas que acaba por ser substituído pelo “inimigo interior” de cada um e que se sobrepõe ao próprio grupo.
Revisto hoje, Anatahan mantém essa estranheza intacta. Reencontrá-lo em sala é, por isso, menos um exercício de nostalgia do que a possibilidade de medir, uma vez mais, a resistência do filme ao tempo e às novas leituras que sobre ele se acumulam.
“Anatahan está para o cinema como o Ulisses de Joyce para a literatura”, sintetiza JBC, na sua folha. Não deixa de ser curiosa (e atual) esta sua leitura, justamente no momento em que meio mundo vive ‘nolizado’ com a sua Odisseia global. Mas quantas Odisseias de Nolan valerá esta A Saga de Anatahan?










