Mais de uma década depois, os Pulp em versão cinema demonstram que não perderam a vitalidade e reforçam o seu lado proletário.
Quando Jarvis Cocker, no concerto de despedida dos Pulp, em Sheffield, manifestou a intenção de “arrumar pontas soltas”, fica claro que apontava já a agulha para o filme de Florian Habicht. Ou seja, menos mitologia e mais reparação. E é isso mesmo Pulp: Um Filme sobre a Vida, a Morte e Supermercados, uma recusa clara da biografia convencional e a re-inscrição da banda no tecido social da comunidade.
Construído a partir de uma constelação de vozes, dos fãs, vizinhos, familiares, os próprios músicos, o filme oferece esse abandono autoral, legando a história dos Pulp para aqueles que escutaram a banda e a transformaram. É nesse sentido que Sheffield surge como um dispositivo narrativo e afectivo que ganha espessura e garante uma identidade local isenta da nostalgia. Mesmo o sentido de humor, irónico e terno, impede qualquer tentativa de exotização do grupo.
Ficará alguém indiferente ao poder do tema ‘Common People’, com que arranca o filme, com o público rendido a algo que lhes pertence? Essa música parece funcionar como um dispositivo de ‘bem comum’, à falta de outra expressão melhor, pois foi apropriado por uma comunidade que nele se revê e encontra. De certa forma, é em torno desta circulação colectiva, ao mesmo tempo partilhada, situada e vivida, que se subverte a lógica da autoria e da celebridade.
Depois da estreia em Portugal, em outubro de 2014 no Doclisboa, os Pulp regressam às salas com essa particularidade de manterem intacta a energia colectiva que os fãs reconheceram ao longo das décadas. E mesmo quando sabe a pouco a falta de mais temas ao vivo (sejamos claros, a sua totalidade!), a aproximação que se sente ao cidadão comum — aos verdadeiros ‘common people’”’ —, percebe-se que que o filme encontra realmente a sua medida e a enorme potência nesse pequenos detalhes, .
Ao longo do filme, Habicht acompanha todo esse gesto servido por uma montagem fluida, atenta ao detalhe e ao banal. Pelo meio, emerge o espectáculo feito dessa forte relação entre palco e público. Ou seja, mais do que um documentário sobre uma banda, este Filme sobre a Vida, a Morte e Supermercados afirma esse fascinante ‘contrato’, ou ensaio, vitalício de arte pública.









