The Curse e Scared to Death não convenceram num Fantas que arrancou devagar… ainda em ‘modo de greve’.
“Greve? Outra vez?! O ano passado foi a mesma coisa!” O lamento era partilhado por várias dezenas de espetadores, frustrados à porta do Batalha Centro de Cinema, pelo cancelamento do primeiro dia do Fantasporto – Festival Internacional de Cinema do Porto (de 27 de fevereiro a 8 de março, no Porto) após a sessão de abertura na noite anterior. Mesmo que solidários com as reivindicações do Pacote Laboral. Na verdade, algo que – assim quis a coincidência – acontecera há precisamente um ano, quando o festival dedicado ao fantástico e terror, dirigido há 46 anos por Mário Dorminski e Beatriz Pacheco Pereira, foi afetado por uma outra paralisação, forçando o cancelamento da sessão de abertura.

Infelizmente, só nessa altura soubemos, por João Dorminski, diretor executivo do evento, à porta do Batalha, que se confirmava o ‘pré-aviso’ de greve, restando-lhe a possibilidade de acionar o ‘plano B’, ou seja, ‘espalhar os filmes de sábado ao longo da semana’. Ou seja, lá se ia um dia inteiro de programação, restando-nos concentrar as atenções nas sessões de domingo. Felizmente para o profícuo cineasta japonês Kenichi Ugana, a maldição da greve permitia recuperar o seu filme, cujo título The Curse, assumindo, desde logo, uma dupla ironia tão adequada àquela sessão no Batalha.
“Ler mensagens ou abrir fotos nas redes sociais pode ser muito perigoso”, podia ler-se na sinopse do filme de Ugana. Só que esta aliciante premissa, afinal de contas promete mais do que devolve. Por isso perguntamos: será The Curse um filme em modo de ‘piloto automático’?
É que, apesar do lado ‘escorreito’ dessa variante temática e, sobretudo, do género do terror sobrenatural, percebe-se também uma certa ligeireza que desbarata algumas das ideias formuladas à partida, como essa ligação com as redes sociais e até um início de filme em tom macabro. Pensando bem, talvez não seja alheio o lado empreendedor de Kenichi Ugana, ele próprio que assumira no palco do Batalha que fazia ‘três filmes por ano’! Nada mau. Embora, The Curse, exibido na secção Cinema Fantástico, apresente alguma segurança no desencadear da sua ‘curse‘, esta produção entre o Japão e Taiwan acaba por não alinhavar de uma forma tão segura os seus trunfos – ou seja, o tal lado ancestral dos mitos explorados pelas redes sociais. Digamos que mesmo com valores de produção e mise en scène seguros, revelam-se insuficientes para que esta The Curse nos convença. Ou até, perdoe-se a licença, permitir-nos ficarmos scared to death!…

Se foi irresistível o trocadilho com Scared to Death, também ele programado para a secção Cinema Fantástico, a verdade é que o filme de Paul Boyd, um realizador com experiência inegável na criação de clips musicais (na linha de INXS, Kylie Minogue ou Shania Twain), deixou-nos mais com medo desse cinema de horror pueril, temperado com humor infantil. Até porque Boyd se lança, e bem, no território no género, fazendo o filme navegar numa comedy-horror. E fá-lo até com a piscadela de olho ao universo do cinema, já que aproveita a trama para recriar de uma cena com um médium para um filme de terror. Digamos que tal premissa é perfeitamente aceitável. Se bem logo se perceba que Boyd opta por seguir uma cartilha segura e cedo nos querer impingir um conjunto de clichés repisados, e, lamentavelmente, desprovidos de humor. Ou até de terror. O que significa que, depois da greve, ficámos apenas com os… serviços mínimos.
Valeu-nos Post Truth, a proposta fascinante do turco Alkan Avcioglu, ao recriar um excelente documentário realizado a partir de IA. Por esta é que não esperávamos. Afinal de contas, o mundo Fantas salvou-se com uma ‘pós verdade’. Por isso mesmo lhe dedicamos um texto a parte.









