Pedro Cabeleira no seu melhor, com um filme vigoroso que apela a um público maior. Vamos descobri-lo?
Que filme fazer quando regressas a casa? Filma o desencanto, a raiva do que mudou, mesmo que disfarçada de nostalgia. Entroncamento. O título não poderia ser melhor. Cabeleira ia à procura das suas raízes, o mundo rural dos avós, mas acaba por encontrar uma cidadezinha, perdida num cenário urbano contaminado. Pensemos em Michael Mann, se calhar mais do que Scorsese, ou até Hawks (porque não?), na linha de Rio Bravo ou Rio Lobo – e estaremos bem servidos. E onde não falta o inevitável comboio e a torre de água com o título do filme. Perfeito.
Pedro Cabeleira concretiza o projeto de uma década (ler entrevista), voltando a casa (como Robert Mitchum em Idílio Selvagem) para uma reflexão sobre a transformação social, ambientada nesse espaço de western contemporâneo. Pleno de confrontos, bravata e pelo na venta, este é um microcosmo de caminhos cruzados apoiados por uma narrativa de desencanto e resistência (urdida em parceria por Pedro Cabeleira e Diogo Figueira).
A força do realismo tuga
Dentro do género, Cabeleira desenha a traço grosso um naipe de personagens malditas (servidas com garra por Rafael Morais, Henrique Barbosa, Tiago Costa e Sérgio Coragem) não ficando mal na fotografia (sempre competente de Leonor Teles). Eles são cowboys urbanos pertencentes a um tempo e espaço anacrónicos. Mas é também a raiva pela mudança política, esse vírus populista que mascara a ignorância por ideias a preto e branco (ou, se calhar, só a branco!). Ainda assim, alguma vitalidade ficará guardado para elas – Cleo Diára e Ana Vilaça – capazes de se assumir como figuras de força nesta narrativa patriarcal.
Digamos que isto é (quase) matéria de clássicos do cinema – pois o que falta? Estão lá os ‘pequenos criminosos’, os ‘bons rapazes’, os traficantes de droga. Mas como se mostram esses gangsters agora? Claro, com o perfil gangsta, e algum rap. Por sinal, um meio em que Cabeleira demonstrou estar à vontade. Veja-se a sua curta, By Flávio (2022) (aqui crítica e entrevista), uma pequena pérola num fascinante tête-à-tête entre as personagens de Ana Vilaça e Tiago Costa, qual jogo de sedução (ou dominação) à procura da melhor selfie. De certa forma, há algo que regressa, como uma mulher empoderada de caçadeira da mão?
Mesmo em estilo low cost, Entroncamento serve-nos um dos mais poderosos caso de realismo tuga, muito dentro do género – droga, armas, linguagem de fogo – e até derrapagens com um Opel Corsa – não dissemos que era um filme low cost?
É Pedro Cabeleira, claramente no seu melhor, a entregar-nos nos braços um filme de grande impacto, enorme maturidade que abre a porta a um cinema sem receio se mostrar um público bem mais vasto e que supera a tradição do cinema indie tuga.

