O documentário sobre a realizadora favorita de Hitler chegou a Portugal. E agora?
Em Riefenstahl, o cineasta, encenador e psicólogo alemão, Andres Veiel coloca-nos diante o dilema ou a fronteira ténue que separa a arte da política. O foco ilumina a obra da diva do regime nazi, Leni Riefenstahl. E ensaia a questão: deveremos manter uma certa ingenuidade e continuar a abraçar o seu arrojo técnico, a maestria na filmagem, o rigor da montagem e confundir tudo isso como um genuíno talento artístico? Ou, então, como destaca o filme, baseando-se na análise de milhares de documentos do seu imenso acervo, reconhecer que Riefenstahl terá sido uma mestre exímia na manipulação visual? Veiel demonstra como a cineasta cuidou meticulosamente da sua imagem, mesmo na última parte da sua vida, não se coibindo de dirigir as câmaras durante as suas próprias entrevistas, garantindo que as rugas fossem disfarçadas com luzes e um ângulo de câmara favorecido.

Sejamos claros, ainda hoje, é inegável o poder das imagens dos comícios nazis, em Nuremberga, tal como é captado no filme O Triunfo da Vontade (1935), um claríssimo objeto de propaganda política, ou em Olympia, nas suas duas partes (Festival das Nações e Festival da Beleza), ilustrando os Jogos Olímpicos de Berlim, em 1936, embora só com estreia em 1938 no aniversário do Führer. Apesar do filme ter sido totalmente financiado pelo III Reich, num claro apelo à fisicalidade ariana, e de ter motivado milhões de alemães a seguir a causa no nacional-socialismo, a verdade é que as olimpíadas acabaram por ser dominadas pelos atletas americanos. Um deles, em particular, o velocista negro Jesse Owens, captou a atenção de Riefenstahl, que o mostrou como um verdadeiro deus negro. Repetiria a experiência, muito mais tarde, ao captar com a sua objetiva a visão fotográfica e apolínea, do povo Nuba, no Sudão.
Até sua morte em 2003, aos 101 anos, Leni sempre soube cuidar da imagem e da respetiva montagem. Muito mais tarde haveria até de dirigir as câmaras de televisão que a captavam, exigindo que as rugas fossem suavizadas e captadas por uma luz favorável. Tudo isso é revelado neste minucioso arquivo. Uma investigação que tomou por base o conteúdo de 700 caixas do arquivo pessoal de Riefenstahl, permitindo a Vieil e à sua produtora Sandra Maischberger revelarem até notas, cartas e telefonemas privados com graduados nazis e próximos de Hitler. Como Albert Speer, o arquiteto favorito de Hitler, ou Goebbels, o ministro da propaganda, de quem Leni declara ter vivido algumas aventuras e até que este a tentara violar. No entanto, um dos indícios mais embaraçoso dá conta de Leni testemunhar um massacre de dezenas de judeus, na Polónia, onde fora colocada como correspondente de guerra. Havendo fontes que afirmam que terá dito algo como ‘tirem daí os judeus’ (do enquadramento dela), acabando por o problema ser resolvido da pior maneira, com tiros, quando alguns tentaram fugir.

Não será difícil de prever que Riefenstahl também nos segreda a possibilidade de traçar uma relação com a realidade de hoje. E um episódio curioso ocorre durante um talk show televisivo, nos anos 70, onde muitos espectadores acabam por se solidarizar com a justificação mitigada que faz do nacional-socialismo, ao afirmar ter sido apenas uma inevitável figurante; ou quando Veiel sugere uma reflexão sobre a persistência dessas ideias e os riscos de se ignorar a História.
Riefenstahl é um filme denso com o tratamento de tanta informação. E se é verdade que, ao longo das duas horas, nem sempre consegue manter a coesão e o interesse ao mesmo nível, uma coisa é certa, só por ingenuidade ficamos indiferentes a esta reconfiguração do estatuto, do nome e do trabalho de Leni Riefenstahl.









