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Entrevista. Ivo Ferreira sobre Projecto Global: “Engane-se quem achar que o filme apela à violência – é absolutamente pacifista”

Dez anos depois de As Cartas da Guerra, Ivo Ferreira aborda o contexto de desilusão pós-revolucionária, centrando-se no interior a luta armada das FP 25 de Abril. Um thriller político corajoso que tem de ser visto e debatido. Projecto Global chega esta semana às salas.

“É um filme de ressaca”, confirma-nos Ivo Ferreira, a certa altura na esplanada da Cinemateca Portuguesa, durante a nossa conversa, antecedendo a apresentação especial que ali iria decorrer. A celebração, essa, começou em janeiro passado, quando Projecto Global foi revelado, em estreia mundial, no Festival de Roterdão, rendendo o público internacional a este thriller político sobre a atividade das FP 25 e a reação ao que se supunha ser um retrocesso nos ideais da Revolução. É a esse espaço temporal muito particular que regressamos, testemunhando o interior daquela célula ativista e as respetivas ações de luta armada que incluíram assaltos a bancos e mesmo assassinatos. Entre o pequeno exército de 148 atores, merece destaque a arrebatadora entrega de Jani Zhao, companheira do realizador, no papel da operacional Rosa, a confirmar que é uma das atrizes portuguesas mais interessantes do momento. E não só por esta intensa prestação, mas também pela recente interpretação em O Barqueiro, de Simão Cayatte. 

Jani Zhao dá corpo à ação, em Projecto Global.

Projecto Global é o filme destinado a comemorar (e refletir!) Abril. Chega às salas no dia 23, com distribuição da NOS, produzido pelo O Som e a Fúria e argumento escrito em parceria com Hélder Beja, ex-jornalista e atual diretor do DocLisboa e Bruno Vieira Amaral. Nesse mesmo dia, o historiador Francisco Bairrão Ruivo lança um livro científico, As FP 25 e o Pós-Revolução – “Normalização e Violência Política (editado pela Tinta da China) inspirado no tema do filme. 

Entretanto, o cineasta de 50 anos tem já alinhado, não um mas, dois projectos, de alguma maneira, interligados com a vivência turbulenta em Portugal em meados da década de 70. Mágicos do Império, já em desenvolvimento, relatando uma família de saltimbancos e ilusionistas, vindos de Moçambique, entre o final de 1973 e 74 e ainda Comissão de Verdade, a partir da investigação forense de Maria José Oliveira e das caixas de recuperou na Torre do Tombo, com documentação sobre a tortura da PIDE em Moçambique.

Paulo Portugal

Em que medida poderemos dizer que O Projecto Global se refere não só ao nosso passado, como também nos faz reviver o nosso inacreditável presente? 

É verdade que estreamos o filme numa altura onde a sociedade está quase tão polarizada como naquela altura. O filme foi desenvolvido como uma história extemporânea, em que o que interessava realmente eram as personagens, o que faziam, como se envolviam numa vida destas. Entretanto, ao mesmo tempo que íamos desenvolvendo o Projeto, houve diversas mudanças no mundo, e ele foi crescendo em tensão direta com o presente. E chega a este lindo mundo, com Trump, Orbán… E, claro, com o Chega! E uma sociedade tão polarizada como estava na época em que se passa a ação. Sim, este filme acabou por ser feito em tensão permanente com o presente, embora sem ser oportunista.

Qual foi a génese para o Projeto Global

O filme é lançado pela primeira vez com o mesmo nome e o mesmo plot, em dezembro de 2017, no Festival Internacional de Macau. Quando se começou a falar do filme, começaram a sair uns artigos. Curiosamente, o filme fez com que se fosse falando, aqui e ali, sobre as FP 25. Houve revistas que escreveram que eu tinha roubado 400 mil euros e, até, que fazia parte da organização! (risos)… Seja como for, este é, para mim, um projeto absolutamente primordial. E que me diz muito. Até porque contactei com algumas cenas que se passaram, coisas de prisão. Isto na altura da Operação Órion, no Teatro da Comuna.

Ivo Ferreira, foto de rodagem Projecto Global (Foto: ©JoanaLinda)

No Teatro da Comuna?

Sim, nessa altura, estamos a falar de 1983-84, eu vivia praticamente na Comuna. Os meus pais eram atores do Bando (Cândido Ferreira e Carmen Marques). Eu saia da escola e ia para lá e até a minha morada da escola era a da Comuna. Nessa altura, os meus pais disseram-me que ia acontecer qualquer coisa. Diziam-me eles: “Como sabes, nós também estamos metidos em coisas políticas, mas não temos nada a ver com a luta armada.” 

Ou seja, viveste isto. Que idade tinhas na altura? 

Era miúdo. Nasci em 1975 e as prisões começaram por volta de 1984. Na altura, isto foi um bocadinho marcante. Eu ia visitar o pessoal à prisão e sabia destas coisas, um bocadinho misteriosas. Lembro-me da Natércia (Campos Pires, condenada por crimes de associação terrorista, no caso FP 25 de Abril) ser presa – mesmo sem acusação formal. Ainda teve três anos presa. Vivi sempre com essa questão e esse peso, mas também o mistério. A partir daí, esse tema não me largou mais. O meu pai dizia-me: “uma coisa é haver luta armada num estado de repressor; mas em democracia, se quiserem candidatem-se com os outros sacanas, não é?” Aliás, uma frase que agora diz a personagem do Ivo Canelas no filme. Foi algo que me ficou sempre atrás da orelha, como, aliás, outras coisas ao longo do tempo. 

De certa forma, decidiste fazer um filme de ação. E esta a ideia da luta armada é empolgante, pois envolve ação.

Sim, mas o problema é que também envolve vítimas e traumas. Só muito mais tarde, já depois das Cartas da Guerra(2016) é que percebi que estava preparado para isto. Na altura, portanto, há nove anos, já havia um gajo que se falava, um tal de Ventura, mas era uma coisa que estava muito longe. Mas nessa altura, as FP25 não era uma coisa sexy, não havia livros, não havia muita informação… Apesar de tudo, este filme é totalmente pacifista. Engane-se quem pensar que isto podia ser uma apologia da luta armada; engane-se quem achar que o filme apela à violência, porque é um filme absolutamente pacifista.

E que relação achas então que este filme tem com As Cartas da Guerra? Eu arriscava uma ideia: não será uma espécie de lado B do processo de revolução? Ou seja, entre o anterior da Revolução e um pouco depois… 

É evidente que há aqui uma temática de interesse: as zonas mais cinzentas e pantanosas da história contemporânea portuguesa e também as páginas omissas dos livros de História. Eu gosto da ideia de estar entre o sonho e a utopia, mas confrontando-me com a realidade. Interessa-me este período alargado da história, sempre relacionado com o 25 de Abril, embora sem lhe tocar. 

Rodrigo Tomás, um dos ‘operacionais’ da FP25.

Isso além do teu envolvimento pessoal, familiar, não é?

Sim, é verdade. Mas, por exemplo, o meu pai nunca foi à guerra colonial. Pelo contrário, fugiu para a França. A verdade é que se o nosso país fosse um psicólogo, era logo internado (risos)! Temos uma forma muito má de lidar com os nossos mistérios, os nódulos do passado, os traumas… Interessa-me imenso trabalhar esse trauma. A verdade é que As Cartas da Guerra partiam de um trabalho mais poético, de outras liberdades narrativas. Em última análise, tínhamos as ‘Cartas’ para nos apoiarmos no que estava a acontecer com a personagem, as suas ideias e as suas respostas. 

Como foi esse processo de trabalhar essas diferentes personagens?

Foi um processo muito, muito, complexo. Eles sofreram muito. Fomos para o Alentejo, de olhos vendados, no meio da lama, à procura de uma casa de abrigo. Três dias em personagem, irmos a uma aldeia com roupa de época, armados e tal.

A certa altura, no filme, escuta-se a seguinte frase: “ser jovem e não ser revolucionário é uma contradição genética”. É uma frase que reflete bem esses tempos conturbados. E até o presente?

Sabes de quem é essa frase?

Por acaso, não estou a ver.

Era do Ernesto (Che Guevara). No filme diz-se, “como dizia o Ernesto: ‘ser jovem e não ser revolucionário é uma contradição genética'”. Curiosamente, tenho 50 anos e sou cada vez um maior defensor das instituições, da democracia e do estado de direito e tudo. Ou seja, tornei-me num cego defensor das instituições.

No entanto, é também isso que está a ser ameaçado, não achas?… Algo que é substituído por uma pós-verdade.

Sim, é isso que está a ser ameaçado. Temos de trabalhar as instituições para que não sejam substituídas por praças públicas, por Facebooks e lógicas inquisitórias…

Ivo Ferreira: “Filmo as cenas de ação como filmo as outras – tento entrar na cabeça delas” (Foto: ©JoanaLinda)

Uma das coisas que mais gosto no Projecto Global é essa aproximação ao género, ao cinema de ação. Em certos momentos, fez-me até lembrar o Z, do Costa-Gavras, um clássico do filme político, mas com ação. Não sei se concordas com isso.

Fico muito honrado com a referência, mas a minha proposta era atravessar esse tempo histórico, com essas personagens e essa época. Isto porque as personagens estão sempre em fuga. E, apesar de tudo, eu filmo as cenas de ação como filmo as outras, ou seja, a pensar nas personagens e tentar estar na cabeça delas. É como se o filme andasse sempre a correr atrás dele próprio, como se cada cena tivesse um comboio andamento, em que as personagens entram em cena já com o comboio-andamento e saem também em andamento. Mas este é um filme que está ancorado na ambiguidade moral, no erro e na dúvida. De resto, sou fascinado pelo erro humano. Por isso, para mim, o mais importante era que a dúvida estivesse sempre presente. E quando digo a dúvida, pode ser também a dúvida da câmara. Como se essa dificuldade fosse também a dificuldade das personagens. Era quase como se a câmara pudesse acelerar o tempo.

Imagino que isso implicasse uma boa dose de improvisação…

Há um enorme grande trabalho anterior com os atores. Eles foram vendados, atirados para o meio do campo, para a lama, passaram dias em personagem. Também tiveram palestras com o historiador (Francisco Bairrão Ruivo)… A forma do filme é construída com a matéria axiológica do filme, com as questões memoráveis e com as dúvidas e tudo. Digamos que me sinto bem com as opções que tomei. 

E os diálogos estavam já todos escritos?

Os diálogos estão completamente escritos. E foram reescritos nos ensaios. Não há improvisação. E filma-se tudo em sequência. Podem ser 10 minutos cada take. Tudo isso acabou por funcionar. E, de certa forma, criou até a instabilidade daquela época, tal como a instabilidade das personagens. 

A reconstituição histórica do filme parece-me bem conseguida. Recorreste a vários veículos, guarda-roupa. O que é foi para ti essencial em termos de produção?

Evidentemente que o Projecto Global é um projeto de megalómano, muito assustador. O facto de estarmos a trabalhar sobre questões lamacentas, terrenos pantanosos, ambivalências morais, tudo o resto tinha que ser absolutamente, categoricamente impecável. Em termos de produção, de constituição de época, etc. E houve uma enorme, enorme, enorme discussão. Por exemplo, tens largos que foram todos produzidos.

O assalto ao banco, por exemplo…

Sim, não podes explodir um banco, não é? Tens de o construir em estúdio.

E qual foi o desafio maior que superaram?

A ideia era dificultar a vida, até para sentirmos que nunca nos podíamos aburguesar. Não podíamos perder a essência do filme. Portanto, um dos grandes desafios foi a contenção, porque como diz o outro, o cheiro da pólvora também dá uma certa tensão. Para além disso, há o desafio e o grande esforço de manter tudo sem recurso a efeitos especiais. Ou seja, quando há um disparo, dispara-se mesmo, ainda que sem projétil. E quando está um buraco na parede é porque alguém disparou um tiro. Para além disso, tínhamos a vantagem e desvantagem, que era só fazermos um take!

Imagino com muitos ensaios…

Isso e uma grande concentração do departamento. Para este filme era muito importante haver toda essa tensão. Há uma energia do filme que vem daí. Ou seja, das dúvidas, do risco, mas também da fragilidade, do envolvimento da ação, dos movimentos de câmara e a forma como filmávamos. 

Temos de falar deste elenco que acho incrível. E sobretudo na Jani que é um verdadeiro portento. E porque também estou a falar dos dois filmes (O Barqueiro Projecto Global). Como foi o trabalho com ela? E com o vosso filho (Lee)? Essa cumplicidade familiar facilita ou dificulta?

Pois, durante o casting eu dizia à Jani: “é só para saberes, se tu falhares, o filme falha e eu falho também”. E ela dizia-me: “Ok, mas se tu falhares, eu também falho e o filme falha.” Portanto, nesse aspecto estávamos de igual para igual. Agora o trabalho dela foi fascinante. Tal como o nosso filho, mas ele já está habituado. Claro que tivemos muita preparação e tudo era discutido, às vezes à noite. Às vezes já no hotel. Até porque eu não conseguia adormecer antes de ter uma porta de entrada para a cena do dia seguinte. O facto de estarmos juntos não alterou muito. Íamos falando muito e discutindo as cenas. Claro que foi um privilégio trabalhar com a Jani. Ela tem uma enorme entrega, como aliás os restantes 148 atores! Claro que quando me sentia tranquilo, colocava alguma pedra na engrenagem para destabilizar, pois acho que é com essa energia que o filme tinha de ser feito. Foi uma grande aposta, foi tudo no vermelho, porque tens a mulher, o filho e tudo. Se der merda, vai tudo à vida (risos). 

Fala-me um bocadinho dessa experiência no Alentejo. Parece-me quase uma espécie de residência… É uma residência artística, claro.

Foi mesmo uma residência artística. Lá no Alentejo, foram lavados, vendados e atirados para uma série de exercícios. Andaram armados durante muito tempo – com bisnagas, claro! Mas para se habituarem, para estarem com elas no carro. Foram-se criando estas camadas e identificando a energia das personagens. Tínhamos muitas discussões políticas, por vezes adaptadas às próprias personagens para perceber o tipo de motivação ou energia pela forma como defendiam certa ideia. 

Uma nota só sobre a banda sonora, ou seja, aquilo que ouvimos no filme, aquilo que as próprias personagens ouvem, esse lado das canções de intervenção da altura. Muito justas, diria eu.

O processo foi bastante interessante porque, embora haja uma música do compositor luxemburguês, todo o trabalho foi desenvolvido com base numa espécie de uma playlist de música de intervenção. Foi essa a base que a Eva Aguilar pegou para trabalhar esta banda sonora. Foi um trabalho muito, muito especial. Gravado aos pedaços.

E como foi a montagem do Sandro Aguilar?

Sim, já somos companheiros há algum tempo. É também o produtor do Som e a Fúria. Como já há muito tempo que trabalhamos juntos, nem sei como poderei trabalhar com outro montador. Conhecemo-nos muito bem um ao outro. Temos um grande respeito um pelo outro. E esse trabalho também foi fascinante, muito longo. 

Foto de rodagem: (©JoanaLinda)

Olha, já para terminar, comenta aquela frase do filme quando alguém diz que “ser jovem e não ser revolucionário, é uma contradição genética.”

Este é um filme sobre a juventude. É natural que uma série de malta se politizou quando tinha 15 anos no 25 de Abril. Estavam todos cheios de vontade e energia, mas não há qualquer saudosismo da violência. Não há dúvida que é nesta altura dos 20 anos que há uma energia muito específica das pessoas. O Maio de 68 foi feito assim, as coisas foram feitas assim. Acho que este é um filme muito de pulsão de juventude. 

Mas há também aqui a uma certa dose de frustração com o caminho que estava a levar a Revolução de Abril, não?…

Sim, de Abril, do PREC, da revolução interrompida. É uma ressaca, não é? Só que há aqui uma grande questão: na democracia tudo o que é discussão e mesmo o conflito não tem nada a ver com o ódio. Para mim, a discussão e o conflito servem para aprendermos a viver uns com os outros e nos respeitarmos uns aos outros.

 

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