Na estreia da nova secção programada em parceria com a Cinemateca Portuguesa, o MOTELX propõe uma viagem por cinematografias da Europa de Leste onde o fantástico, o macabro e o sobrenatural encontraram contornam a censura para transformar a realidade política.
Há uma história do cinema de terror europeu que permanece por contar. É esse lado menos visível que o MOTELX explora em “Lost in Europe: O Terror por Detrás da Cortina de Ferro”, a nova secção realizada em parceria com a Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema. O programa prolonga, à escala europeia, o trabalho de arqueologia cinematográfica que à semelhança do que o Motel X tem feito em “Quarto Perdido”, dedicado ao resgate de filmes portugueses esquecidos.
E que formas pode então assumir o terror em contextos políticos e culturais tão específicos? A pergunta é sugestiva e o recorte incide nos filmes produzidos nos países da chamada “Cortina de Ferro”, expressão popularizada por Winston Churchill para designar as nações sob influência soviética durante a Guerra Fria. Mais do que procurar uma estética comum, o programa evidencia precisamente a diversidade de respostas encontradas por cineastas que trabalhavam sob fortes restrições ideológicas.
O fantástico funcionou, nesse contexto, como uma espécie de território de desvio. Folclore, literatura, lendas populares e narrativas góticas permitiram introduzir no cinema aquilo que dificilmente poderia ser dito de forma directa. O resultado, segundo o próprio MOTELX, é um conjunto de filmes marcado por atmosferas oníricas e inquietantes, simbolismo político subtil e uma estética profundamente enraizada nas tradições culturais da Europa de Leste.

Entre os títulos recuperados está Ferat Vampire (1981), de Juraj Herz, uma das figuras da Nova Vaga Checa. O seu vampiro não vive num castelo, mas num automóvel desportivo: o Ferat pode ser uma máquina biológica alimentada por sangue humano. A premissa fantástica serve uma sátira da sociedade socialista checoslovaca e da relação entre consumo, privilégio e desejo. A própria história material do filme é atravessada pela censura, que destruiu parte das filmagens originais.
Da Jugoslávia chegam dois objectos de natureza muito diferente. Em The Rat Saviour (1976), Krsto Papić transforma uma sociedade secreta de ratos capazes de assumir forma humana numa alegoria política sobre a ditadura, antecipando também tensões étnicas e sociais. Já Strangler vs. Strangler (1985), de Slobodan Šijan, mistura serial killer, rock, telepatia, sátira social e humor negro, fazendo de Belgrado uma personagem tão importante quanto o próprio assassino.
O programa alarga ainda a ideia de “terror” para territórios onde o maravilhoso infantil e o folclore se tornam profundamente perturbadores. The Singing, Ringing Tree (1957), produzido pela DEFA na RDA, adapta os Irmãos Grimm através de cores psicadélicas, um príncipe transformado em urso, uma princesa de cabelos verdes e um anão malévolo. Werewolf (1968), da Estónia soviética, recupera uma acusação de licantropia para falar de superstição, preconceito e intolerância numa comunidade rural. Realizado por Leida Laius, é o único filme do ciclo escrito e realizado por uma mulher.
O programa inclui ainda Possession (1981), de Andrzej Żuławski, produção franco-alemã ocidental que desloca a questão da Cortina de Ferro para uma Berlim dividida. Aqui, o terror nasce do colapso de uma relação e transforma o Muro numa poderosa metáfora de separação e alienação. A sua inclusão permite perceber que a geografia política do programa não é necessariamente uma fronteira rígida: é também um campo de circulação de imaginários, traumas e formas cinematográficas.
Em ano de celebração dos 20 anos do MOTELX, “Lost in Europe” acrescenta assim uma dimensão particularmente importante ao festival: não apenas mostrar filmes raros, mas interrogar os próprios mapas através dos quais a história do cinema de terror foi construída.
AGENDA – LOST IN EUROPE
Todas as sessões na Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema.
3 SET | 19h30 | Sala M. Félix Ribeiro
The Singing, Ringing Tree — Francesco Stefani
RDA, 1957, 74’
4 SET | 21h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Werewolf — Leida Laius
URSS, 1968, 71’
7 SET | 19h30 | Sala Luís de Pina
The Rat Saviour — Krsto Papić
Jugoslávia, 1976, 80’
8 SET | 21h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Ferat Vampire — Juraj Herz
Checoslováquia, 1981, 90’
10 SET | 21h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Possession — Andrzej Żuławski
França/RFA, 1981, 124’
11 SET | 19h30 | Sala Luís de Pina
Strangler vs. Strangler — Slobodan Šijan
Jugoslávia, 1985, 96’









