Depois da passagem apoteótica em Veneza e em, NAZA transformou-se num dos filmes mais comentados do ano. O documentário de Yuval Abraham e Rachel Szor estreia em Portugal a 1 de Outubro, distribuído pela Nitrato Filmes.
Depois de receber o Prémio Especial do Júri na última edição do Festival de Veneza e de provocar uma forte reacção na 74ª edição de San Sebastián, NAZA chega finalmente às salas portuguesas. A estreia está marcada para 1 de Outubro, pela Nitrato Filmes; os realizadores já anunciaram também que o filme deverá ser disponibilizado gratuitamente no YouTube em Novembro.
Mas, antes, um aviso à navegação: este documentário, que radiografa as técnicas utilizadas pelo exército israelita na guerra em Gaza, é bem mais do que um filme. É, ao mesmo tempo, uma denúncia e um testemunho de diversos operacionais israelitas sobre as técnicas utilizadas nas operações contra Gaza. Por isso mesmo, é urgente vê-lo em sala, com companhia, e suscitar o debate.
NAZA corresponde ao acrónimo utilizado para designar os “danos colaterais”: as vítimas civis previstas em cada ataque, introduzidas no cálculo a partir de um toque no ecrã do computador, como se de um dado estatístico, frio e limpo, se tratasse. Uma operação asséptica no ecrã e uma selvajaria de morte no terreno.
Eles são jovens, muitos deles na casa dos vinte anos, investidos na banalidade de cumprir ordens e executar missões. Mas é importante chegar perto dessas descrições para alcançar a dimensão real do que está verdadeiramente em causa e das responsabilidades que são colocadas em jogo.

E “jogo” é mesmo uma palavra acertada, pois essa dimensão não é, de todo, excluída. Um dos testemunhos explica: “Gostava de cumprir a minha missão e depois passava à seguinte.” A linguagem é a mesma que encontramos nos jogos de combate e estratégia: missões, objectivos, variáveis, decisão.
Ficamos também a saber que o programa Lavender é um sistema de inteligência artificial utilizado para identificar potenciais alvos. A ferramenta recolhia dados das redes de comunicação e procurava padrões semelhantes noutras redes, estabelecendo ligações entre diferentes pessoas e telefones. Os dados incluíam também os telefones de familiares e amigos. O próprio Festival de San Sebastián descreve NAZA como uma investigação aos sistemas por detrás da morte calculada e massiva de civis palestinianos em Gaza.
Ao mesmo tempo, a cidade era mapeada edifício por edifício e andar por andar, permitindo calcular, para cada operação, o número previsível de sombras, ou vítimas civis. Segundo os testemunhos incluídos no filme, Lavender apresentava uma taxa de erro de 15%.
Mas a tecnologia não servia apenas para localizar. Permitia também gravar conversas e aceder às câmaras e fotografias dos telefones. Um dos agentes explica que atacar as pessoas nas suas próprias casas era mais fácil. A localização recorrente de um telefone durante a noite podia revelar onde o seu proprietário dormia. “O objectivo não era a qualidade, mas a quantidade.”
É então que NAZA chega a um dos seus momentos mais difíceis. “E o que se ouvia nas gravações?”, pergunta Abraham. “Conversas com as mulheres, alguma oração, o choro de um bebé…”, responde um dos militares. Essas gravações serviam para confirmar a presença de um alvo numa determinada casa. Mas também podiam falhar.
Um dos entrevistados chega a confessar que “bombardear os edifícios era muito divertido”. Abraham pergunta-lhe se nunca pensava nos civis que estavam dentro dos edifícios. A resposta é seca: “Zero.”
Os realizadores filmam estes homens durante a noite, em terraços de Telavive. Entre os testemunhos, os planos aéreos da cidade mostram edifícios que parecem reproduzir, agora em escala real, aquilo que os militares viam nos ecrãs antes de atacar. O dispositivo visual é particularmente eficaz: os desenhos e esquemas feitos pelos entrevistados para explicar a selecção dos alvos parecem transformar a cidade real num mapa de jogo.
Quem já esteve diante de um videojogo de combate ou estratégia reconhece essa perigosa proximidade: alvos, informação, variáveis, cálculo, decisão. Só que aqui o índice estatístico, aritmético e aparentemente limpo esconde uma brutalidade concreta. São bairros inteiros que desaparecem — e com eles as centenas de vítimas que o sistema já havia integrado como “danos colaterais”. O filme descreve operações em que a morte de centenas de civis podia ser incorporada no cálculo para atingir um único elemento considerado de alto nível.

“Eu sou um técnico, não me é permitido ter uma posição moral” é uma ideia que atravessa os 80 minutos do documentário. Os militares falam sem revelar a identidade, com o rosto e a voz ocultados. É precisamente essa separação entre a decisão técnica e a consequência humana que NAZA coloca no centro do filme.
Há ainda um dado temporal que torna tudo mais inquietante: as entrevistas foram realizadas em 2023. Este não é, portanto, um retrato imediato daquilo que está a acontecer hoje, mas o testemunho de uma máquina que já estava montada e em funcionamento. O que terá passado entretanto é uma das perguntas inevitáveis que o filme deixa no espectador.
A última parte de NAZA abandona a dimensão estritamente militar para abordar aquilo que os entrevistados descrevem como o “Departamento de Bibi”, dedicado à inteligência política e à pressão sobre adversários do governo de Benjamin Netanyahu.
E é aqui que o filme nos permite regressar a Alain Resnais. Não por uma equivalência entre acontecimentos, que seria demasiado fácil e historicamente abusiva, mas pela forma como o cinema pode voltar a um espaço de morte quando a morte ainda não terminou. Noite e Nevoeiro (Nuit et brouillard), realizado em 1955, dez anos depois da libertação dos campos, confrontava a paisagem aparentemente pacificada do presente com as imagens de arquivo do horror que ali acontecera.
Em NAZA, o movimento é quase inverso. Não há ainda o silêncio dos lugares abandonados. Há Telavive à noite, os edifícios vistos do céu, os mapas, os ecrãs, as vozes daqueles que explicam como tudo funcionava. O nevoeiro ainda não passou. E talvez seja essa a razão pela qual o filme é tão difícil de abandonar.
NAZA termina com uma frase que prolonga a sua urgência para além da sala de cinema: “A matança de civis palestinianos em Gaza continua.”
Paulo Portugal









