Chegados ao final da 74.ª edição do Donostia Zinemaldia, a Concha de Ouro foi para Tender Loving Care, de Mike Leigh — o filme que, para mim, foi o melhor desta edição. O júri presidido por Ira Sachs atribuiu-lhe não apenas o principal prémio do festival, mas também o Prémio do Júri para Melhor Argumento, escrito pelo próprio Leigh.
Kate O’Flynn recebeu ainda a Concha de Prata de Melhor Interpretação, ex aequo com Asta Kamma August, pela sua extraordinária prestação em Growth of the Soil, de Hans Petter Moland. O filme norueguês recebeu também o Prémio do Júri para Melhor Fotografia, para Oskar Dahlsbakken.
Mike Leigh, aos 83 anos, regressa com um dos seus melhores filmes, pelo menos desde Segredos e Mentiras, realizado há precisamente 30 anos. Tender Loving Care condensa uma das características mais fortes do seu cinema: a atenção profunda às coisas aparentemente simples da vida. O próprio título diz quase tudo: cuidado, ternura, atenção. Aquilo de que precisamos, sobretudo quando a vida começa a aproximar-se do fim, mas também aquilo que podemos oferecer aos outros.

O filme constrói-se à volta de Rosie, uma assistente social que trabalha com pessoas vulneráveis, e Amy, a amiga que regressa a casa depois de uma separação, interpretada por Kate O’Flynn. Ao lado delas estão os pais de Amy, Marion Bailey e Paul Jesson, personagens de um universo muito Leigh, entre chás, canções, pequenas histórias e uma intimidade que o realizador transforma em matéria cinematográfica.
Mesmo quando nada parece acontecer — as conversas, os pequenos gestos, as mulheres em redor de um copo de vinho branco, a família diante de um chá — há uma atenção permanente ao tempo que as pessoas passam juntas. No fundo, Tender Loving Care é um filme sobre cuidar e sobre aquilo que significa continuar a cuidar quando a vida começa a retirar-nos algumas das pessoas de quem cuidamos.
Se este vier a ser o último filme de Mike Leigh, como se tem especulado, fecha uma carreira extraordinária da melhor maneira: com tender loving care.
A escolha do júri ganha ainda uma curiosa ressonância portuguesa. Ira Sachs, que presidiu ao júri de San Sebastián, não pôde estar presente na sessão de abertura do MotelX, em Lisboa, onde The Man I Love foi exibido ontem numa sessão esgotada do Cinema São Jorge. Enquanto em San Sebastián deliberava sobre os prémios do festival, o seu filme chegava ao público português.
Além de Tender Loving Care, a edição deixou outros filmes que mereciam atenção: a força telúrica de Growth of the Soil, a relação entre memória, arte e família em In My Father’s Room, de Maha Harada, e o muito curioso Les Roches Rouges, de Bruno Dumont, produzido por Joaquim Sapinho, que entrega às crianças o espaço para inventarem o seu próprio mundo.
Mas a Concha de Ouro encontrou o filme certo. PorqueTender Loving Careé exactamente aquilo de que precisamos nesta vida. Nem mais, nem menos.
O júri distinguiu ainda Bian Jing / Border (Hong Kong-EUA-Coreia do Sul), de Ah Biao, com o Prémio Especial do Júri, considerado um filme «ousado tanto na forma cinematográfica como na explicitude sexual, que, através da confiança na sua visão, revela uma nova e importante voz no cinema mundial».
A Concha de Prata para Melhor Realização foi para Amanda Kernell, por Garrat du váimmu / Brace Your Heart(Suécia-Noruega-Dinamarca-Islândia-Bulgária). Javier Cámara recebeu a Concha de Prata para Melhor Interpretação Secundária pelo seu trabalho em 5 minutos más / 5 More Minutes (Espanha).
O júri oficial, responsável pela atribuição dos prémios, foi presidido pelo realizador Ira Sachs e composto pelo realizador e argumentista Genki Kawamura, pela argumentista Catherine Paillé, pela actriz e produtora Alice Braga, pela actriz Patricia López Arnaiz, pelo actor Bill Skarsgård e pelo produtor Mike Goodridge.
Lista completa dos vencedores:
PRÉMIOS DA SELEÇÃO OFICIAL
Concha de Ouro para Melhor Filme: Tender Loving Care, Mike Leigh
Prémio Especial do Júri: Border, Ah Biao
Concha de Prata para Melhor Realização: Brace Your Heart, Amanda Kernell
Concha de Prata para Melhor Interpretação Principal: Tender Loving Care, Kate O’Flynn; Growth of the Soil, Asta Kamma August
Concha de Prata para Melhor Interpretação Secundária: 5 More Minutes, Javier Cámara
Prémio do Júri para Melhor Fotografia: Growth of the Soil, Oskar Dahlsbakken
Prémio do Júri para Melhor Argumento: Tender Loving Care, Mike Leigh
OUTROS PRÉMIOS OFICIAIS
Prémio New Directors: Body of Glass, Naëmi Ada
Menção Especial: The World Before, Yoon Dan-bi
Prémio Horizontes Latinos: The Illusion of an Everlasting Summer, Alessandra Sanguinetti
Menção Especial: Flies, Fernando Eimbcke
Prémio Zabaltegi-Tabakalera: Teenage Sex and Death at Camp Miasma, Jane Schoenbrun
Menção Especial: Sometimes Sadness, Sometimes Rebellion, María Aparicio
Prémio de Melhor Música Original: Milo, Amine Bouhafa
Prémio do Público para Melhor Filme: La Bola Negra, Javier Calvo e Javier Ambrossi
Prémio do Público para Melhor Filme Europeu: NAZA, Yuval Abraham e Rachel Szor









