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IndieLisboa: Astrakan 79, de Catarina Mourão, reflecte sobre as visões de um ideal

Há uma incessante procura de identidade que é inerente ao cinema de Catarina Mourão. Desde logo pela forma como usa a realidade e o arquivo pessoal de família, como o fez com assinalável brilhantismo em A Toca do Lobo, filme de 2015 que foi também a base da sua tese de doutoramento. No fundo, a memória como um palimpsesto.

Astrakan 79 é um dos grandes filmes portugueses na Competição Nacional do IndieLisboa 2023. Curiosamente, com uma ressonância próxima a Cidade Rabat, de Susana Nobre (igualmente na Competição Nacional), também ela empenhada numa busca onde não é alheia a dimensão pessoal. O facto de serem os dois realizados por cineastas portuguesas, estarem ambos no Indie e serem dois ótimos filmes, não é coincidência, é apenas o fruto de um trabalho contínuo e sério de reflexão sobre o cinema. São também filmes que chegaram ao IndieLisboa depois de recentes estreias internacionais: Cidade Rabat, na Berlinale, Astrakan 79, no Visions du Réel, na Suíça.

O filme de Catarina Mourão abre com um belíssimo e sereno plano que nos introduz num apartamento vazio e despido em obras. Seguimos, como um feitiço, a melodia que sai de um oboé tocado por um jovem. É o Mateus. Cuja nuca se fundirá numa mais grisalha. A do Martim, o protagonista da história, o pai do Mateus.

Este até podia ser um filme sobre idealismos perdidos, mas não é. Será talvez mais sobre as diferentes camadas do passado. No caso, as memórias da juventude de Martim, um rapaz que cresceu com as manifs do 25 de Abril e do 1 de Maio, e que acaba por aceitar uma bolsa de estudo em Astrakan, para onde viaja em 1979, por incentivo dos pais, militantes comunistas, de modo a testemunhar o nascimento de uma nova sociedade. Aliás, uma decisão empurrada logo após o atentado bombista que destruiu o carro dos pais. Mesmo com muitas dúvidas e hesitações, próprias de um rapaz prestes a ir em busca de uma quimera aos 15 anos. O tom é confessional e oferecido pelos postais ilustrados, o verdadeiro guião condutor da história.

Catarina Mourão viajou também até à Rússia para documentar esta viagem e encontrar um reccord fílmico entre o passado e o presente. E estabelecer uma ponte muito ténue entre os relatos e uma composição de memória. O tom que vai subindo para algo mais sério, à medida que a narrativa revela a nova vida na Rússia, os novos conhecimentos na residência, a descoberta do romance. E das surpresas que isso trás. Enfim, o turbilhão da vida. No final, num registo quase comovente, oferece o contra-campo do pai, Martim, aos 57 anos, artista que trabalha com barro, com o filho Mateus, músico. “Sabes que tenho muitas ideias de esquerda, mas não sou comunista”, dirá em tom confessional, quase como justificação.

Mas o final feliz é perceber como Catarina Mourão filmou tudo com um cuidado e carinho pela história. Sempre fiel ao documento dos postais que, invariavelmente, Martim escrevia: “Queridos pais e irmão…” Isto à medida em que essa experiência de vida o fazia crescer depressa demais. É no apartamento vazio que essa história aos quadradinhos de postais se refaz numa performance final.

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