O Processo Goldman: anatomia de um julgamento

A grande estreia da semana nas salas de cinema é uma entrega firme aos códigos da intriga de tribunal. Algo singular num país onde não abundam muitos exemplos dignos de nota.

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A vida turbulenta de Pierre Goldman, o francês, revolucionário, guerrilheiro, defendido por intelectuais como Jean-Paul Sartre e Simone Signoret, é daqueles casos que possui os ingredientes necessários para um filme. O resultado é O Processo Goldman, o filme de Cédric Kahn, na grande estreia desta semana. Isto depois de ter sido anunciado em Cannes, na Quinzena dos Realizadores, e de ser apresentado, em antestreia, no recente LEFFEST, na presença do realizador.

O que temos é realmente uma entrega firme aos códigos da intriga de tribunal. Algo singular num país onde não abundam muitos exemplos dignos de nota. Apesar da recentíssima e meritória exceção que é Saint Omer, de Alice Diop, estreado entre nós em maio do ano passado. 

Por certo terá sido decisiva a dimensão quase mitológica de Pierre Goldman, filho de resistentes polacos, guerrilheiro, gangster e figura proeminente entre os intelectuais de esquerda na ressaca de Maio de 68. O cineasta francês apoiou-se precisamente no estatuto desta quase rock star, não só para esmiuçar o enorme apelo deste intelectual, movido pela febril pulsão de viver a revolução, mas talvez até mais para demonstrar como algumas das tensões políticas e raciais de há 50 anos têm hoje eco num ativismo de esquerda diante do crescimento da extrema direita.

Com pouco mais de 20 anos, o jovem Goldman junta-se à guerrilha em Cuba. Contudo, chegará tarde demais, precisamente no dia na morte de Che. De novo em Paris, depois de uma temporada com a guerrilha na Venezuela, dá-se mal com a banalidade de uma vida diletante e criminosa. E será a proximidade com uma série de crimes, em particular a morte de duas farmacêuticas, a 19 de Dezembro de 1969, que o levam à prisão após a denúncia de um tal “X2”. Pierre Goldman acabará julgado e condenado a prisão perpétua, em 1974, embora com ausência de provas e apesar das várias incoerências de testemunhas. Será durante a prisão que Goldman escreve a autobiografia Souvenirs obscurs d’un Juif polonais né em France onde reclama a sua inocência. 

Será então no segundo processo, ocorrido em 1978, que reside a narrativa inspiradora de O Processo Goldman. Mesmo que socorrendo-se de alguma ficção, a espessura do guião assenta na relevância dramática do livro que escreveu na prisão, bem como a evocação da oratória que domina a dramatização na sala do tribunal. Nesse sentido, é imperial Arieh Worthalter, pela forma como absorve a intensidade e convicção de um condenado arrogante que usa a bravata de assumir a sua autodefesa, ou Kahn na forma como usa o espaço sem fazer o espetador sucumbir numa dimensão claustrofóbica. Assim se serve do cinismo e manipulação de Goldman,, que repudia até o seu próprio advogado, Georges Kiejman (bem defendido por Arthur Harari), a quem apelidará de “judeu de salão”. Na barra assumirá com brilhantismo os seus princípios éticos, confessando os roubos, em confronto com o sistema, embora repudiando os homicídios. Sim, este é um julgamento de honra para um homem que viveu no fio da navalha.

Será também o seu brio intelectual a granjear-lhe um movimento de apoio que conta com Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Simone Signoret, Françoise Sagan, Gérard Depardieu ou Yves Montand. Pois fortes são as suas convicções políticas. Mais do que as provas materiais para selar a sua condenação. Até porque é a palavra que domina, num espaço suficientemente politizado. 

É nesse embate que o filme de Cédric solidifica a sua mise en scène. Quase como se tratasse de uma verdadeira tragédia grega. Kudos também pela inteligência como absorve a retórica, num julgamento alimentado por fações antagónicas de ambos os lados, embora sem sucumbir à clausura do espaço. É esse lado de herói (ou mártir) que emerge para recolocar no presente as questões que ficam em cima da mesa, como o racismo, a xenofobia, o antissemitismo, ou a extrema direita que terá sido responsável pelo seu assassinato. Talvez por isso, o filme opte por relegar certos detalhes para o domínio sensorial, deixando ao espetador parte da solução dessa dúvida insanável que afeta aquele presumível culpado. 

Curiosamente, esse foi também um recurso recentemente usado num ouro filme francês, Anatomia de uma Queda, de Justine Triet (por sinal, companheira de Harari, co-autor do guião do filme), vencedor da Palma de Ouro deste ano, em Cannes. Embora, quiçá, talvez Arieh Worthalter, no duplo papel de réu e defensor, nos aproxime mais de um Henry Fonda no clássico Doze Homens em Fúria, de Sidney Lumet. Ainda que seja difícil desligar este filme do legado lendário do affaire Dreyfus, do qual não rejeitará aqui parte da sua utopia.

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