Depois de Cannes, e do IndieLisboa, Clara Vieira irá mostrar em San Sebastián ‘Onde Nascem os Pirilampos‘, a sua primeira curta-metragem, produzida na Escola Superior de Teatro e Cinema (ESTC) – integra a selecção do Nest, a plataforma do festival dedicada aos estudantes de escolas de cinema.
Onde Nascem os Pirilampos passou em Cannes e chega agora ao Nest, a secção dedicada a estudantes de cinema. O próprio enquadramento do Nest é importante: este ano recebeu um recorde de 503 candidaturas provenientes de 232 escolas de 61 países, e o festival apresenta a secção como um espaço de descoberta de novas linguagens e de acompanhamento de cineastas no início do seu percurso.
A passagem por San Sebastián acontece poucos meses depois de Onde Nascem os Pirilampos ter tido a sua estreia mundial no Festival de Cannes, na La Cinef, a secção competitiva dedicada às escolas de cinema. A presença em Cannes foi particularmente significativa para a ESTC, pois tratou-se da quarta representação da escola no festival. O filme foi desenvolvido no âmbito da unidade curricular de Seminário de Produção de Filmes V, com a participação dos alunos da turma finalista de 2025/26.
O filme parte de uma situação aparentemente simples: um grupo de adolescentes reúne-se para acampar e, enquanto dois deles tentam compreender e definir a sua relação amorosa, um enxame de pirilampos conduz o grupo para o interior da floresta. Mas a dimensão fantástica funciona como uma extensão de conflitos muito concretos. Clara Vieira explicou, numa entrevista à RTP, que o interesse pela luz esteve na origem do trabalho: a escola queria explorar a iluminação nocturna e a forma como a luz poderia interferir no percurso emocional das personagens. Os próprios actores contribuíram para a construção da situação narrativa, nomeadamente através de uma história sobre o primeiro beijo de dois deles que acabou incorporada no filme. Os pirilampos, que a realizadora nunca chegou a ver na realidade, pertencem assim a uma espécie de imaginário cinematográfico e infantil que o filme transforma numa presença simultaneamente mágica e material.

Clara Vieira, de 22 anos, é natural do Porto e estudou interpretação na Academia Contemporânea do Espectáculo antes de ingressar na ESTC. Onde Nascem os Pirilampos é a sua primeira curta-metragem de ficção, depois de ter realizado Playground, em 2024. O percurso é ainda muito próximo do contexto escolar, mas a passagem sucessiva por IndieLisboa, Cannes e agora San Sebastián começa a deslocar o trabalho da realizadora para o circuito internacional de festivais.
Entre os filmes seleccionados este ano encontram-se propostas muito diversas, embora várias partilhem com o filme português uma atenção à adolescência, às relações afectivas e às formas de transformação pessoal. Familie, de Jonathan Schaller, produzido na Filmakademie Baden-Württemberg, acompanha Max, de 17 anos, que vive numa residência para jovens com deficiência mental e tenta reconstruir a relação com o pai; Home, de Hiromi Tanoue, segue uma mulher idosa que vive sozinha e estabelece uma relação inesperada com um jovem vietnamita. Já Bingo Night, de Maria Vaughan, coloca uma relação amorosa passada num território de memória e separação, enquanto Gislaine, de Camila Encarnación, parte dos sonhos de uma jovem dominicana confrontada com as exigências da ambição.
Outras obras alargam ainda mais o espectro temático e formal do Nest. A. Will Raus (Über Neutralität), de Zorah Berghammer, mistura ficção e comentário documental em torno de um jovem que se prepara para entrar nas forças armadas; Dihapus dari Peta, de Maarij Reka, regressa às memórias de infância de dois irmãos perante o desaparecimento da sua aldeia para dar lugar à nova capital da Indonésia; e Talion, de Micha Straub, acompanha um casal que testemunha um acidente de caça numa zona remota. A selecção inclui ainda obras sobre violência de género, como Miriam, de Karla Condado Romero, e sobre tradições rurais e passagem à idade adulta, como Zza Szyby Podglądam, Jak Umiera Sarna, Młoda, de Angelika Cygal.









