Carlos Conceição apresentou um projeto sobre a transformação do corpo, a imposição dos padrões de beleza e os respetivos limites – morais, éticos e cinematográficos. “Fiz um filme anarquista!”, confirmou o realizador no final da sessão. Bodyhackers estreia no próximo dia 17.
É muito bem-vinda esta ‘anarquia’ de Carlos Conceição em Bodyhackers. E, claro, a palavra rima com (a total) liberdade, uma palavra bastante cara a Carlos Conceição. Desde logo para nos afirmarmos como seres humanos. Mas também – why not? – para travestir a realidade – seja uma Lisboa, devidamente ‘vitaminada’, aqui e ali, com acentos futuristas. Ou a nossa insatisfação permanente em lidar com uma beleza evanescente ou efémera. Mas com a ajuda de picadas e do bisturi, esse mito permanece no horizonte.
É um pouco disso que trata Bodyhackers, o avanço arrojado (mas conseguido!) de Carlos Conceição numa produção que bem poderia ser americana. O que significa o belo resultado alcançado da Risi Film e Mirabilis, numa co-produção entre Portugal e a Itália.
Em Bodyhackers, Joana Ribeiro surge como a ex-bailarina presa a uma ideia de perfeição que nunca parece poder ser atingida. Aliás, Conceição recordou como a sugestão do diretor de fotografia, Rui Poças, em imaginar uma maquilhagem que evidenciasse um rosto de louça, sublinhando um seu lado meio androide, como se Renée estivesse permanentemente num estado de transe.
Ao aproximar-se de Denver Blake (McCaul Lombardi, lembram-se dele em American Honey, de Andrea Arnold?), um ativista ambiental que denuncia uma indústria cosmética que lucra com as inseguranças e os padrões de beleza, Renée penetra no universo subterrâneo e obscuro da cirurgia plástica, na clínica dirigida pela Dra. Pollard, numa personagem interpretada por Elina Löwensohn (e dela, lembram-se em Simple Men, de Hal Hartley?), onde os médicos prometem concretizar qualquer ideal de beleza. Sim, a porta de entrada para o universo de body horror, noir e sátira social fica aberto. O filme conta ainda com Dinarte de Freitas, Alba Baptista, Ivo Arroja, André Cabral e os ‘manos’ Gil, Salvador e Vicente.
Se é verdade que a influência de Cronenberg será, à partida, evidente, Conceição parece até desejar mais um diálogo com o escultor renascentista Michelangelo, mas também com o pintor irlandês Francis Bacon (1909-1992), por certo, os seus estudos de retratos deformados. Aliás, os esboços do escultor italiano são logo sugeridos nos créditos iniciais, como que a convocar a ideia de uma forma que se revela através da remoção do excesso. Na arte como no filme, a mesma necessidade de procura individual. Na verdade, a transformação do corpo que deixa de ser uma mera aparência para se tornar na procura de uma identidade poderá bem ser um dos elementos libertadores do filme que ensaia uma variante livre do mito da A Bela e o Monstro: entre a atração, o desejo, a transformação – ou a promessa de um corpo melhor. Ou seja, o corpo como um projeto interminável.
A origem do projeto remonta ao confinamento de 2020, e ao descontentamento de Carlos Conceição com a sua própria aparência, como nos confessou ao auditório do S. Jorge. Algo que identificou como resultado das imposições estéticas e da maneira como a imagem contemporânea condiciona a relação que cada um estabelece consigo próprio. É nesse momento que Bodyhackers se torna revela um fascinante interessante objeto. Até pelo efeito realista de algumas imagens de intervenções estéticas filmadas ao vivo e pelo confronto estabelecido com o trabalho sobre o corpo. Um corpo que o filme transforma, simultaneamente, em corpo de personagem, corpo de ator e corpo real. E que convoca a questão mais incómoda: se o corpo é nosso, onde termina a liberdade de o transformar e começa a violência das imagens que nos dizem como ele deve ser?
Bodyhackers é, visualmente, talvez o filme mais forte de Conceição. Mais ainda do que Nação Valente (2022), que recorria ao terror para confrontar o passado colonial e a violência da história portuguesa, ou Serpentário (2019), viagem distópica, confessional e pós-apocalíptica. Já Coelho Mau (2017) revelava uma forte estilização e uma vontade de trabalhar o fantástico como instrumento de perturbação. Agora o género deixa definitivamente de ser apenas uma filiação estética para se tornar numa forma de interrogar a identidade, a violência e a transformação.
Antes de Bodyhackers, vimos ainda trailer de Se eu Quiser Choro, série de Carolina Aguiar para a RTP Play, e por Consolatio, de Pedro M. Afonso, curta-metragem em competição para o Prémio de Melhor Curta-Metragem Portuguesa de Terror do MOTELX, sobre uma enfermeira de cuidados paliativos confrontada com o medo da morte e da solidão, enquanto a mãe luta contra uma doença.









