Donostia está já sob o efeito da 74ª edição do SSIFF. Corações ao alto e esperai o melhor cinema. Mesmo que nem sempre isso aconteça. Por aqui vamos fazer uma cobertura indiscipinada, entre as pérolas e os candidatos à Concha de Ouro. Ou a retrospetiva e a Klassikoa. O primeiro dia foi assim…
O Festival de San Sebastián – de 18 a 26 de setembro – começou com Werner Herzog, num daqueles momentos que rapidamente ultrapassam o próprio cinema: o realizador recebeu o Prémio Donostia e aproveitou a ocasião para reafirmar uma ligação ao País Basco que remonta às filmagens de Aguirre, em 1972. Ao receber o galardão, o cineasta alemão de 84 anos mencionou o bertsolarismo, tradição oral basca em que os bertsolaris improvisam versos cantados, frequentemente a partir de temas ou desafios propostos no momento. Mesmo não falando euskera, Herzog admitiu sentir uma particular ligação àquela prática e à comunidade que a mantém viva.

Na conferência de imprensa, falou precisamente da sua relação com aquilo que acontece para lá do guião. A propósito de Bucking Fastard, resumiu a sua ideia de realização numa frase reveladora: “Uma película estaria condenada ao fracasso se se fizesse uma tradução literal do guião.” Para Herzog, o filme deve permanecer aberto ao acaso, aos actores e àquilo que a realidade introduz durante a rodagem. Uma ideia que ajuda a compreender a génese de Bucking Fastard — ficção, mas não só — e também algumas das suas limitações.
A premissa é irresistível. Kate e Rooney Mara interpretam Jean e Joan Holbrooke, duas irmãs inseparáveis que se vestem de forma idêntica, falam em simultâneo e reproduzem os mesmos movimentos, como se fossem uma só pessoa. As personagens foram parcialmente inspiradas nas gémeas Freda e Greta Chaplin, nascidas em York, na Inglaterra, e que Herzog conheceu nos anos 1980 e cuja personalidade o terá fascinado. Não procura agora reconstruir as suas vidas, mas apenas transportar algumas das suas características para estas duas personagens.
Bucking Fastard, que esteve a concurso em Veneza, é, nesse sentido, uma história sobre o “amor verdadeiro”, mas também sobre a transformação do amor em obsessão, numa procura de si próprio e de um território interior difícil de encontrar. Há aqui uma dimensão claramente herzoguiana: a relação entre natureza, homem e mulher, entre a alma e a imaginação, numa deriva simultaneamente épica e onírica.

Essa dimensão está inscrita logo na abertura. O filme é dedicado a David Lynch: “Gostaria que fosse o primeiro a ver o filme, mas infelizmente já cá não está. Tenho saudades dele.” A dedicatória introduz uma presença ausente e uma associação sugestiva com um território de estranheza, sonho, imaginação e rutura entre o real e aquilo que parece existir para além dele.
As duas mulheres apaixonam-se por um homem, interpretado por Orlando Bloom, que acaba por rejeitá-las. Daí nasce a passagem do amor à rejeição e desta à vingança, conduzindo as irmãs aos tribunais e até à deformação da expressão fucking bastard. E é aqui que o filme começa a perder alguma da força inicial. Ele que arranca com o dispositivo tão usado pelo cinema, numa sala de um tribunal que facilita a evocação e a elipse. Contudo, esse recurso que serve para determinar esse lado obsessivo do amor acaba por abrir uma linha narrativa que acaba por nada resolver. A própria relação entre Orlando Bloom e as duas irmãs — incluindo a tão falada (embora pueril) ménage à trois — que nunca chega a constituir um centro provocador da narrativa. Na conferência, Herzog explicou que não quis dirigir a cena de forma convencional, deixando Bloom encontrar a resposta perante a situação. Para o realizador, há ali “charme e profundidade”. No filme, porém, a situação acaba por ser surpreendentemente insossa.
No movimento seguinte, Bucking Fastard afasta-se progressivamente da construção narrativa inicial e aproxima-se de uma espécie de documento, território em que o acaso, o comportamento das personagens e a própria realidade ganham espaço. É aí que Herzog parece reencontrar maior liberdade. Ou seja, quando se liberta da ficção e se aproxima do documento.
A própria ideia da caverna (e que evoca o seu próprio cinema) conduz o filme para um território onde as manas acabam por escavar durante dois anos um túnel numa gruta da Eslovénia – a caverna de Postojna -, num gesto metafórico de “magia real”. É quando o filme abandona a história convencional sobre amor, rejeição e tribunal para entrar numa parábola sobre a ligação entre duas pessoas, a separação e a procura de um lugar entre a alma e a imaginação.

Há várias películas possíveis dentro de Bucking Fastard: a história das gémeas, o romance, a comédia negra, o drama judicial, o filme sobre a obsessão e, finalmente, a deriva quase fantástica. O problema é que nenhuma delas se revela particularmente interessante. Nesse sentido, a frase de Herzog sobre o guião ganha, por isso, uma segunda leitura – a liberdade faz parte da sua poética. O problema nem está necessariamente na multiplicidade, mas no facto de essas possibilidades nunca chegam a transformar-se numa verdadeira necessidade cinematográfica. Bucking Fastard parece várias vezes prestes a descobrir um filme mais interessante do que aquele que finalmente constrói.
O dia ficou ainda marcado pela atribuição do Prémio FIPRESCI ao filme Batalha Atrás de Batalha, de Paul Thomas Anderson, por sinal um filme descoberto o ano passado em San Sebastian, mas que não chegou a produzir o impacto desejado. Mas essa é uma questão para outro momento — e para outro filme.









