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San Sebastián: o cuidado, a natureza e a descoberta de nós próprios

Mike Leigh deixa-nos a receita de vida; Moland leva-nos a vivê-la, Harada a apreciar as pequenas coisas. E Dumont (e Joaquim Sapinho) e devolver o mundo inteiro às crianças! Que mais poderíamos querer?

Chegados a meio do festival, eis que já (pelo menos) há um filme que merece prémios altos. Mike Leigh sugere, em Tender Loving Care, uma receita delicada onde, sejamos honestos, a Concha de Ouro não ficaria mal vista. Mas ainda muitos filmes passarão pelos ecrãs de Donostia. Apesar de num outro patamar, há a considerar a força telúrica de The Growth of the Soil, do norueguês Hans Petter Moland, bem como a relação entre memória, arte e família no igualmente delicado In My Father’s Room, da autora japonesa Maha Harada, aqui a estrear-se no cinema. E até, o muito curioso Les Roches Rouges, de Bruno Dumont, com a produção da Rosa Filmes de Joaquim Sapinho a fazer-nos lembrar que é possível fazer cinema deixando às crianças o espaço para inventarem o seu próprio mundo.

Mike Leigh (83 anos) regressa com um dos seus melhores filmes, pelo menos desde Segredos e Mentiras (foi há precisamente 30 anos) condensando uma das características mais fortes do seu cinema: uma atenção profunda às coisas aparentemente simples da vida. O próprio título diz quase tudo. Tender Loving Care — cuidado, ternura, atenção. Ou seja, aquilo que precisamos sobretudo quando a vida começa a aproximar-se do fim, mas também o que podemos oferecer aos outros.

Leigh constrói o filme à volta de Rosie (Alice Bailey Johnson), uma assistente social que trabalha com pessoas vulneráveis e que mantém, fora do trabalho, uma relação de amizade particularmente luminosa com Amy (Kate O’ Flynn), a melhor amiga que regressa a casa depois de uma separação. Ao lado delas estão os pais de Amy (Marion Bailey e Paul Jesson), velhos personagens de um universo muito à Leigh, com quem se partilham chás, canções, pequenas histórias e uma intimidade que o cinema raramente consegue transformar em matéria tão verdadeira. Algo que Leigh  capta com planos muito aproximados, quase fazendo-nos pensar na intimidade televisiva – embora, ao contrário do que sucede com outros casos – é sempre o cinema que vemos.

Tender Loving Care, de Mike Leigh

Mesmo quando o ênfase é dado ao tempo que as pessoas passam juntas, aos pequenos gestos, às conversas, às histórias. Às conversas de mulheres em redor de um copo de branco gelado, ou em família diante de um chá cosy. No fundo, aos cuidados. Pois este é um filme sobre cuidar — e sobre aquilo que significa continuar a cuidar quando a vida começa a retirar-nos algumas das pessoas de quem cuidamos. A tristeza está sempre presente, mas o filme nunca se entrega inteiramente a ela. Lá está, se este foi o derradeiro filme de Leigh, fechará da melhor maneira uma carreira tremenda – e plena de tender loving care.

Em The Growth of the Soil, a escala muda radicalmente. Hans Petter Moland ensaia um filme sobre o efeito do tempo da Noruega rural do século XIX, numa adaptação de Knut Hamsun que parece querer regressar a um mundo anterior ao nosso. Isak (Herbert Nordrum) chega a uma região montanhosa e selvagem, encontra um pedaço de terra e começa literalmente a construir a sua vida com as próprias mãos. Madeira, pedra, frio, fogo, animais: o homem contra — ou dentro — da natureza.

Os primeiros momentos do filme são quase primordiais. Moland aproxima-se do material como se estivesse a filmar uma espécie de Génesis, num filme profundamente telúrico, acompanhando o trabalho físico de Isak e Inger (Asta Kamma August), uma mulher marcada por um defeito físico, mas que se reconhecem como num momento primordial e sobre uma paisagem ainda não dominada pelo homem. Ao torná-los imutáveis com o tempo, Moland ensaia um curioso diálogo com o tempo, envolto num cinema que devolve uma dimensão quase esquecida à relação com a natureza: a vontade de regressar à terra, de perceber o que significa construir uma casa, plantar, criar filhos, sobreviver. Ainda que o mundo moderno acabe por chegar. Primeiro, através do Estado, dos impostos e da propriedade; depois através das possibilidades que se abrem para Inger e que começam a pôr em causa a ideia de vida que Isak construiu. A natureza continua imensa, mas já não está fora da História.

Vimos ainda In My Father’s Room, da autora japonesa Maha Harada, aqui no primeiro gesto de cinema, abordando uma mulher que regressa ao universo do pai depois da sua morte e descobre nele uma relação com a beleza que desconhecia: a poesia, a pintura, os objectos, a cerimónia do chá. A presença de Mark Rothko é particularmente significativa. Numa das cenas, o pai lamenta que já não cheguem livros de poesia às livrarias, diante de uma grande tela de Rothko, entendida como uma janela para outro lugar.

Les Roches Rouges, de Bruno Dumond e produção de Joaquim Sapinho.

Por fim, a bela surpresa que nos deu Bruno Dumont – mas tambném o prodiutor português Joaquim Sapinho! – com Les Roches Rouges, um filme onde os adultos estão praticamente proibidos de entrar no enquadramento, deixando um espaço de total descoberta por miúdos (com seis, sete anos). De certa forma, é como se fizessemos uma variante infantil do filme de Han Peter Molland,  onde lhes é dada a total liberdade de ocupar o espaço, de serem aventureiros, até mesmo petits criminels, ou ainda candidatos a ensaiar as primeiras histórias de amor numa narrativa que os adultos não conseguem (mesmo!) acompanhar. É aí que nos lembramos inevitavelmente de L’ill Quinquin (2014). A paisagem da Côte d’Azur é magnífica — o mar, os mergulhos das falésias, o comboio que atravessa o viaduto — e há uma liberdade particularmente interessante em deixar que sejam crianças a ocupar o centro de uma narrativa quase sem a tutela dos adultos.

É aí que Les Roches Rouges se torna fascinante: sobretudo pela decisão radical de retirar os adultos de cena e deixar as crianças experimentarem o cinema, a violência, o jogo e a própria representação. Depois de um dia em que Mike Leigh nos recorda a importância de cuidar, Moland nos devolveu à terra e Harada à arte, Dumont entrega o mundo aos mais novos. E, por algumas horas, San Sebastián pareceu mesmo querer começar tudo de novo. Bem feito!

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