Sérgio Graciano cumpre esse feito notável de mergulhar na densidade romanesca sem perder o pé – e sobretudo sem ceder aos tiques do ecrã mais pequeno (e que ele conhece tão bem). Devolvendo-nos um belo filme romântico – que vai ficar clássico.
Uma confissão, desde já.
Vi Memórias do Cárcere há vários meses, salvo erro em março, numa projeção privada organizada pelo produtor do filme, Paulo Branco, após uma entrevista que lhe fiz no início do ano. Portanto, há quase oito meses. Não o revi entretanto, quando foi apresentado à imprensa. Não serve propriamente de desculpa, mas lembro-me bem do filme.

Admito também que não vi — e tenho pena — Os Papéis do Inglês. A minha prudência dizia respeito ao filme sobre a atribulada história de Camilo Castelo Branco e Ana Plácido, conduzido pela câmara de Sérgio Graciano, um realizador que sempre associei mais ao pequeno ecrã. Talvez por isso tenha também deixado escapar as suas anteriores incursões na adaptação de personalidades políticas do nosso milieu. Mas, adiante.
A evocação de uma figura tão central da literatura portuguesa, com todo o peso das suas representações históricas, deixava-me algumas reservas. Foi a insistência do produtor, bem como a de António Costa, programador e coordenador da sala Nimas, em Lisboa, que acabaram por me convencer.
E a primeira sensação — que se prolongou até ao final — foi a de que o cinema se afirmava plenamente no ecrã, do primeiro ao último frame, sem os tiques balofos tão habituais nas adaptações literárias. Pelo contrário, uma presença desempoeirada, viva e inteiramente cinematográfica. Ou seja, cinema. E ponto final. O que significa também um chapéu, ou uma vénia, a Graciano. E a Paulo Branco, por ter sabido reconhecer — conhecendo o seu trabalho — que Sérgio Graciano estava à altura de uma adaptação desta dimensão, sem abdicar dessa relação particular que se estabelece com o espectador diante do ecrã.
É claro que a presença de Albano Jerónimo — seguramente um dos maiores atores portugueses em atividade — confere ao filme uma segurança e uma espinha dorsal fundamentais. Mas há também uma inteligência na construção do espaço e na direção de atores que impede que tudo se reduza à representação de uma figura histórica. Algo que se vê na mise en scène irrepreensível, das sequências interiores e exteriores, nos décors ajustados, no ritmo justo da ação.

A partir de um dos episódios mais marcantes da vida de Camilo Castelo Branco, quando o escritor e Ana Plácido estiveram presos na Cadeia da Relação do Porto, na sequência do célebre processo por adultério que abalou a sociedade portuguesa do século XIX, o filme transforma o cárcere num extraordinário lugar de histórias. Sobretudo nas sucessivas sequências de encontros com as diversas personagens que conferem uma inesperada densidade a este universo. Falsários, parricidas, infanticidas e até um rei cruzam-se neste conjunto de existências amarguradas, que Camilo observa, escuta e recria através do seu inesgotável génio narrativo. Mais do que uma reconstituição histórica, Memórias do Cárcere encontra aí uma matéria eminentemente cinematográfica: a capacidade de transformar vidas e desgraças em histórias.
Não surpreende, por isso, que o filme tenha reunido um consenso crítico bastante favorável. Mas, para lá do desempenho de Albano Jerónimo e de Maria João Bastos, importa sobretudo reconhecer o rigor cinematográfico com que Sérgio Graciano dá corpo e movimento a esse universo, fazendo da prisão não apenas um cenário de confinamento, mas uma verdadeira fábrica de personagens e narrativas.
Memórias do Cárcere é, felizmente, um daqueles filmes, raros, da nossa safra nacional, em que temos uma sensação de rendição. Oxalá muitos outros fossem assim, simplesmente, belos.
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