Começou com Murnau e terminou com Liesen. Pelo meio, descobrimos a urgência de Ghatak e de Bardem. Sempre diante do olhar desafiante e, estranhamente sedutor, de Stanwyck. Assim foi o nosso Ritrovato. Mas não só.
O Il Cinema Ritrovato confirmou uma aguardada versão XL da cinefilia: não só pelo alto teor calórico do programa (algo já habitual), mas sobretudo pela ambição de reinscrever o cinema do passado num presente de renovada cinefilia. Nestes dias de calor tórrido, as salas de cinema encheram-se, tal como a monumental Piazza Maggiore, confirmando este espaço de cinema de património como lugar privilegiado onde o arquivo não é um bem estático, mas antes uma dimensão de reativação estética, esplendor e até ativismo político.
Desfrutámos da modernidade quase centenária de Aurora (1927), de F.W. Murnau, evocando esse triângulo dramático elementar, ambientado “em parte nenhuma e em todo o lado”, como sugere a legenda inicial, celebrando o envolvimento entre um homem (George O’Brien) e duas mulheres (Janet Gaynor, que venceria o primeiro Óscar de Melhor Atriz, mas por uma tríplice de papéis, incluindo ainda 7th Heaven e Street Angel, e ainda Margaret Livingstone) num movimento que articula as emoções ao longo das três fases do ciclo solar (amanhecer, entardecer e noite). Como se previa, uma esplendorosa projecção ao ar livre, com nova partitura musical do maestro Timothy Brock, partilhada por alguns milhares, na celebração conjunta deste poema visual que mantém intacta a modernidade, mesmo um século após a sua estreia. Seguramente, um filme que justifica a classificação do mais belo filme do mundo, na estreia mundial do restauro efetuado pelo San Francisco Film Preserve, a partir dos elementos de 35mm recuperados e trabalhados pelo BFI National Archive, Cinémathèque royale de Belgique e a L’Immagine Ritrovata, entre outros parceiros.

A mesma ideia de contemporaneidade atravessa também a retrospectiva dedicada a Barbara Stanwyck. Mais do que uma simples homenagem, tratou-se de uma reavaliação de um vigoroso “corpo de trabalho que resistiu à tipificação”, como observou a curadora Molly Haskell. Desde logo, pela relação directa que a sua voz — simultaneamente áspera e suave — estabelece com o espectador, sem nunca perder uma dimensão mundana, articulada entre o gesto e a sua contenção. Um estilo e uma força já evidentes em Ladies of Leisure (Frank Capra, 1930), um dos seus primeiros filmes, no início do sonoro e ainda antes dos ditames morais do Código Hays. Vinda do vaudeville, Stanwyck afirma uma presença que recusa a estilização glamorosa, seja na reconfiguração do ritmo da screwball comedy em Ball of Fire (Howard Hawks, 1941), num eficaz jogo de duplicidade performativa, seja na sua capacidade de se entregar ao melodrama em Stella Dallas (King Vidor, 1937), onde a emoção é deslocada para a margem do visível.
Esse percurso atinge um dos seus zénites em Double Indemnity / Pagos a Dobrar (Billy Wilder, 1944) — recentemente revisto na Cinemateca Portuguesa, no ciclo Histórias do Cinema, com acompanhamento de Adrian Martin —, prolongando-se ainda em Forty Guns (Samuel Fuller, 1957), onde volta a afirmar, em simultâneo, poder e instabilidade. Em suma, uma actriz que nunca se fixa numa imagem única — e que, por isso mesmo, permanece surpreendentemente moderna.

Num outro eixo do programa, a redescoberta de Ritwik Ghatak assumiu a sua dimensão declaradamente política. Frequentemente colocado na sombra de Satyajit Ray, apesar de ter começado a filmar antes de Ray, Ghatak emerge aqui como uma figura radicalmente distinta. Seguimos três das suas (oito) obras apresentadas em Bolonha, complementadas pela apresentação do documentário ainda não terminado Ghatk Was Here, de Sanghita Sen, e do debate onde a cineasta descreve o cineasta bengali como uma figura de fricção, marcada pela experiência da Partição de 1947. “Ghatak não filma apenas personagens, filma uma civilização ferida”, sublinhou Sen, numa uma chave de leitura que atravessa Meghe Dhaka Tara (1960), Komal Gandhar (1961) e Subarnarekha (1962). Nestes filmes, o melodrama torna-se forma de resistência: o grito final de Nita, em Meghe Dhaka Tara, é já o tom de denúncia que nos levará à diáspora da partição da Índia, encarada como ferida irreparável. Formalmente, Ghatak constrói um cinema de confronto, onde a montagem disjuntiva e o uso expressivo do som recusam qualquer transparência.

O festival dedica ainda um amplo tributo a Juan Antonio Bardem, figura central de um cinema espanhol comprometido (tio do atro Javier Bardem), moldado pela censura do franquismo e por uma pulsão de intervenção directa. De Muerte de un ciclista (1955) a Calle Mayor (1956), passando por Cómicos (1954), a sua obra expõe uma tensão persistente entre constrangimento e expressão, entre alegoria e frontalidade política, prolongando-se até aos filmes realizados já em contexto de abertura democrática.
Por fim, fomos espreitar os dois primeiros capítulos da mini série Mr. Scorsese, de Rebecca Miller, um registo muito completo que oferece um contraponto contemporâneo da trajectória do realizador nova-iorquino. Adoptando um registo de auto-reflexão, Miller recupera os tempos de Marty nas ruas de Manhattan até percorrer a década de 70, de Taxi Driver a New York New York. Mais do que um documentário biográfico, é um poderoso documento de memória onde se revisita os momentos decisivos da sua carreira, embora sem esquecer os excessos e fragilidades.
Já a olhar no retrovisor esta edição XL, confirma-se uma vez mais que o Il Cinema Ritrovato se reafirma como um verdadeiro laboratório da memória, onde o cinema do passado se assume como atualização de uma fulgurante comunhão de cinefilia.








