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Paula Tomás Marques sobre ‘Duas Vezes João Liberada’: “Interessa-me trabalhar a ambiguidade, não resolver o enigma”

Há em Duas Vezes João Liberada uma recusa de estabilização que atravessa tanto o filme como o modo como Paula Tomás Marques o pensa e descreve. Mais do que se apresentar como objecto temático fechado, este projecto muito pessoal, saído da Escola de Cinema, afirma-se como um campo de tensões formais e narrativas que a realizadora sintetiza numa ideia simples, mas exigente: trata-se “de cinema”, antes de qualquer outra coisa.

O que Paula Tomás Marques e June João apresentam é, antes de mais, “cinema, ponto final”. Uma afirmação que, longe de ser tautológica, opera como gesto de delimitação face a leituras redutoras. O filme, apresentado em estreia mundial, no festival de Berlin, em 2025 (onde falamos com a realizadora), afirma-se também como “transgénero”, não apenas pela identidade da realizadora e da actriz principal, mas pela própria arquitectura do projecto: uma obra que se desloca entre tempos, corpos e dispositivos, recusando fixar-se numa ontologia estável. A narrativa convoca a figura de uma actriz trans que, no presente, interpreta uma jovem dissidente de género perseguida pela Inquisição, uma personagem apresentada como historicamente fundada, mas que integra, afinal, um jogo metaficcional onde invenção e historicidade se contaminam.

Ao abordar a passagem à longa-metragem, Paula Tomás Marques explica que este filme surge como prolongamento natural de um impulso anterior, ligado à vontade de trabalhar estruturas mais densas e estratificadas. Recorda-nos que, durante a sua formação, “sempre escrevia coisas enormes” e que os seus professores lhe diziam que esses projectos “iam parar a longa”, acrescentando que “tinha sempre várias camadas que ia explorando, ou seja, tinha plots e subplots. Numa curta metragem é muito difícil às vezes desenvolver e fazer estruturas maiores”. Nesse sentido, esta primeira longa surge como “a oportunidade para desenvolver um bocado isso”, ainda que o resultado mantenha uma natureza ambígua, como reconhece: “achávamos que ia ser uma curta longa e acabou a ser uma longa curta”.

Duas Vezes João Liberada, de Paula Tomás Marques

Essa multiplicidade de camadas está directamente ligada à forma como a realizadora encara a relação entre experiência e criação. Paula Tomás Marques sublinha que “cada um trabalha o que vive na sua vida” e que, inevitavelmente, “as minhas vivências e as pessoas à minha volta, de alguma forma fazem parte das coisas do filme”. Essa presença pode manifestar-se de formas distintas, “às vezes de forma um pouco mais directa, outras de forma um menos directa”, dependendo do projecto e da perspectiva adoptada. No caso de Duas Vezes João Liberada, essa dimensão cruza-se com um olhar sobre o próprio fazer cinematográfico, já que “a questão metacinematográfica, as dinâmicas de produção e de cinema, é uma coisa que vem muito de uma experiência colectiva de trabalhar em cinema. É algo que vem como um espelho dessas vivências”.

O filme nasce também de um processo profundamente colaborativo. A realizadora descreve-o como algo que emerge “de uma coisa de amizade”, construída ao longo de anos de trabalho e discussão contínua. Explica que o ponto de partida esteve numa investigação iniciada em contexto académico, centrada em movimentos feministas e transfeministas, onde procurava “encontrar de alguma forma pessoas trans e queer na História”. Esse material foi sendo partilhado e discutido, levando a uma mudança de direcção: “começámos a perceber que essas questões que tínhamos à volta dessa investigação, e dos julgamentos que encontrávamos, era mais interessante do que só a ideia de fazer um biopic, ou um filme histórico”. O projecto desloca-se então para um território onde a própria representação se torna problema e motor do filme.

É nesse contexto que a dimensão metaficcional se afirma como elemento estruturante. Paula Tomás Marques explica que, a partir do momento em que essas questões passam para o centro do projecto, o filme se torna inevitavelmente reflexivo sobre si próprio. Refere que “o que nos interessa mais são as questões à volta da representação de uma pessoa que foi jogada para a Inquisição”, acrescentando que “tornar essas perguntas o centro do projecto é de alguma forma torná-lo meta, ou seja, de forma literal”. No interior do filme, essa inquietação traduz-se numa personagem que “está constantemente a fazer perguntas, está constantemente a si própria, está constantemente a questionar como é que as coisas poderiam ser feitas, como é que ela não gosta que sejam feitas”.

As condições de produção reforçam essa lógica de construção aberta e contingente. O filme resulta, como a própria descreve, de “toda essa manta de retalhos, de apoios e de parcerias que permitem, claramente, o filme acontecer”, combinando contributos institucionais, colaborações e recursos acumulados de projectos anteriores. A limitação de meios implicou escolhas concretas, desde logo ao nível do tempo disponível para filmar, fixado em “treze dias”, o que obrigou a uma gestão rigorosa das prioridades e a uma constante negociação com as condições materiais.

Apesar dessas limitações, Paula Tomás Marques sublinha a importância de uma rede de cumplicidades que sustenta o projecto, destacando o envolvimento de pessoas que “acreditam nas coisas e têm vontade de fazer”. Essa dimensão colectiva estende-se ao próprio dispositivo do filme, nomeadamente na exposição da equipa em frente à câmara e na tentativa de criar um ambiente de trabalho mais horizontal. Ainda assim, a realizadora recusa qualquer idealização desse processo. Reconhece que “não podemos romantizar isso” nem afirmar que foi alcançado “um modelo democrático perfeito de rodagem”, sublinhando que essas estruturas continuam a ser atravessadas por hierarquias e constrangimentos que não desaparecem.

É nesse equilíbrio entre ambição e limite que Duas Vezes João Liberada se constrói. Mais do que oferecer respostas fechadas, o filme organiza-se em torno de perguntas que permanecem activas, reflectindo um processo que, como sugere a própria realizadora, está menos interessado em fixar posições do que em abrir o campo de possibilidades dentro do próprio cinema. Sim, mas não no sentido de uma leitura directa ou identitária. As experiências entram, inevitavelmente, mas o interesse está mais em como elas são transformadas e interrogadas dentro do filme.

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