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Nova ’78: anatomia de uma convenção mais ‘stranger’ que ‘paradise’

Rodrigo Areias recupera um fragmento singular do final da década de 70, devolvendo-nos um improvisado happening, algures entre o lastro beat e a emergência punk.

Nova Convention – Nova Iorque 1978 (foto: Nitrato)

Abre-se a janela para um momento preciso no tempo e no espaço: a Nova Convention, realizada entre 30 de Novembro e 2 de Dezembro de 1978, em Nova Iorque. Na altura, a ambição passava por reunir a nata da avant-garde desse final de década, num encontro deliberadamente heterogéneo de artistas, músicos e pensadores, unidos por uma ideia comum de experimentação e ruptura À cabeça, a herança de William S. Burroughs, com quem Howard Brookner (1954–1989) privou durante vários anos, em registos entretanto recuperados por Aaron Brookner e retrabalhados com a cumplicidade do português Rodrigo Areias.

Estreado há precisamente um ano no Festival de Locarno, Nova ’78 assume-se como experiência de imersão no coração da contracultura dos anos 70 impondo uma lógica de imersão directa, onde cada presença contribui para um espaço fluido onde se cruzam música, literatura e arte performativa. Não deixa de ser revelador notar a participação dos ainda muito jovens Jim Jarmusch e Tom DiCillo — um no som, outro na imagem — ainda muito antes de colaborarem juntos em Stranger Than Paradise (1984).

Patti Smith puxa das notas para compensar ausência de Keith Richards (foto Nitrato).

Entre momentos de deriva e fragmentos dispersos, cruzam-se figuras como Patti Smith, Philip Glass, Laurie Anderson e Allen Ginsberg. Tão relevantes quanto os presentes são os ausentes: Keith Richards, anunciado como cabeça de cartaz (eram os tempos de Some Girls), acaba por não comparecer — retido, enfim, segundo consta, por posse de substâncias ilícitas e pesadas (enfim). A ausência desencadeia um dos momentos mais reveladores do filme, quando Patti Smith, em palco, sugere ironicamente reembolsos ao público. Ninguém reage: o gesto integra-se plenamente no espírito performativo do evento.

Nova ’78 não escamoteia o tédio, os tempos mortos ou os falhanços. Uma performance de Merce Cunningham com John Cage parece ficar em suspenso, enquanto Frank Zappa — assumidamente avesso à leitura — recita a célebre passagem do “talking asshole” de Naked Lunch com uma displicência quase provocatória. Mais do que documentar, o filme transmite um “estado de espírito”: o de um happening tardio, já em transição da anarquia difusa dos anos 60 para a urgência mais crua do punk. A presença de Patti Smith, com a sua guitarra distorcida, torna-se índice dessa mutação. O que permanece não é a coesão de um evento, mas a sua instabilidade — a deriva de uma geração em busca de novas formas.

A música original de Paulo Furtado, aka The Legendary Tigerman, acrescenta uma camada decisiva a esta operação. Entre o hipnótico e o psicadélico, não ilustra o arquivo — reinscreve-o, criando uma ponte sensorial entre 1978 e o presente da montagem.

William S. Burroughs e Frank Zappa (foto: Nitrato)

Talvez o aspecto mais relevante de Nova ’78 resida na validade do documento que hoje recebemos. Mais do que recuperar imagens perdidas, o filme reativa um arquivo aberto, poroso, disponível a novas leituras. A montagem de Aaron Brookner e Rodrigo Areias evita a museificação: preserva falhas, hesitações e momentos de dispersão, recusando a ideia de um passado estabilizado. O que aqui se afirma é a permanência de um dispositivo crítico — o de uma geração transgressiva que, ainda hoje, continua a interpelar o presente.

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