Aproxima-se um novo ciclo Nolan
O realizador britânico Christopher Nolan sempre foi exímio em trazer-nos filmes confusos, mas marcantes – vejam-se os casos de A Origem (2010), Tenet (2020), Memento (2002), etc. No entanto, todos nasceram da sua imaginação e criatividade, obras únicas que o definiram como uma das grandes mentes (ligeiramente incompreendidas) do cinema. Nolan sempre explorou conceitos paradoxais e pouco fundamentados que nos obrigam a ver um filme de outra maneira, sem ser apenas a ouvir efeitos especiais e bater palmas (ou não) no fim.
A Odisseia – sem dúvida o filme do ano – é o regresso do realizador a retratar uma obra ou evento já existente, em vez de produzir algo único, como sempre fez.
Perguntei-me logo o porquê da escolha da Odisseia de Homero e por que não outra epopeia ou poema ilustre, mas talvez a história de Ulisses (Matt Damon) fosse mesmo mais fácil de transportar para o grande ecrã. O poema épico contém uma narrativa muito propícia a uma adaptação cinematográfica: um herói, um objetivo, uma jornada. Duvido que, por muito audaz que seja, Nolan fosse pegar numa A Divina Comédia e realizar um filme, até porque foge um pouco ao seu padrão de explosões e lutas, mas há algo que é certo: se for para recriar algo para o cinema, ao menos que seja Christopher Nolan a fazê-lo.
A Odisseia segue Ulisses e a sua jornada de volta a casa. O homem que carregou o peso de milhares de soldados de Ítaca, de todos aqueles que batalharam ao seu lado e morreram para concretizar o seu plano de infiltração em Tróia. Acompanha essa jornada de 20 anos para regressar a um reino dominado pela incerteza. Enquanto Ulisses e os seus homens esperam para “desembarcar” em Tróia, Telémaco (Tom Holland), o filho, e a mulher Penélope (Anne Hathaway) esperam, hesitantes, pelo regresso. Mas a guerra durou 10 anos; foram as adversidades provocadas pelos deuses que alongaram a sua chegada a casa, impulsionadas pelo desrespeito, não de Ulisses, à Lei de Zeus. Anfitriões e hóspedes têm o dever de tratar-se com generosidade e, em qualquer circunstância em que isso não fosse respeitado, a ira de Zeus fazia-se sentir.
As mortes dos soldados de Ulisses, causadas pelo ciclope Polifemo na sua caverna, o desrespeito que os homens do herói de Ítaca tiveram perante o gado sagrado de Hélios, ao comerem os animais, e o facto de Ulisses ter cegado o ciclope com uma lança ardente, enfurecendo Poseidon, pai de Polifemo, tudo isso fez com que o protagonista retornasse a casa sozinho, pois foi o único a não desrespeitar a Lei de Zeus. O bilhete de volta a Ítaca foi marcado pelos vários eventos em que Ulisses foi gradualmente perdendo os que lutaram consigo, até naufragar na ilha da ninfa Calipso, após Zeus ter punido os seus homens pelo desrespeito a Hélios.

A honra é um valor muito forte nesta história e está visível dos menores detalhes aos maiores momentos, particularmente quando Ulisses caça, pois nunca acerta no seu alvo sem ele saber; assinala sempre a sua presença, transformando a caçada num combate justo. Ou mesmo na lealdade aos deuses ao respeitar cegamente a Lei de Zeus. Neste aspeto, o filme passa bem a mensagem desta moralidade inabalável de Ulisses.
Para um filme que pretende retratar possivelmente a peça mais épica alguma vez escrita, as rodagens gravadas totalmente em câmaras IMAX de 70 mm encaixam bem na realização e fazem com que o cenário respeite o grau de “incrível” da Odisseia de Homero. O som e a imagem do filme são os mesmos a que Nolan já nos tinha habituado (muito bons) e o cineasta também não deixou de fora o seu tão icónico behind-the-back shot (ou over-the-shoulder), onde procura captar não só a visão da personagem como as suas expressões.

Apesar de uma produção positiva, certas atuações deixaram a desejar, como a de Tom Holland, especialmente num filme que seria a sua grande oportunidade para se mostrar um pouco mais ao público. No entanto, sente-se que a personagem de Telémaco tem pouco impacto e não se faz sentir. Já a exibição de Robert Pattinson como Antínoo, que representa o papel de pretendente e, consequentemente, vilão, é de se destacar.
Tal como em Interstellar (2014), Anne Hathaway é parte desse “objetivo final” de regressar a casa. E Matt Damon? Está habituado a protagonizar filmes cujo ponto fulcral é retornar para os seus – como em Perdido em Marte (2015), O Resgate do Soldado Ryan (1998) ou, até, Interstellar.
Opinião Final
A Odisseia pode estar a marcar o início de um novo ciclo para Christopher Nolan, um ciclo onde o realizador poderá continuar a adaptar ao cinema histórias já existentes, tal como fez em Oppenheimer (2023). Não é a versão de Nolan que mais apreciamos. Sentimos falta das histórias insondáveis, que nos deram, Following (1998), Memento (2000) ou Prestige (2006); ainda que a sua capacidade para reproduzir essas narrativas, em que sempre participa na adaptação, é praticamente inigualável. Dito isto, teremos de esperar para ver se o cineasta irá regressar às suas tendências antigas, ou se teremos, no futuro, uma Ilíada…









