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Odisseia na Praia da Vieira

Entre Ítaca e a Praia da Vieira, a distância mede-se menos em quilómetros do que em meios. Nolan tem tudo — menos aquilo que faz um verdadeiro épico.

A Odisseia, na versão de Christopher Nolan, confirma-se como uma proposta de espetáculo audiovisual, suavemente adolescente, orientada para uma chamada às salas de cinema, qual canto de sereias em modo IMAX, tentando desviar o olhar de ecrãs bem mais reduzidos. Pena é que o filme baixe claramente a fasquia, apostado num registo de ação contínua, insuflado de aparato técnico, mas desinvestido onde mais deveria prometer, ou seja, na construção de um ADN épico verdadeiramente digno dos deuses do Olimpo e que a obra de Homero exige.

Nolan na construção de um épico IMAX.

Ao longo das quase três horas, o filme organiza-se num desfolhar enciclopédico dos “trabalhos de Ulisses” — do cavalo de Tróia ao confronto com o Cíclope Polifemo, passando pelo canto das sereias, Circe ou Calipso —, apresentados como entradas funcionais e imediatamente reconhecíveis, embora desprovidas de uma verdadeira densidade dramática ou poder de assombro.

Curiosamente, neste storyboard de episódios emerge um poderoso elenco de estrelas, sobretudo feminino — Anne Hathaway, numa convincente Penélope, Charlize Theron como Calipso, Zendaya, no papel de Atena, ou Samantha Morton, talvez até no melhor papel, como a feiticeira Circe – que, de alguma forma se impõe num filme que, curiosamente, não exala a testosterona, e antes assume alguma fragilidade masculina. Até porque temos ainda o sublinhado de Lupita Nyong’o, encarregue do papel de Helena de Tróia, ‘a mulher mais bela do mundo’ ou Elliot Page (antes Ellen Page) como o bravo guerreiro Sinon, numa camada conveniente de diversidade (justificada até), embora alterando pouco a consistência dramática do conjunto. Do lado guerreiro, Matt Damon cumpre um Ulisses humano, embora também, talvez, menos canónico. Ou até um (talvez demasiado) frágil Tom Holland, no papel do filho Telémaco que espera Ulisses, embora falho da espessura dramática que o papel exigiria. Robert Pattinson cumpre o papel de Antínoo, exibindo um registo de vilania pouco mais do que decorativo, onde Himesh Patel (Euríloco) e Jon Bernthal (Menelau) reforçam essa persistente sensação de superfície.

Esta lógica de catálogo parece responder a uma dupla necessidade: tornar o mito imediatamente reconhecível, e ao mesmo tempo cativar uma geração que as salas procuram reconquistar. Nolan confirma-se, nesse sentido, como um artífice competente, tanto na gestão da escala como do dispositivo. Sucede que a escala, por si só, não garante o efeito épico — e tende, aliás, a substituí-lo por algum superficialismo.

O mito do cavalo de Troia visto por Nolan

Foi precisamente nas sequências de multidão, em particular na tomada de Tróia — talvez o momento mais canónico do filme —, que se nos impôs uma associação inesperada: o cinema do real de António Campos. Não como contraste gratuito, mas como medida. E foi como se a memória das imagens de A Almadraba Atuneira (1961), filmado no Algarve, na ilha da Abóbora, ou em Gente da Praia da Vieira (1976), nas imediações do Pinhal de Leiria, oferecessem uma monumentalidade a emergir directamente do gesto e do esforço colectivo. E que, de alguma forma, não abundam em todo o aparato de Nolan.

É que, mesmo nos antípodas absoluto do cinema de Nolan, o cinema sem meios, sem aparato e sem indústria de Campos, consegue fixar a monumentalidade dessas imagens dos pescadores a empurrar os barcos contra a resistência do mar com uma força que supera todo o orçamento e toda a tecnologia. Pois é aí que o esforço humano se inscreve directamente na imagem; não é ilustrado, é vivido.

A equipa Odisseia à espera da estreia.

Há ainda um outro desfasamento: entre o mito e as suas reescritas modernas que poderia ser de alguma utilidade. De Dante a Joyce, Ulisses tornou-se menos uma figura de aventura exterior do que um dispositivo de errância interior, um modelo de deriva e de consciência. Na sua obra literária, Joyce reinscreve o percurso de Ulisses na banalidade de um único dia em Dublin, estabelecendo paralelos entre Leopold Bloom e Ulisses, Molly e Penélope, Stephen Dedalus e Telémaco — deslocando o épico para o quotidiano. Nolan, pelo contrário, faz o movimento inverso: convoca o mito para o reduzir a ilustração.

Ou seja, entre Ítaca e a Praia da Vieira, a comparação até pode parecer improvável. Mas quando o que está em causa é o realismo épico do esforço humano, talvez a proximidade não seja assim tão descabida. Quem sabe, se calhar, o verdadeiro cavalo até pode estar mesmo na Praia da Vieira.

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