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Rosebush Pruning: a poda do (novo) charme discreto da burguesia

Aí está o novo filme do brasileiro Karim Ainouz, em estreia antes de chegar à plataforma MUBI, numa adaptação calórica do filme de estreia de Bernardo Bertolucci.

Descoberto no passado festival de Berlim, Rosebush Pruning prepara-se para a descoberta do seu público deste novo andamento do brasileiro Karim Aïnouz, ele que foi um dos candidatos putativos à conquista do urso de Ouro. Na altura, mencionei esse esboço gélido (e inerte) do espetáculo das elites entediadas e ociosas, nas suas vilas palacianas, nos arredores de Barcelona, onde a nossa atenção se dissolve em pequenos escândalos íntimos e rituais vazios. 

Bem vindos então ao novo charme (pouco) discreto da burguesia que convida o espectador a acomodar-se — seja no sofá do streaming – convém referir que este é um título MUBI – ou na sala escura, contemplando a opacidade destes mundos fechados. Ainda que esse fascínio e ousadia não se traduza necessariamente em empatia: as personagens são, em grande parte, figuras de manequim emocional, usadas para encenar excessos diletantes e autoabsorção sem limites.

Callum-Turner-Photo-credit-Felix-Dickinson (Nitrato Filmes).

Já se sabe que Rosebush Pruning evoca um diálogo de proximidade com o filme estreia de Marco Bellochio (I Pugni in Tasca, de 1965 – comentado pelo próprio numa conferência que assistimos, em Riade, em novembro passado), a verdade é que o autor de Motel Destino(2024) e Praia do Futuro (2014), deixa-se levar pelo guião feroz de Efthimis Filippou, habitual escriba do também grego Yorgos Lanthimos. E pelo niilismo que domina esta família inerte de herdeiros americanos, instalados em Barcelona, a usufruir da forma mais diletante do prazer das griffes product placement facilitado pela milionária fortuna da mãe (Pamela Anderson), aparentemente, dilacerada por lobos do bosque local. Uma matilha que passa a ser diariamente alimentada com um cordeiro diário, exigência do Pai cego (Tracy Letts), uma figura autoritária com tiques de depravação (em vez da mãe a domina na família do filme de Bellochio).

Este quarteto de quatro irmãos, infelizes e preguiçoso, vive numa mansão na Catalunha, é narrado por Ed (Callum Turner) como um podcast familiar, acomodando ainda Jack (Jamie Bell), o mano mais velho, e responsável, namorado de Martha (Elle Fanning), embora também alvo e tensão permanente com os mais jovens, Robert (Lukas Gage), a irmã insinuante Anna (Riley Keough). Pelo meio haverá ainda um segredo maternal a revelar, bem como a ‘poda’ das ‘pétalas’ a que refere o título original de Bellochio.

É, aliás, a propósito de Martha que despoleta a discussão e a cena mais interessante do filme, justamente quando o patrão da casa solicita, à mesa, uma descrição física de Martha, incluindo, em particular, os seios dela, acabando por gerar a divertida comparativa com o peito de Anna. Lá mais para o meio do filme acontecerão ainda outros excessos, muito mais gráficos (e abjetos) que evitamos descrever. 

Digamos que Karim Aïnouz faz o que pode a partir do guião de Filippou, onde se sente um prolongamento da excentricidade narrativa dos primeiros filmes de Lanthimos, e, por isso mesmo, ficando-se por uma mera (e discreta) aproximação a Bellochio.

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